Nebraska, de Alexander Payne: a fantasia do milhão de dólares

Na América profunda de Nebraska, fazer um milhão de dólares é uma fantasia de velhos decrépitos cujos neurônios estão à beira de se extinguir Por Léa Maria Aarão Reis, no Carta Maior...

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Na América profunda de Nebraska, fazer um milhão de dólares é uma fantasia de velhos decrépitos cujos neurônios estão à beira de se extinguir

Por Léa Maria Aarão Reis, no Carta Maior

Há uma ou talvez duas gerações atrás, um dos mitos da cultura americana era o do indivíduo que conseguia acumular um milhão de dólares. Esse ‘primeiro milhão’ era uma marca luminosa. Um passaporte para ingressar no feliz e restrito grupo dos bem sucedidos na profissão, respeitado nos negócios e no mundo social.

E mais: a confiança na engrenagem – então ela parecia funcionar – era tão forte que atingir a marca do primeiro milhão, dizia-se, estava ao alcance de qualquer um. Era só preciso esperteza, trabalho duro, persistência e alguma capacidade de engolir sapos.

O emprego era pleno e a inflação, baixa, em plena bolha.

O mito espalhou-se até algum tempo atrás também pelos países colonizados; com sucesso e algumas variações. Mas o objetivo era o mesmo: como na vinheta surrada do burro de carga – um Sísifo às avessas – que, para continuar caminhando, trabalhando e obedecendo ao proprietário precisava ter, à sua frente, a tal cenoura inalcançável que o deixava hipnotizado.

Chega então o diretor de cinema Alexander Payne com seu excelente pequeno grande filme Nebraska – o melhor da temporada deste verão e provavelmente um dos melhores de 2014 – e diz que não é mais bem assim. Que esse tempo acabou.

Hoje, na América profunda, em crise – o filme é na fronteira norte do país, em estados com economia particularmente estagnada ou deprimida e com índices de desemprego persistentes como em Montana, Wyoming, e Nebraska -, fazer um milhão de dólares é uma fantasia de velhos decrépitos cujos neurônios estão à beira de se extinguir.

(Embora toda a noite, nos noticiários locais daqui, da mídia puxa-saco, vemos ‘especialistas’ anunciando a recuperação da economia de lá.)

O país envelheceu e está esclerosando, parece dizer Payne com seu pequeno belo filme. O que significa: quem conseguiu ganhar o milhão redentor, ganhou. Quem não chegou lá, seja bem vindo a um mundo sem perspectivas. Que entre e perca todas as esperanças.

Mas Nebraska não é um filme “triste”, como choramingam alguns, na saída do cinema. É o produto de um roteiro cinematográfico original e brilhante – coisa rara, hoje em dia -, de Bob Nelson, e é fotografado em preto e branco por um grande profissional, o grego Phedon Papamichael, parceiro de Oliver Stone e Wim Wenders, e também de Payne – fotografou Os descendentes e o ótimo Confissões de Schmidt.

A fotografia de Papamichael tem aquela profundidade dramática e a secura, que até hoje fascina ,dos filmes do cinema americano dos anos 40/50.

Assim como as fusões – o célebre fade in e fade out, no passado outra marca dos filmes americanos da época (hoje fora de moda) – as imagens são grande atrativo deste filme que, talvez por ser preto-branco, causa estranheza em determinado tipo de público viajante em um mundo cuidadosamente colorido. Como, por sinal, vêm sugerindo, este ano, as campanhas de publicidade europeias de primavera: ‘vamos botar cor neste mundo difícil’, pretendem convencer os slogans modernos.

A história do roteiro de Nelson é esta: ao receber uma propaganda pelo correio, anunciando ter ganhado um milhão de dólares, Woody Grant, o protagonista, acredita cegamente na mentira, um golpe barato e manjado para vender assinatura de revistas. O ex-soldado da guerra da Coreia, um idoso quase totalmente alienado da realidade, é interpretado, com grandeza, pelo ator Bruce Dern.

Na comovente introdução do filme, Woody está indo a pé até a cidade de Lincoln, em Nebraska, para retirar seu milhão de dólares. A polícia o intercepta e ele é levado de volta para casa. Vai fugir novamente. Sua obsessão e seu motivo de vida é viajar para receber o prêmio prometido.

Um dos dois filhos, David (Will Forte, jovem ator excepcional, aqui num papel difícil, servindo de degrau para Dern mas conseguindo manter a presença) resolve levá-lo de carro na viagem percebendo que não haveria desistência por parte do pai.

No caminho do filme, que apenas em parte é um on the road, Woody sofre um acidente e precisa descansar na casa da família de um irmão tão esclerosado quanto ele, em sua cidade natal, antes de retomar o caminho para Lincoln. Mas conta aos parentes e aos amigos de juventude o motivo da viagem e o brilhante futuro que o espera. Desperta, é claro, a cupidez de todos.

As paisagens atravessadas na trajetória por Woody, David, Payne e Phendon são desoladas. As roupas vestidas pelos personagens são ordinárias e as pessoas, um pouco deformadas e feias. O tédio e o desemprego minam a energia de todos. “Temos que fazer alguma coisa”, diz alguém, também paralisado. “O quê?” lhe perguntam. “Não sei; alguma coisa – o que for,” respondem.

No encontro entre amigos idosos que não estão juntos há 15 anos, perguntam a Woody: ”O que você conta, Woody?” “Nada”, ele responde. No bar de beira de estrada, alguém comenta: “Os tempos estão difíceis para os jovens. Esta economia acabou com eles.” E outro: ”Bebemos porque não se tem nada mais para fazer.”

Em outro momento, o velho é internado em um hospital para se recuperar do machucado em uma queda na qual perde a dentadura. A sequência de pai e filho, entre os trilhos de trem, procurando encontrar os dentes de Woody é inesquecível. A observação de David, ao lado do leito do ferido, provocando: “O seu milhão, pai, vai ser para o pagamento desta única noite aqui, no hospital.”

A família reunida conversando e vendo televisão é outra sequência antológica. Não se vê a tela. Apenas o grupo frontal de pessoas dispostas em vários níveis, como em uma plateia, chapadas, olhando para a câmera, ou seja, para o monitor de televisão. Os diálogos se desenvolvem sem que alguém se vire para olhar o outro. O olhar de todos é vítreo, petrificado, colado na telinha.

Payne e seu roteirista, Bob Nelson, banham as metáforas mordazes do seu filme, referentes ao seu país, com a delicadeza extraordinária da relação do filho para com o pai. Em nenhum momento escorregam na facilidade e na superfície do estereótipo filho-que-precisa-paternalizar-pai.

Nebraska vem com um recado positivo, irônico – é um filme alegre que parece dizer: com alguma sorte – não bem aquela, a da loteria –  e com um pouco de amor podemos ir bem, adiante.

*Foto: Divulgação



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