Uma breve reflexão sobre mulheres negras gordas e seus estereótipos

Por Jarid Arraes, Ainda há muito para ser debatido e pesquisado sobre a relação entre as questões raciais e as de gênero. Entre as mulheres negras, há diversas especificidades sociais que variam de...

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Por Jarid Arraes,

Ainda há muito para ser debatido e pesquisado sobre a relação entre as questões raciais e as de gênero. Entre as mulheres negras, há diversas especificidades sociais que variam de acordo com certos fatores, tais como orientação sexual, classe, religião, regionalidade e aparência física. Por isso, embora as mulheres negras sofram com uma série de estereótipos raciais e sexuais, elas têm experiências diferentes umas das outras de acordo com suas características.

As mulheres negras que são gordas, por exemplo, são vistas pela sociedade de um modo bastante específico. Na indústria do entretenimento há diversas personagens que exemplificam os estereótipos das negras gordas: desde filmes de drama até comédias americanas exageradas, é possível identificar uma frequente representação negativa. “Preciosa”, “Norbit”, “E o Vento Levou”, “Vovó…Zona” e até mesmo “O Sítio do Pica-Pau Amarelo” são alguns exemplos de produções que apresentam mulheres gordas e negras como pessoas de caráter duvidoso, compulsivas, descontroladas e inconvenientes, ou frequentemente reduzidas a papéis como cozinheira e empregada doméstica para desempenhar a função de serva.

(Imagem: Reprodução)
(Imagem: Reprodução)

Essa percepção limitada e negativa a respeito dessas mulheres não se encontra exclusivamente na ficção, mas faz parte da realidade de muitas pessoas que precisam lidar diariamente com as facetas do racismo. Por se tratarem de valores muito naturalizados e pouco questionados, associar determinadas características a esse grupo de mulheres é tão comum que, de tanto se repetir, vira quase um axioma. É por isso que muitas gordas negras relatam experiências de violência física e psicológica, tanto na infância quanto na idade adulta.

Há muitos paradigmas para a mulher gorda negra: ela costuma ser vista como mais velha do que realmente é, pouco cuidadosa, sem higiene pessoal, ignorante e sem educação, além dos diversos episódios de ridicularização por causa de sua aparência física. Essa representação tem grande influência na percepção da sociedade com relação a essas mulheres e ocasiona em exclusão social, levantando barreiras para que consigam um trabalho ou mesmo frequentar ambientes diversos em liberdade. Os prejuízos psíquicos em ser considerada “nojenta” são imensuráveis; é quase impossível levar uma vida produtiva e feliz quando se sofre discriminação constante, a internalização desses preconceitos gera uma percepção de si extremamente negativa e distorcida.

É interessante que, embora a “obesidade” tenha sido afirmada como um “problema” generalizado nos Estados Unidos nos últimos anos, a população que compõe a maior parte das pessoas obesas são, ironicamente, as mulheres negras. É fato que o sofrimento causado pelo racismo pode resultar em transtornos alimentares, ansiedade e outros tipos de comportamentos que ocasionam em aumento de peso. Na verdade, uma pesquisa científica na Universidade de Boston indica que as mulheres negras são muito mais propensas a obesidade quando são vítimas constantes do racismo. Segundo os dados levantados, a exposição contínua ao racismo pode desregular as funções neuroendócrinas do corpo, o que influencia o acúmulo de gordura. Embora seja somente uma pesquisa e o assunto não possa ser limitado sob essa perspectiva, é importante refletir sobre o ciclo vicioso que muitas vezes se instala.

É importante salientar que não há nada de errado em ser gorda e isso é algo que diz respeito somente à própria mulher, seja ela negra ou não. Mulheres de outras etnias também sofrem com o preconceito e ridicularização contra pessoas gordas, não obstante um recorte de raça torna possível identificar os mecanismos pelos quais o racismo continua agindo em nossa sociedade, apontando as diferenças e similaridades entre cada grupo.  As especificidades das questões raciais relacionadas a gênero precisam ser debatidas e estudadas com mais seriedade.



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3 comments

  1. amanda waller FTW Responder

    Eu conheço UM exemplo de personagem negra e gorda que saía totalmente desse estereótipo: Amanda Waller, personagem da DC comics. Ela era incrível, inteligentíssima, maquiavélica, enfrentava até o Batman. Eu adorava quando ela aparecia nos desenhos da Liga da Justiça. Aí veio os a nova onda da DC, os Novos 52, e a descaracterizaram totalmente. Antes ela era gorda, por volta dos 40 anos, e o rosto tinha traços claramente negros; agora ela é nova, magrinha, peituda, de nariz fininho e cabelo liso, e as únicas características negras que ela manteve foi a cor da pele e a boca carnuda, porque, sabe como é, boca carnuda é sexy. Foi completamente frustrante vê-la na nova versão do Esquadrão Suicida, porque não só mudaram a imagem anterior (que eu associava automaticamente com a fodacidade dela) como também a sexualizaram totalmente. É como se a função dela na história não fosse válida porque ela fugia do estereótipo de mulher-sexy que a gente vê nos quadrinhos.
    Aqui o antes e depois:
    http://robot6.comicbookresources.com/wp-content/uploads/2011/09/waller.jpg

  2. Paulo Responder

    As mulheres negras são lindas mas as negras gordas são de todas as mais belas e se suas. É a minha opinião. São muito sensuais.

  3. Bernardo Araujo Responder

    Boa tarde. Permita-me discordar, O preconceito existe na cabeça da maiorias das pessoas, sim. Contra os gordos em geral. Mas há estereótipos e papéis que nada têm de preconceituoso. Estão aí Aretha Franklyn, Queen Latifah, Oprah, Missy Elliot, Gabourey Sidibe, Mo’nique, Jennifer Hudson, Nina Simone, Dona Ivone Lara, Alcione, Clementina de Jesus, Paula Lima e outras tantas que me fogem à cabeça no momento que representam o oposto. E as atrizes o fazem em todo tipo de papéis.


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