1964: A efeméride da loucura

os grupos Globo, Folha e Estado não podem escapar ao fato de que seus dirigentes na época fizeram parte do grupo civil que manipulou e insuflou a violência militar contra as instituições. Meio século depois, os editores tentam reescrever a História

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Artigos, editoriais, pesquisas, entrevistas e reportagens publicados nos últimos dias dão o tom da insanidade que se abateu sobre o país durante aqueles 21 anos. A leitura desse material revela alguns aspectos que os jornais gostariam de ver soterrados no esquecimento

Por Luciano Martins Costa, no Observatório da Imprensa

Na segunda-feira (31/3), véspera do cinquentenário do golpe civil e militar perpetrado em 1º de abril de 1964, a imprensa completa o ciclo das revisões históricas com que procura “explicar” aquele período. Faz um quarto de século que o Brasil reencontrou o caminho da democracia, mas a sociedade brasileira ainda arrasta muitos cadáveres da ditadura e a imprensa ainda não assumiu seus erros.

Artigos, editoriais, pesquisas, entrevistas e reportagens publicados nos últimos dias dão o tom da insanidade que se abateu sobre o país durante aqueles 21 anos. A leitura desse material revela alguns aspectos que os jornais gostariam de ver soterrados no esquecimento.

O primeiro deles é a responsabilidade direta das empresas jornalísticas que se tornaram hegemônicas na imprensa brasileira justamente no período ditatorial: os grupos Globo, Folha e Estado não podem escapar ao fato de que seus dirigentes na época fizeram parte do grupo civil que manipulou e insuflou a violência militar contra as instituições. Meio século depois, os editores tentam reescrever a História.

Nas edições que marcaram a véspera do golpe, o Globo dava a senha para a mobilização das tropas golpistas: “Criou-se um soviete na Marinha de Guerra”, dizia o texto principal na primeira página. No alto, outro título afirmava: “Reage o Congresso à comunização do Brasil”.

Observe-se, porém, que na edição de segunda-feira (31), os textos que circundam a reprodução daquela primeira página de 31 de março de 1964, na seção intitulada “Há 50 anos”, omitem esse conteúdo claramente golpista. Há uma profusão de análises, algumas delas embalada por chavões do tipo “1964 – o ano que não acabou”. Predomina a tese de que o golpe foi um resultado natural da consolidação de um grupo de protagonistas que se organizou em 1930 em torno do ideário messiânico de salvação da pátria.

Os tenentes de 1930, amadurecidos em 1964, seriam, nessa versão, quase uma fatalidade inevitável. No entanto, não se pode dissimular a responsabilidade dos líderes civis nessa aventura golpista, nem omitir o fato de que os controladores da imprensa que hoje predomina na cena midiática brasileira foram os grandes articuladores da derrubada de João Goulart.

O terrorismo de Estado

Dos três grandes diários de circulação nacional, o que mais se empenha em justificar o golpe é o Estado de S.Paulo, ao afirmar que as marchas de civis “em defesa da família” foram uma demonstração de apoio da sociedade. Mas omite-se que tais mobilizações eram estimuladas pelos próprios jornais.

A Folha de S. Paulo faz uma simplificação perigosa ao destacar as supostas realizações econômicas dos governos militares, omitindo ou relativizando o fato de que as políticas do período provocaram o desmanche dos sistemas públicos de educação e saúde e agravaram profundamente a desigualdade social, tornando a economia nacional extremamente dependente dos Estados Unidos.

Os militares e seus ministros, alguns dos quais ainda são incensados pela imprensa, eram submissos vassalos do governo americano, conforme atestam documentos da época tornados públicos pela própria mídia. A observação daqueles acontecimentos no contexto da Guerra Fria, como fazem alguns articulistas, não explica como o nacionalismo exacerbado dos líderes da ditadura não os impediu de submeter suas decisões e a própria soberania nacional aos interesses dos Estados Unidos.

O fato de a marcha militar que deu início ao golpe ter sido liderada por um general de poucas luzes que um dia declarou se considerar “apenas uma vaca fardada” é parte do contexto de insanidade que define esse episódio histórico. Essa mesma insanidade se manifesta nos cinquenta paulistas que se juntaram sob a estrutura do Museu de Arte de São Paulo para homenagear os aventureiros que tomaram o país de assalto em 1964 e está presente no fato, revelado pelo Globo, de que a cúpula do regime conhecia e aprovava reservadamente os crimes de tortura e os assassinatos de dissidentes.

O atentado frustrado no Riocentro, ocorrido em 1981, em pleno processo de redemocratização, revela o grau da irracionalidade que conduzia o Estado nas duas décadas da ditadura: o jornal carioca demonstra também que o então presidente, general João Batista Figueiredo, sabia dos planos terroristas, que poderiam ter causado a morte de centenas de jovens durante um show musical – e nada fez para impedir o crime.

Nada existe para ser comemorado nesta data. O Brasil de 2014 ainda vive sob o signo da loucura que explodiu em 1964.



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