O almanaque do golpe

Almanaques são menosprezados, alimento para cérebros preguiçosos. Mas algumas vezes fazem a radiografia de um ano inteiro, com panorâmica, como é o caso de Almanaque 1964 (fatos, histórias e curiosidades de um ano que mudou tudo – e nem sempre para melhor), de Ana...

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Almanaques são menosprezados, alimento para cérebros preguiçosos. Mas algumas vezes fazem a radiografia de um ano inteiro, com panorâmica, como é o caso de Almanaque 1964 (fatos, histórias e curiosidades de um ano que mudou tudo – e nem sempre para melhor), de Ana Maria Bahiana

Por Norma Couri, no Observatório da Imprensa

 

Almanaques são menosprezados, alimento para cérebros preguiçosos. Mas algumas vezes fazem a radiografia de um ano inteiro, com panorâmica. É o caso dos Almanachs do Correio da Manhã (“offerece aos seus assignantes”) em anos-chave como 1938, 1939, 1941, grande-angular sobre o começo da Segunda Guerra Mundial. No caso da nossa guerra particular, os 50 anos do golpe militar ganham zoom no Almanaque 1964 (fatos, histórias e curiosidades de um ano que mudou tudo – e nem sempre para melhor), de Ana Maria Bahiana, recém-lançado pela Companhia das Letras. Para a jornalista, 31 de março-1º de abril foram “dois dias sem aula, que teriam sido melhores se o tempo não estivesse tão feio (nada de pegar onda em frente à rua Joana Angélica).”

792AZL_norma1“Apenas muitos anos depois tive a visão, claustrofóbica e espantosa, de que aqueles dois dias chuvosos haviam, na verdade, definido toda a minha vida adulta. A minha e a de toda a minha geração. E a que veio antes. E as que viriam depois.”

Os anos 1960 estavam marcados por guerras. A do Vietnam, a guerra pela independência travada na Argélia, Congo, Angola, Guiné e Moçambique. A guerra das populações turca e grega na pequena ilha de Chipre e a guerra entre Cuba e Estados Unidos no episódio patético da Baía dos Porcos. O assassinato de John Kennedy, os conflitos gerados pela construção do muro de Berlim três anos antes, as mudanças do posicionamento da igreja católica definidas no Concílio Vaticano II e a explosão no mundo inteiro de uma geração jovem pós-guerra.

E o Brasil nesse ano bissexto de 1964?

Coque perfeito

Greves, apagões, a revista Manchete anuncia o fim dos problemas de abastecimento de água com a adutora do Guandu, no Rio, mas a represa Billings, em São Paulo, está seca. O Aterro do Flamengo surge quase pronto com jardins de Burle Marx, mas os bens de consumo custam absurdamente caros: é luxo para poucos ter geladeira, ar condicionado, ventilador, radinho de pilha. O Repórter Esso anuncia tudo na TV Tupi. O maiô duas-peças e o “engana-mamãe” fazem sucesso nas praias cariocas. Boliche é o esporte da moda. Tom & Jerry fazem as matinês de fim de semana nos cinemas Metro – no de Copacabana, com o célebre leão na porta. Em 45 rotações os Beatles estouram com “I want to hold your hand”, a música mais tocada nas rádios durante sete semanas segundo a Billboard, nos Estados Unidos. Brigitte Bardot desembarca no Galeão a tiracolo com o namorado playboy brasileiro-marroquino Bob Zagury.

A cena política é marcada por JK, o ex-presidente Juscelino Kubitschek; Miguel Arraes, governador de Pernambuco até ser preso em 1º de abril; Leonel Brizola, deputado federal (PTB, Guanabara) cassado no primeiro Ato Institucional, quando exilou-se no Uruguai; João Goulart, cunhado de Brizola e presidente do Brasil até 1º de abril. E Carlos Lacerda, o anti-Getúlio Vargas, anti-JK, anti-Brizola, anti-Jango, anti-Jânio Quadros, um dos líderes do golpe militar prevendo candidatar-se para presidente em seguida, mas o golpe se voltou contra ele quando o general Castelo Branco prorrogou o seu próprio mandato.

Em fevereiro, o governo de Minas Gerais anuncia que vai prender quem desfilar de biquíni. No Rio, a favela do Pasmado é incendiada, e os favelados expulsos da zona sul. Meses mais tarde, o Correio da Manhã informa que o Rio tem um terço da população morando em favelas. O presidente João Goulart dá um depoimento ao colunista político Carlos Castello Branco no prestigioso Jornal do Brasil advertindo que um golpe da direita pairava no ar. “Vai custar muito sangue.” Distante da intuição de Goulart, o carnaval entoa as marchinhas “Bigorrilho”, “Se a canoa não furar” e a politicamente incorreta “Olha a cabeleira do Zezé” – “será que ele é, será que ele é?” O “mais famoso Carnaval do mundo”, o do Theatro Municipal carioca, atrai personalidades internacionais enquanto o Ministério da Marinha pede explicações sobre a exibição do “subversivo” O Encouraçado Potemkim(filme de Serguei Eisenstein, 1925), um clássicoquetrata da revolta de marinheiros na Rússia.

Agora, além de água e luz, falta açúcar. Os conflitos raciais aumentam nos Estados Unidos. Luís Carlos Prestes vai a Moscou, nossa miss Brasil e miss Universo Ieda Vargas é presa nos Estados Unidos por roubo de lingeries. Há ameaças de invasão de terras ao longo da rodovia Belém-Brasília. Dias Gomes, interrogado, informa que sua peça O Berço do Herói “nada tem a ver” com o Brasil, mas assim mesmo foi censurada quando foi para o palco em 1965 e, dez anos depois, transformada na novela Roque Santeiro (“A incrível história de Roque Santeiro e sua fogosa viúva que o era sem nunca ter sido”) foi censurada outra vez.

Em março João Goulart completa 45 anos. A classe média brasileira está ocupada em copiar os modelos de Jeanne Moreau, musa de Pierre Cardin, e o Brasil chique faz com perfeição o coque de Chanel. Vamos demorar para verAs Aventuras de Tom Jones com Albert Finney e Susannah York, a melhor comédia no Globo de Ouro em Los Angeles. Mas os brasileiros curtem o caso tórrido de amor entre Liz Taylor e Richard Burton. E Glauber Rocha cunha a famosa frase em entrevista ao Jornaldo Brasil: “Arte, aqui para nós, é na base da câmera na mão e da ideia na cabeça”.

Guerra racial

Ninguém imaginava o que se seguiria ao anúncio da candidatura de Salvador Allende à presidência do Chile. A CIA e o presidente norte-americano Lyndon Johnson acham que a crise brasileira está chegando ao auge – “não ajuda em nada permanecermos aqui enquanto o hemisfério se torna comunista”. Mas o que declara à Última Hora de 6 de abril é o contrário: “Animador verificar como a mudança de governo no Brasil ocorreu dentro dos limites constitucionais”.

Jorge Ben tem estreia acachapante, Samuel Wainer, dono da Última Hora, se asila na Embaixada do Chile, começa a greve ordenada pelo Comando Geral dosTrabalhadores, realiza-se a Marcha da Família com Deus pela Liberdade – segundo o Jornal do Brasil com 1 milhão de pessoas (o Rio de Janeiro tem 2 milhões de habitantes), a Folha de S.Paulo é apreendida pelo DOPS porque havia publicado uma entrevista explosiva com João Goulart, o Centro Popular de Cultura, o famoso CPC da União Nacional dos Estudantes, é fechado. Carlos Lacerda, em entrevista a O Cruzeiro declara: “O Sr. João Goulart é um leviano que nunca estudou – não é porque não quis, é porque não pôde. E agora, no governo do país, queria levar-nos ao comunismo”. Os Rolling Stoneslançam o primeiro LP. O papa Paulo VI pede “calma” aos brasileiros.

No Jornal do Brasil de 2 de maio, o governador de São Paulo Adhemar de Barros vangloria-se: “Fizemos a revolução antes que o povo, com suas próprias mãos, o fizesse”. O jornalista e futuro deputado Márcio Moreira Alves rebateu Adhemar no Correio da Manhãde 28 de maio: “Não são as vítimas que fazem os carrascos. É o silêncio”. Marcito, como era conhecido, causaria incômodos nos quatro anos seguintes até pronunciar, em 1968, o famoso discurso no Congresso que provocou, em resposta, o Ato Institucional nº 5. No discurso, o deputado convocava um boicote às paradas militares na Semana da Pátria e pedia às moças que não namorassem os oficiais do Exército. Em 1964, o máximo que se fez para refrescar o clima tenso foi a inauguração na TV Excelsior do programa humorístico Dercy Beaucoup, com a irreverente comediante, que não poupava palavrões, Dercy Gonçalves.

Os poetas e diplomatas Vinicius de Moraes e João Cabral de Melo Neto são investigados pelo Itamaraty. Os livros de Celso Furtado, Oscar Niemeyer e Paulo Mendes Campos são recolhidos junto com Os Miseráveis de Victor Hugo e Guerra e Paz, de Leon Tolstói. Intimada a depor no DOPS, Cacilda Becker vai acompanhada pelo marido Walmor Chagas, vestindo Dior. Banlon, Orlon, a moda da meia estação pega no Brasil junto com a saia de tergal plissado. Paris dita o dernier cria ser copiado pelas modistas, mas quem acaba em Cannes é a cadela “Baleia”, encontrada pela produção de Vidas Secas vagando pela locação do interior de Alagoas, que virou estrela do filme de Nelson Pereira dos Santos e a sensação na Croisette.

Millôr Fernandes, humorista, escritor, dramaturgo, poeta, tradutor, jornalista e desenhista brasileiro é demitido um ano antes da revista O Cruzeiro depois de lançar “A Verdadeira História do Paraíso” em dez páginas coloridas na sua seção “O Pif-Paf”. Os desenhos provocaram uma onda de indignação católica. Millôr lança então a revista Pif-Paf, que terá mil exemplares recolhidos pela polícia. A casa do editor Ênio Silveira, da Civilização Brasileira,é invadida em busca de material subversivo. Um dos itens apreendidos é uma fita com sinfonias de Brahms. Os deputados Antonio Carlos Magalhães (UDN-BA) e Pedro Braga (PTB-MA) se engalfinham por causa do discurso do deputado federal (MDB) Doutel de Andrade em defesa de João Goulart. Braga grita “vou dar uns murros nesse baiano safado lá fora”. Doutel seria cassado dois anos depois.

Os Fuzis, do moçambicano Ruy Guerra que participou do Cinema Novo no Brasil, ganha o Urso de Prata no Festival de Berlim, mas o produtor decide cortar a versão que vai para as telas brasileiras, a qual Ruy não assina. Maria Ester Bueno, a maior tenista brasileira, é novamente campeã mundial em Wimbledon depois de já ter ganho em 1959 e 1960. A campanha “Ouro para o Bem do Brasil” termina em fiasco, Lacerda almejando a presidência reassume o governo da Guanabara. Walter Silva produz mais um show no Teatro Paramount de São Paulo – “Boa Bossa” com Elis Regina, Lennie Dale, Johnny Alf, Zimbo Trio, Agostinho dos Santos, Silvio Cesar e Pery Ribeiro.

O diretor da Associação de Marinheiros e Fuzileiros Navais do Brasil, em declaração manuscrita ao Correio da Manhã de 18 de setembro, relata a tortura que sofreu na prisão. Vários presos confirmam a tortura. Quatro dias depois, no mesmo jornal, o ministro da Guerra Artur da Costa e Silva contesta: para ele, as denúncias de tortura “não passam de uma campanha bem organizada com o objetivo de desmoralizar a Revolução”.

O cantor capixaba Roberto Carlos lança o LP “É Proibido Fumar” e passa a se apresentar no programa Astros do Disco, da TV Record de São Paulo. Martin Luther King recebe o premio Nobel da Paz, em Oslo.

Guerra racial eclodindo nos Estados Unidos, aqui o Hotel Lord, na Rua das Palmeiras, em São Paulo, barra Elza Soares e Garrincha por serem negros. Helio Oiticica constrói “Parangolé” em espaço tridimensional – segundo o “Caderno B”, do Jornal do Brasil, “revolucionária” nas artes plásticas.

Leitura fútil?

O cerco aperta. As casas de Dias Gomes e Ferreira Gullar são invadidas por militares em busca de material subversivo. O filósofo e educador Paulo Freire asila-se na embaixada da Bolívia depois de passar 70 dias na prisão. Mas a Revista do Rádio, na coluna “O Mundo é dos Brotos”, de Carlos Imperial, anuncia que Elvis Presley virá rodar o filme Copacabana Bossa Nova,o que nunca aconteceu.

No ano de 1964 o genial compositor americano Cole Porter morre na Califórnia, aos 73 anos. No Brasil, o poeta e compositor (“Ninguém me Ama”), 30 anos mais novo do que Porter, Antonio Maria, morre no Rio aos 43 anos, vítima de infarto. Maior cronista do Rio n’O Jornal e O Globo, colunista feroz no jornal getulista Última Hora, adversário direto da Tribuna da Imprensa do conspirador Carlos Lacerda, Maria acabou agredido na rua por anônimos de mal com suas ideias. Concentraram golpes violentos nas suas mãos. No dia seguinte, Maria, impiedoso, sem comentar que havia sido espancado, escreve um artigo que fecha com a frase: “Que tolos! Eles pensam que jornalistas escrevem com as mãos”.

A indústria automobilística vai de vento em popa no Brasil e caminha para o lançamento do milionésimo Fusca… o que só aconteceria nos primeiros anos da década seguinte. Pelé é a estrela do futebol, mas só emplaca o milésimo gol cinco anos depois. Natal, tudo pela hora da morte. Preços impossíveis, salários arrochados, novos impostos, falta generalizada de gêneros básicos. O ministro do Planejamento Roberto Campos garante que tudo será estabilizado. Há crediário para quase tudo. Um mês antes, 22 de novembro, no Correio da Manhã, Millôr ironizava: “Consta que na próxima emissão, as notas de Cr$ 5.000,00 já trarão o Tiradentes enforcado”. Prisões, demissões. Nas telas A Pantera Cor de Rosa, O Candelabro Italiano, Irma La Douce, Boccaccio 70.

No Correio da Manhã de 4 de dezembro Costa e Silva justifica: “O Ato Institucional foi editado para evitar a implantação da ditadura”. Verão. Suntan para bronzear. Sai o Fusca com teto solar. É lançada a Fanta Laranja. Neste ano de 1964 Che Guevara discursou na ONU como chefe da delegação cubana. Morre aos 85 anos, em Nova York, a compositora austríaca e femme fatale Alma Mahler, que foi casada com o compositor Gustav Mahler, o arquiteto Walter Gropius, o poeta Franz Werfel e era a musa do pintor expressionista austríaco Oskar Kokoschka. No Brasil o filme dos Beatles A Hard Day’s Night estreia com o título Os Reis do Iê-iê-iê. O campeonato paulista de futebol termina com Santos e Portuguesa a 3×2, e o carioca com Fluminense e Bangu a 3×1. O presidente Castello Branco decreta a extinção do centavo do cruzeiro e a criação da nova cédula de Cr$ 100,00. O Correio da Manhãnoticia que um oficial da Marinha admitiu ser um agente provocador infiltrado pelo Cenimar (Centro de Informações da Marinha). Era o notório Cabo Anselmo.

O ano de 1964 termina. Para o Brasil não terminou. Muita água vai rolar e o pior estava por vir. Foram 21 anos a partir de 1964 e se enganou quem pensava que almanaque é leitura fútil, para quem não lê. Agora é que os leitores deste Almanaque vão ter vontade de saber muito mais.

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Norma Couri é jornalista



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