O caso Bolsonaro: dar as costas ou jogar o cinzeiro?

Na terça-feira (1º de abril), parlamentares deram as costas a Bolsonaro, um ex-militar sem PhD, bufão reacionário, apologista da repressão, em protesto contra seu discurso pró ditadura. Não o impediram de falar, não colocaram revólver na Mesa Diretora nem jogaram cinzeiro, já que não...

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Na terça-feira (1º de abril), parlamentares deram as costas a Bolsonaro, um ex-militar sem PhD, bufão reacionário, apologista da repressão, em protesto contra seu discurso pró ditadura. Não o impediram de falar, não colocaram revólver na Mesa Diretora nem jogaram cinzeiro, já que não se pode mais fumar no Plenário

Por Ricardo Muniz, no DCM

O jornalista Eustáquio Gomes, que deploravelmente nos deixou há poucas semanas, conta em O Mandarim que alguns dias depois da publicação do AI 5, em dezembro de 1968, José Fonseca Valverde, general da reserva, físico com PhD em Stanford e chefe das Engenharias da Unicamp, compareceu a uma reunião da comissão de ensino carregando um revólver dentro da valise. “Abriu a valise, colocou o revólver na mesa e disse: ‘Agora tem lei neste país. Vou botar todos esses comunistas na cadeia.’”

Só que César Lattes estava lá. O físico, que em 1947, com 23 anos de idade, havia confirmado experimentalmente a existência do meson pi, partícula responsável pela coesão dos componentes do núcleo do átomo – e que tinha um cachorro chamado Costa e Silva – , jogou na direção de Valverde um “pesado cinzeiro de vidro”, que passou raspando pela cabeça do general. “Pois eu mijo nesse revólver.”

Na terça-feira (1º de abril), parlamentares deram as costas a Bolsonaro, um ex-militar sem PhD, bufão reacionário, apologista da repressão, em protesto contra seu discurso pró ditadura. Não o impediram de falar, não colocaram revólver na Mesa Diretora nem jogaram cinzeiro, já que não se pode mais fumar no Plenário. Que falasse, muito embora para mim este falastrão já devesse ter sido cassado por falta de decoro parlamentar há muito tempo.

Ainda que, se fosse eu obrigado a escolher, optasse pela reação de Lattes, o dar as costas a Bolsonaro ilustra bem um ensinamento de Norberto Bobbio: em A Era dos Direitos, o filósofo político italiano afirma que só a “tolerância negativa” (a indiferença) é ilimitada, e “por isso mesmo, termina por desacreditar a própria ideia de tolerância”. Mas a tolerância deve ter limites, e o único critério razoável é o seguinte: “deve ser estendida a todos, salvo àqueles que negam o princípio da tolerância; todos devem ser tolerados, salvo os intolerantes”.

Aliás, nossa Constituição e nosso Código Penal têm normas claríssimas a respeito: “Constitui crime inafiançável e imprescritível a ação de grupos armados, civis ou militares, contra a ordem constitucional e o Estado Democrático” (artigo 5º, incisco XLIV). Você dirá: Bolsonaro não é membro de grupo armado. Fato, até onde sei. Mas o código pune claramente a incitação e a apologia de crime (artigos 286 e 287). Não é o que Bolsonaro vive fazendo?

Como era seu hábito, logo em seguida Bobbio problematiza o princípio geral que formula. “Responder ao intolerante com a intolerância pode ser formalmente irreprochável, mas é certamente algo eticamente pobre e talvez também politicamente inoportuno. Não estamos afirmando que o intolerante, acolhido no recinto da liberdade, compreenda necessariamente o valor ético do respeito às ideias alheias […] Mas é melhor uma liberdade sempre em perigo, mas expansiva, do que uma liberdade protegida, mas incapaz de se desenvolver.”

O que fazer com Bolsonaro, então? Como não seria recomendável acertar-lhe um cinzeiro bem no meio da testa, o mínimo é virar as costas, mas sempre! Aliás, não só para ele, como também para certos jornais, âncoras de TV e institutos de pesquisa cuja sem-vergonhice na mal-disfarçada apologia de tudo que não presta chegou aos limites do criminoso.



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10 comments

  1. Cristiano Responder

    Ainda axo q esse ato de ‘virar as costas’ é o mais infantil possível. Independente da situação, qnd vc da as costas vc se omite naquele assunto sendo assim plausível do msm desprezo.
    Temos de usar o congresso e a câmara para aquilo q foram feitos, discursos, e sem opiniões divergentes não existe discursão.
    Repudio completamente esses malukos retardados como o coitado q escreveu isso pelo simples fato de se achar melhor q outros por ter opinião diferente!
    Nota 0 para este artigo, que pra mim é, miserável.

  2. luizine Responder

    Nada justifica a tortura, mas o fato é que o país foi salvo pelos militares!!
    Aos democratas de ocasião: Ditadura do proletariado ou Golpe civico-militar, qual mataria menos?

    1. fer Responder

      Golpe cívico-militar? É tão bizarra essa negação de quem defende a ditadura. Chega a ser deprimente.
      É claro que o “golpe” salvou o país: a herança que carregamos de impunidade, corrupção, hegemonia da Globo, DÍVIDA PÚBLICA, polícia militar, grande concentração de renda, manipulação de informação, população com grande déficit educacional…tanta coisa.
      Sim, vejo a salvação por aí tb. Pelo menos as criancinhas não foram devoradas pelos comunistas.
      Pena que muitos brasileiros achem que estamos no século XX.
      O fato é: ditadura é uma m**** e quem defende deve ter sérios problemas. É que a ditadura comunista mata classe média e alta; já a militar, mata pobre ( e os coxinhas defendem isso- “justo né”). Os dois extremos são hipócritas e sem humanidade. Questionar qual mata menos só demonstra ignorância e falta de humanidade. Quem sabe mostre tb a mente doentia de um sociopata.
      NADA JUSTIFICA UMA DITADURA.

    2. Luciana Andrade Responder

      Defina “salvar o país”…. Se for manter privilégios e enriquecer ainda mais as elites, você está certíssima. ..

    3. lutero Responder

      Salvo de que?

  3. Marcelinho Responder

    Luizine, a implantação do regime comunista é teoria, tanto quanto seus efeitos. Mas a ditadura/golpe militar e toda violência praticada contra seus semelhantes é um fato concreto que alguns negam e ainda apoiam!

    1. luizine Responder

      Marcelinho acha que co comunismo é ilusão/teoria, o que aconteceu no leste europeu? o que ocorreu na Russia após 1922? O que é cuba hoje? O que é a coreia do norte? Resposta: comunista, fato concreto.

  4. Bira Responder

    Articulista da Forum, cuidado! Você mencionou bem a Constituição em “Constitui crime inafiançável e imprescritível a ação de grupos armados, civis ou militares, contra a ordem constitucional e o Estado Democrático” (artigo 5º, incisco XLIV) e a aplicou a ações de Bolsonaro. Ela também se aplica aos crimes cometidos pelos que defendiam a luta armada a favor da ‘revolução bolivariana’ ou coisa parecida!

  5. uizine Responder

    Marcelinho acha que co comunismo é ilusão/teoria, o que aconteceu no leste europeu? o que ocorreu na Russia após 1922? O que é cuba hoje? O que é a coreia do norte? Resposta: comunista, fato concreto.

  6. Maclino Responder

    Estou cansado dessa “esquerdopatia” que permeia a nossa sociedade. Esse país não tem liberdade de pensamento, criminalizam a direita, chamam de antidemocrática aqueles que pensam diferente. Isso não é democracia, a nossa “intelectualidade nas Universidades são medíocres ao serem estremamente manipuláveis por um gramiscismo que opera ainda hoje. Um professor da USP foi impedido de criticar o comunismo, Bolssonaro foi impedido de falar sim, mas a interpretação que sai na mídia é sempre outra. Bolssonaro nunca defendeu volta de Ditadura, ele defende o combate à ditadura do proletariado que hoje os seus defensores se colocam como democratas. Mentirosos! Defendem Fidel e Che, sanguinários e assassinos frios, violência só pode de um lado?


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