Ninfomaníaca Vols. I e II (filmes)

Assisti Ninfomaníaca – que é um filme dividido em duas partes – e recomendo que todas as mulheres façam...

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Assisti Ninfomaníaca – que é um filme dividido em duas partes – e recomendo que todas as mulheres façam o mesmo. As nossas reações ao filme dizem mais sobre nós mesmas – nossos preconceitos, medos, memórias, inibições e desejos – do que sobre uma a “qualidade” do filme em si.
Sobre a qualidade do filme em si, quis ler algumas críticas antes de escrever a minha resenha, e percebi que é algo comum fazer uma crítica sem se esforçar minimamente para assistir o filme de verdade. O que vi em muitas críticas foi uma tentativa forçada de encaixar o “personagem”, o “mito” Lars Von Trier, como toda a aura de “polêmica” e megalomania que o envolve dentro do filme. Há um afã por desvendar sinais ocultos, metáforas mirabolantes, choques e subversões, sem que haja a humildade do “espectador comum”. O crítico que não é um espectador comum – em qualquer arte – pode até ter muita imaginação e erudição, mas sempre vai perder uma parte importante da obra que analisa: aquilo que é óbvio.
Críticos assim se parecem muito com Seligman. Seligman é o cara que encontra Joe caída na rua, e pra quem ela conta a sua história. Ele escuta com um interesse puramente intelectual: o que ele admira em Joe não é a história dela, ou o sofrimento humano e real da sua existência angustiada, e sim a sua capacidade de story-teller. Seligman fica envaidecido por ajudar a “clarificar” a história de Joe com as suas referências eruditas, com seu vasto conhecimento em diversos campos, adquirido por meio de leituras eternas e solitárias. Joe entra no jogo, alimentando ainda mais a vaidade do seu interlocutor, usando os elementos da casa dele para nomear os capítulos da sua história. Sabemos que é um jogo – do qual Joe participa voluntariamente também – quando ela debocha do comentário dele sobre os alpinista que inventou um nó – só alguém totalmente alheio a qualquer tipo de paixão humana poderia se lembrar disso enquanto uma mulher conta sua dramática busca pela recuperação do prazer.
As referências de Seligman são, assim, casuais e aleatórias, e não possuem qualquer ligação intrínseca com a história – como acontece quando esse recurso é usado com um objetivo artístico na “contação” da história. A história de Joe não é sobre pesca, sobre uma pistola ou sobre o sofrimento no cristianismo ocidental – por mais que Seligman ou qualquer crítico queira forçar a imposição dessas e de outras imagens – a história de Joe é uma só: a da inesperada descoberta de, e conflituosa convivência com a sua sexualidade – uma sexualidade feminina.

Von Trier teve que exagerá-la para ter a liberdade da aberração. O desafio de retratar uma mulher que se enquadrasse em padrões de normalidade (se é que ela existe) teria sido maior, e provavelmente ele teria falhado. A ninfomaníaca deu a ele liberdade de criação e de experimentar situações-limite: o orgasmo espontâneo na infância, o sexo casual como prática diária, a frigidez repentina, o conflito entre a busca pelo prazer o instinto de proteção da cria, o fetiche com os negões que não falavam inglês, o sadomasoquismo, a utilização criminosa da sexualidade.

Atingindo vários limites, o diretor passa pelas nuances, entre as quais cada mulher que assiste o filme se posiciona. Provavelmente mulher alguma se identifique totalmente com Joe, mas o espectro amplo de emoções, culpas, medos, desejos e contradições que ela representa e sente conversa com cada uma de nós, como se estivéssemos falando de sexo pela primeira vez diante de uma interlocutora com quem nos sentimos completamente à vontade. Da mesma forma, o julgamentos que fazemos, bom ou mau, da sua conduta, é baseado na nossa própria experiência. Nesse sentido é que digo que é um filme necessário como “indicador” pessoal dos nossos próprios tabus.
Eis o heroísmo e a resistência de Joe: ela fala. É isso que justifica o recurso de montar o filme em flashback: Von Trier, assim como Seligman e todos nós, conhece Joe caída no chão. Não é o diretor que acompanha a vida dela com a câmera, como um observador onisciente e condescendente – ou inquisidor. É Joe que fala por si, que conta o que quer, como quer, apenas aproveitando os elementos da casa de Seligman – o espelho, a isca, a marca de chá no chão – para emoldurar a sua história. É Joe que guia a câmera, não Seligman. E é este ato – o de contar, o de ter de se confrontar com a história da sua vida em algumas horas – que faz com que ela redefina sua própria identidade para si mesma. É a primeira vez que Joe faz isso, depois de anos de solidão, marginalidade e uma resistência confusa a padrões de comportamento sexuais rotulados de normais.
Antes mesmo de Seligman fazer seu discurso feminista – que serve mais pro expectador – Joe já entendeu, já se entendeu, já mudou o discurso tantas vezes repetido na primeira parte do filme de “eu sou um ser-humano ruim” para a posição firme e corajosa de “eu sou mais que isso, eu vou sobreviver a isso, minha sexualidade não me define como pessoa”. Seligman faz então seu discurso feminista – puramente politicamente correto e, por isso, teórico e condescendente – e Joe vai dormir achando que encontrou um amigo e feliz por ter se encontrado.
E aqui Lars Von Trier mostra, afinal, que essa não é uma história sobre amizade, é uma história sobre luta – da luta de uma mulher contra sua própria solidão, contra e a favor do próprio corpo, contra a falta de compreensão e respeito que vem de todos os lados. 
Seligman, tão casto ele, afinal, tinha paixão, e muita: estava toda ela direcionada para a sua querida literatura, fonte da sua erudição. Ao ligar sua própria história – humana, não apenas erótica – à literatura do novo amigo, Joe se torna para ele uma extensão dessa paixão, desse fetiche – para ele, ela se apresenta como um corpo para uma paixão que até agora foi teórica e casta. E é assim que esse cara, ao ter desejo sexual pela primeira vez na vida no meio da noite pensa HUM, POR QUE NÃO DISPOR À VONTADE DO CORPO DESSA MULHER FRAGILIZADA QUE EU ACABEI DE AJUDAR? AFINAL, SOMOS AMIGOS! QUE DIFERENÇA FAZ ESSE NÃO MURMURADO NO MEIO DA NOITE? 

But you… you’ve fucked thousands of men.

(isso é estupro, amigos)
O tiro dela é um tiro nos falsos discursos masculinos emancipatórios e condescendentes, é um tiro no “cara legal” que acha que sexo é moeda de troca da amiga para a atenção dele, um tiro em toda a dissimulação politicamente correta que diz “ok, ok, não tou te julgando, te entendo, mas… aproveitando que você já tá perdida mesmo, vem cá… ” Durante toda a história de Joe, uma coisa existe em comum: a sua vontade, a sua decisão, a sua escolha sobre o que fazer e o que fazer com o próprio corpo. O estupro seria a sua verdadeira degradação.
A sobrevivência de Joe a Seligman é a sobrevivência da ação – da experimentação, da tentativa corajosa – sobre o discurso fácil, vazio e prepotente, e é isso que vai fazer com que esse filme ainda seja lembrado e necessário quando todo o frenesi com a parte “erótica” passar.


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