Crítica ao machismo velado

O texto do colunista da Veja Rodrigo Constantino não poderia ser melhor exemplo de algo completamente comum: o preconceito e o machismo velados. Em seu texto intitulado "O estupro é culpa da mulher seminua? Não! Mas..." finge ser aquilo que não é e todo...

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O texto do colunista da Veja Rodrigo Constantino não poderia ser melhor exemplo de algo completamente comum: o preconceito e o machismo velados. Em seu texto intitulado “O estupro é culpa da mulher seminua? Não! Mas…” finge ser aquilo que não é e todo o seu discurso contradiz o título da coluna

Por Lia Novello, no Observatório da Imprensa. Foto: DBJT1996

 

O texto do colunista da Veja Rodrigo Constantino não poderia ser melhor exemplo de algo completamente comum, que presencio todos os dias: o preconceito e o machismo velados. Em seu texto intitulado “O estupro é culpa da mulher seminua? Não! Mas…“, publicado no dia 28 de março de 2014 no site da revista Veja, finge ser aquilo que não é e todo o seu discurso contradiz o título da coluna.

O texto fez-me lembrar de máximas que escuto diariamente pelas ruas como: “Nada contra gays, só não quero perto de mim”, “Mas por que que gay precisa casar? Não basta morar junto?”, “Que negra linda!”, “É mulata, mas é bonita, né?” ou “Pretinha mas superesforçada nos estudos! Vai longe!” São frases impregnadas de preconceitos, racismo e homofobia, porém proferidas de maneira heroica, como se fossem elogios. É típico daqueles que querem parecer politicamente corretos, adaptados às novas demandas sociais, mas que estão presos às velhas ideias sem nem perceber o quão fechados e carregados de preconceito ainda são. É aquele indivíduo que escuta, entretanto sem compreender realmente o que o mundo está querendo lhe dizer.

O problema de Constantino como um “liberal sem medo de polêmica” (como ele mesmo se define) é tentar se mostrar como um homem livre do machismo, mas que não consegue se livrar de seu pensamento liberal nem quando se trata do corpo feminino. O corpo da mulher ainda é tratado como propriedade, como um produto que deve manter suas características tão prezadas. Devem ser esposas carinhosas, mães cuidadosas, irmãs atenciosas, recatadas e calmas, ou como ele mesmo diz “garotas direitas” e tudo o que foge esse padrão está sujeito à punição e se coloca voluntariamente à mercê do que quer que possa lhe acontecer.

Constantino parte do princípio que ele mesmo, no título de sua coluna, diz ser falso: mulher não pode se dar a liberdade de se vestir, se expressar e se comportar como bem lhe desejar. Afinal, suas ações estão sujeitas aos olhos vigilantes incansáveis da sociedade. E esses olhos que julgam e analisam, também invadem o espaço íntimo da mulher, seja através de comentários sujos proferidos por homens estranhos na rua, seja por toques indevidos e não consentidos em transportes públicos ou pelo ato do estupro propriamente dito.

O estupro nunca é culpa da vítima

Falta-lhe por vezes inteligência para analisar e conectar os fatos ou talvez seja mesmo uma cegueira intencional. Constantino afirma que há uma relação entre a revolução sexual, o funk estimulando a vulgaridade e o aumento nos casos de estupro. Prefiro não me estender exemplificando o fato de que o que é ou já foi considerado vulgar na nossa sociedade muda a cada geração. O que assusta é o colunista afirmar que “mulheres provocativas rebolando até o chão” atraem estupradores “como moscas ao mel”. Mais uma vez: mulheres que fogem do padrão esperado delas estão sujeitas a serem comparadas ao mel que atrai essa entidade chamada estuprador.

Esse distanciamento entre o homem “de bem” (que é, inclusive, a expressão mais odiosa de todos os tempos) e um homem que veio a cometer um estupro é um equívoco, é próprio daqueles que ignoram a cultura do estupro na qual vivemos e caracterizam um estuprador como um doente mental que precisa de tratamento. Ora, com a quantidade de estupros que ocorrem diariamente no mundo inteiro, somos um planeta de doentes mentais. Tratar o estuprador como um doente que precisa de tratamento psiquiátrico é ignorar as bases das sociedades que colocam a mulher e o homem em locais e posições de poder diferentes e com uma grande disparidade na comparação entre o poder de agência que cada um deles possui.

Finalmente chego ao parágrafo mais assustador, que resume todas as minhas argumentações prévias. Nele, Constantino afirma:

“Enquanto a cultura do machismo não desaparece, e a punição exemplar não vem, seria recomendável, sim, que as moças apresentassem um pouco mais de cautela, mostrassem-se um tiquinho só mais recatadas, e preservassem ligeiramente mais as partes íntimas de seus corpos siliconados. Não tenho dúvidas de que ‘garotas direitas’ correm menos risco de abuso sexual.”

A contradição de seu discurso não poderia ser mais explícita do que nesse trecho. Enquanto culpa o machismo pelos casos de estupro, sugere que moças deveriam se comportar melhor – afinal, não devemos dar chances para o azar. Constantino, é tão difícil entender que com essa afirmação você tira a mulher que sofreu de alguma violência do seu lugar de vítima e a coloca na posição de agente provocador do crime? É como se o homem que cometeu essa violência sexual estivesse nada mais do que exercendo seu direito de legítima defesa e usufruindo seu direito sobre o corpo feminino. Mas não tem problema, falaremos quantas vezes for necessário e repetiremos incansavelmente: o estupro nunca é culpa da vítima.

Agradeço ao colunista por me alertar sobre o fato de que a melhor escolha para ir à faculdade amanhã seria uma saia longa e um casaco que cubra o máximo que puder; afinal, ele não definiu muito bem o que seria uma “garota direita” e recatada, e eu não tenho certeza se todos os homens cariocas partilham dos mesmos padrões que ele. Uma pena o Rio de Janeiro ser tão quente, mas tudo para atender às demandas masculinas e manter-me segura.

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Lia Novello, graduanda em Relações Internacionais pela PUC-Rio



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