México: cidadãos armados em uma guerra falida

Como a ineficaz "guerra às drogas" e o domínio dos cartéis permitiu o surgimento de perigosos grupos civis armados, que não só contribuem para gerar mais violência como legitimam, cada dia mais, uma terra sem lei

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Como a ineficaz “guerra às drogas” e o domínio dos cartéis permitiu o surgimento de perigosos grupos civis armados, que não só contribuem para gerar mais violência como legitimam, cada dia mais, uma terra sem lei

 Por Ivan Longo, publicado na Fórum Semanal

No ano de 2006, o então presidente mexicano Felipe Calderón deu início a uma ofensiva militar para combater os cartéis de droga, que há décadas dominam uma série de regiões no território do país. Desde então, cerca de 80 mil pessoas, entre traficantes, militares e civis morreram durante os confrontos.

Apesar da guerra às drogas travada pelo governo, o avanço dos cartéis não foi impedido e o único resultado gerado pela ofensiva foi a intensificação da violência e o aumento do sentimento de insegurança por parte da população que vive nos territórios dominados pelas facções criminosas.

O maior e mais perigoso fruto da ineficiência do Estado em prover segurança e acabar com o domínio dos cartéis é o surgimento de grupos civis que se armaram para, com as próprias mãos, combater as milícias de traficantes. Estes grupos de auto-defesa, também chamados de vigilantes, começaram a surgir em 2011 no estado agrícola de Michoacan, no oeste do país. A região, até então, era dominada por um cartel de drogas chamado Cavaleiros Templários.

O estado de Michoacán, palco de violentos confrontos entre cartéis, forças federais e grupos de auto-defesa. (Arte: Wikimedia Commons)
O estado de Michoacán, palco de violentos confrontos entre cartéis, forças federais e grupos de auto-defesa. (Arte: Wikimedia Commons)

De acordo com os moradores das cidades que compõe o estado – muitos deles hoje fazem parte dos grupos vigilantes – a população resolveu se armar para fazer o que o Estado até hoje não conseguiu: acabar com os Cavaleiros Templários. O cartel, na medida em que foi crescendo com o tráfico de crystal meth (metanfetamina) – droga que é exportada, principalmente, para os Estados Unidos – começou a tomar o controle territorial, econômico e político da região. Eles atacaram comunidades e extorquiram pessoas e empresas. Agricultores de abacate e limão tinham que pagar uma cota de cada quilo que eles produziam aos membros do cartel. Os produtores de milho eram forçados a vender seu produto a preços mais baratos para os criminosos, que por sua vez o vendiam pelo dobro do preço para outras regiões. Pessoas que deviam dinheiro ao cartel em troca de “proteção” tiveram que entregar suas propriedades inteiras. Aqueles que ousavam a se levantar contra os criminosos corriam o risco de serem torturados ou até mesmo mortos em praça pública.

Os grupos vigilantes expulsam os membros do cartel na medida em que tomam o controle das cidades. (Foto: Keith Dannermiller/Global Post)
Os grupos vigilantes expulsam os membros do cartel na medida em que tomam o controle das cidades. (Foto: Keith Dannermiller/Global Post)

Diante do cenário, parte da população resolveu pegar em armas para se “libertar” e fazer justiça com as próprias mãos. “Os bandidos estão matando as pessoas , é por isso que estamos pegando em armas “, disse, em entrevista à revista Time em janeiro deste ano, Fidel, um agricultor de 37 anos de idade que virou vigilante. “Estamos fazendo o trabalho do governo para eles”, acrescentou outro membro do grupo de auto-defesa.

Os Cavaleiros Templários: um inimigo parecido

A existência de grupos civis armados para lutar contra o cartel de drogas, apesar de ter coibido, de certa forma, a ação da facção na região, representa um sério risco de trocar o controle de um estado de uma milícia para outra. Isso por que o os Cavaleiros Templários surgiram de uma forma bem parecida à dos  vigilantes, com uma pauta de proteção, e acabaram por se tornar um gigantesco grupo articulado de tráfico, criminalidade e controle.

O cartel dos Cavaleiros Templários teve início a partir de uma gangue de Michoacan conhecida como La Familia, um grupo quase religioso que travou uma guerra local contra os Zetas, a facção criminosa de tráfico de drogas mais notória do México.

La Familia recebeu o apoio de toda a sociedade, que não via o grupo como criminoso, mas como pessoas que tinham se organizado em detrimento da falta de apoio do governo. Com o tempo, a milícia foi crescendo e, além de tomar o controle econômico da região, estabeleceu uma espécie de controle social através de um discurso quase messiânico.

O principal líder da gangue que havia se transformado nos Cavaleiros Templários era Nazario Moreno, conhecido como “O mais louco”. Ele escreveu um livro chamado Mis Pensamientos, que inclui uma mistura de auto-ajuda, cristianismo e políticas revolucionárias. Moreno foi capturado e morto pela Polícia Federal na cidade de Apatzingan, em 2010. Desde então, membros da facção e a população local que apoiava a milícia começaram a venerar o ex-líder com um santo, produzindo imagens dele em traje medieval e com uma cruz vermelha no peito.

Os Cavaleiros Templários normalmente são reproduzidos em imagens com referência aos guerreiros medievais. (Arte: reprodução)
Os Cavaleiros Templários normalmente são reproduzidos em imagens com referência aos guerreiros medievais (Arte: reprodução)

Especialistas em direitos humanos temem que, com a presença dos grupos de auto-defesa, a história se repita, com um novo grupo violento substituindo o antigo. A existência de milícias locais, de acordo com os especialistas, é uma péssima ideia por vários motivos, afinal, na maior parte das vezes, esses grupos acabam se comportando como aqueles pelos quais foram criados para lutar. Isso se consolida ainda mais na medida em que moradores locais relatam que alguns grupos de vigilantes foram infiltrados por cartéis de drogas rivais aos Cavaleiros Templários. Os vigilantes negam.

Quem precisa de polícia?

Até o momento, os grupos vigilantes têm sido mais bem sucedidos que o governo no combate ao domínio dos Cavaleiros Templários. Apesar de constantemente enviar tropas federais desde 2006, o Estado não conseguiu impedir o avanço dos carteis, bem como nada fez para desarmar os grupos de auto-defesa.

Em janeiro deste ano, quando um imenso contingente de policiais chegou para tentar tomar o controle da cidade de Apatzingan, local estratégico do cartel dos Cavaleiros Templários, a população simplesmente deu de ombros. “A polícia vem de fora, não sabem onde os criminosos estão”, disse um padre católico ao portal Fox News. “Nós sabemos de 10 instalações onde eles estão. Não vão achá-los”, completou.

Os grupos vigilantes são compostos hoje por cerca de 20 mil pessoas que controlam 17 municípios no sudoeste de Michoacan, cerca de um terço do estado.

Membro do cartel dos Cavaleiros Templários assassinado pelos vigilantes. (Foto: Opera Mundi)
Membro do cartel dos Cavaleiros Templários assassinado pelos vigilantes (Foto: Opera Mundi)

Em suas operações, os “justiceiros” das cidades dominadas pelos carteis bloqueiam rodovias, invadem instalações e casas dos criminosos, destroem símbolos do narcotráfico e declaram as comunidades pelas quais passam como libertadas. Eles matam o inimigo sem escrúpulos e, muitas vezes, os mantém detidos em prisões improvisadas.

Para se manter, os vigilantes recebem maciço apoio da população. Eles são financiados por doações de moradores e empresários, que preferem apoiar os vigilantes a ter de pagar pela suposta “proteção” do cartel. Algumas de suas armas foram compradas nos Estados Unidos e contrabandeadas no sul. Outras foram apreendidas em confrontos com os Cavaleiros Templários. Muitos dos guerrilheiros vigilantes aprenderam a atirar em clubes de caça, enquanto outra parte foi treinada por alguns ex-militares do exército mexicano.

O número de mortos com a presença deste terceiro elemento na guerra às drogas mexicana, que antes era composta apenas pelas forças federais e pelos carteis, não é claro. Não há nenhum registro oficial de mortes nos conflitos entre cartel, grupos de auto-defesa e polícia. O número de homicídios do Estado, no entanto, dobrou para mais de 100 por mês desde o início do ano passado. Os vigilantes afirmam que, enquanto o governo não acabar de vez com os líderes dos Cavaleiros Templários, não abaixarão as armas.

Com o crescimento cada dia maior dos vigilantes, os traficantes do cartel, atualmente, fogem antes mesmo de o grupo chegar nas cidades, queimando veículos para distrair os milicianos e encobrir a fuga. Em cada novo lugar que assumem , os chamados grupos de autodefesa são recebidos por dezenas de jovens ansiosos que querem aderir ao movimento e “libertar” mais cidades.

Suposto membro dos Cavaleiros Templários é julgado em sessão pública pelos grupos de auto-defesa. (Foto: Keith Dannermiller/Global Post)
Suposto membro dos Cavaleiros Templários é julgado em sessão pública pelos grupos de auto-defesa. (Foto: Keith Dannermiller/Global Post)

E o governo, onde fica?

Tanto na gestão de Calderón quanto na de Enrique Peña Nieto, atual presidente do país, o governo tem enviado tropas da polícia e do exército para as cidades de Michoacan com o intuito de deter os Cavaleiros Templários e o crime organizado. As ofensivas, no entanto, não têm sido bem sucedidas e, na maior parte do tempo, o Estado adotou uma postura mista sendo, em algumas situações, até negligente em relação aos grupos de auto-defesa. Apesar de ter adotado o discurso de que os vigilantes têm que se desarmar, nada foi feito para detê-los e, o que é mais preocupante, tem se tentado legalizar parte das milícias.

Em janeiro, o ministro do Interior mexicano, Miguel Angel Osorio, negou que o governo tenha feito qualquer tipo de acordo com os auto-defensores. “Deixamos muito claro que eles (os vigilantes) não podem ser armados”, disse ele. Por outro lado, o ministro afirmou também que prender os grupos de auto-defesa não era o objetivo.

“A estratégia é a do não confronto (com os vigilantes), colocando-se a vida humana e o diálogo na linha de frente”, disse à Reuters Alfredo Castillo, membro do governo federal nomeado comissário de Michoacan. “Estamos falando em neutralizar a capacidade de operar, organizar, recrutar, financiar-se e gerar violência (os Cavaleiros Templários). Isso é o que é realmente importante”, completou.

Quando os grupos vigilantes começaram a surgir e entrar em conflito com o cartel de drogas, as forças federais, inicialmente, investiram contra esses grupos. Na época, principalmente no início de 2013, as autoridades classificavam o confronto entre os vigilantes e os Cavaleiros Templários como uma luta entre os cartéis de droga. À medida que a campanha vigilante foi se tornando mais bem sucedida, no entanto, o governo passou a fazer vistas grossas com os grupos e chegou até a negociar suas existências para continuar combatendo o cartel.

Em janeiro deste ano, soldados do governo tentaram desarmar alguns vigilantes na cidade de Actunez, e o confronto provocou a

Tentativas do governo de conter os cartéis e desarmar os vigilantes têm sido inúteis. (Foto: Opera Mundi)
Tentativas do governo de conter os cartéis e desarmar os vigilantes têm sido inúteis. (Foto: Opera Mundi)

morte de vários civis. Desde então, nenhuma atitude concreta para desarmá-los e cessar a violência foi realizada. Ao contrário disso, no mesmo mês, o governo assinou um acordo com um dos líderes dos grupos vigilantes para incorporá-los a um Corpo de Defesa Rural, sob o comando do exército. “Aqueles que têm a vocação de participar em questões de segurança, que é o princípio de que os esquadrões de defesa pessoal têm reclamado, deve fazê-lo dentro das instituições que são estabelecidas por lei”, disse o presidente Enrique Peña Nieto na ocasião.

O intuito, além de dar suporte aos grupos vigilantes, era também registrar suas armas e manter o controle sobre os conflitos para que as milícias não se tornassem o que são os Cavaleiros Templários. Acontece que, dos 20 mil vigilantes que se estimam existir em Michoacan, apenas 1,4 mil armas do grupo foram registradas pelas autoridades do governo.

Nik Steinberg, representante da ONG Human Rights Watch no México, disse que o governo entregou “uma mensagem totalmente esquizofrênica” por trabalhar lado a lado com os vigilantes , enquanto dizem-lhes para depor as armas .”A conseqüência dessa mensagem mista é que os grupos sentem-se legitimado e no direito de exercer as funções que devem ser reservados para o Estado “, disse ele , acrescentando que os eventos em Michoacan poderiam levar ao surgimento de grupos de vigilantes em outros lugares do México.

Violência para combater violência: uma fórmula falida

O avanço dos vigilantes contra o narcotráfico somado às vistas grossas do Estado, aparentemente, vem reduzindo a força do cartel na região de Michoacan. De acordo com o governo federal, restariam hoje apenas dois dos líderes de alto escalão dos Cavaleiros Templários que estariam escondidos em cavernas nas montanhas da região. A violência, porém, não cessou, e conflitos com mortes são registrados diariamente.

Os grupos de auto-defesa, no entanto, ganharam uma força política e territorial tão grande que hoje já há relatos de vigilantes que cobram cotas de produções, como faziam os inimigos. Há rumores também de que os defensores da região teriam uma ligação de longa data com carteis rivais aos Cavaleiros Templários e já há conflitos internos, entre os próprios grupos de auto-defesa.

Especialistas em direitos humanos e combate ao crime organizado temem que a legitimação de esquadrões de defesa civil permita sua expansão para outros estados do México que também são dominados por carteis. “O problema básico com os grupos de auto-defesa é que o governo não pode desarmá-los sem entregar o controle de volta para os Cavaleiros Templários , mas não pode tolerá-los também”, disse um dos maiores especialistas em guerra às drogas no México,  Alejandro Hope, ao jornal britânico The Guardian.

O temor agora é que os grupos vigilantes se espalhem e controlem outras regiões do país. (Foto: Keith Dannermiller/Global Post)
O temor agora é que os grupos vigilantes se espalhem e controlem outras regiões do país. (Foto: Keith Dannermiller/Global Post)

Recentemente, a Anistia Internacional, uma das maiores organizações não governamentais do mundo que pesquisa e defende a prática dos direitos humanos, divulgou um relatório sobre as violações no México no ano de 2013, em que há uma parte específica que trata das milícias e dos grupos de auto-defesa de Michoacan. No documento, a organização destaca que a região tem sofrido há anos com a violência e a insegurança nas mãos de gangues criminosas, bem como pela polícia e por forças de segurança que muitas vezes operam de maneira compactuada com as organizações de narcotráfico. O relatório coloca os grupos de auto-defesa como uma resposta a essa negligência e abuso, mas cobra do Estado ações para fazer valer as obrigações de segurança e direitos humanos.  Segundo a Anistia Internacional, “o desafio para a atual administração é reconstruir o tecido social e forjar as instituições para que a população possa confiar e que não recorrer a violações dos direitos humanos”.

A entidade elencou ainda recomendações ao presidente para resolver o problema da violência em Michoacan. “O governo deve garantir que todas as forças policiais e de segurança , bem como os grupos de auto-defesa , respeitem as normas internacionais de direitos humanos sobre o uso da força e proíba outras violações dos direitos humanos”, diz a Anistia, acrescentando que o “presidente deve aproveitar todas as oportunidades para enviar uma forte mensagem pública que os abusos não serão tolerados . Ele deve ordenar que todas as alegações de descumprimento das normas internacionais sobre o uso da força e violação dos direitos humanos sejam imediatamente investigadas, com os responsáveis levados à justiça e com a garantia de que as vítimas recebam reparação integral”.

Em meio à violência que não cessa, no entanto, é importante destacar, apesar das inúmeras consequências que a existência de grupos civis armados traz à democracia, a sua consolidação se deu diretamente por uma guerra ineficaz contra os cartéis, deixando cada vez mais claro que a lógica do combate às drogas com o uso da violência, além de fazer mais vítimas, gera ainda mais violência.

A situação foi muito bem ilustrada em uma entrevista concedida por um dos comandantes dos grupos vigilantes à revista Time: “Eu nunca imaginei que eu estaria lutando assim. A situação me obrigou a fazer isso. Tenho que trabalhar, mas os Cavaleiros Templários não me deixam viver em paz”.

Desde o último acordo entre o governo e os vigilantes para legalizar as milícias, nenhuma outra ação foi tomada para que esses grupos não avancem. Enquanto isso, segue a guerra às drogas.



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