Dilema adolescente em Uganda: Digo, ou não, que tenho HIV?

A maioria tem problemas em revelar que é portadora do vírus e, oficialmente, só quem tem 18 anos ou mais tem direito a receber profiláticos. Por falta de serviços efetivos de tratamento do HIV, as mortes relacionadas com a aids entre os adolescentes do...

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A maioria tem problemas em revelar que é portadora do vírus e, oficialmente, só quem tem 18 anos ou mais tem direito a receber profiláticos. Por falta de serviços efetivos de tratamento do HIV, as mortes relacionadas com a aids entre os adolescentes do mundo aumentaram 50% entre 2005 e 2012

Por Wambi Michael, da IPS/Envolverde

 

A ugandesa Constance Nansamba (nome fictício) pagou um preço alto por não revelar aos 18 anos que é HIV positiva e estava grávida. “Estava horrorizada. Fugi da casa do meu irmão. Não consegui seguir os passos para prevenir a transmissão mãe-filho, e por isso meu bebê também é HIV positivo”, contou à IPS. Nansamba sabia que nascera com HIV (vírus da deficiência imunológica humana, causador da Aids), mas por medo da rejeição não contou ao seu noivo.

“Usávamos camisinha, mas ele sempre se queixava, então deixamos de usar e engravidei”, contou a jovem. Embora ela não o tenha o contagiado, se separaram. Agora Nansamba tem 20 anos e encontrou coragem para contar sua história a fim de ajudar outras pessoas. Integra a organização Jovens Positivos de Uganda, que oferece orientação sobre HIV, além de aconselhar a realização de exames e tratamento. Muitos adolescentes que nasceram como o vírus não conhecem seu estado de saúde quando começam a manter relações sexuais, ou sabem mas não contam aos seus parceiros, explicou a jovem à IPS.

Uma pesquisa do Centro de Saúde Mildmay, de Uganda, da qual participaram 200 adolescentes que recebiam tratamento antirretroviral, concluiu que 75% não estavam dispostos a revelar aos seus parceiros sexuais que têm HIV e que 30% não queriam usar preservativos. “Eles simplesmente não têm informação que os ajude a negociar a revelação (de sua situação), a proteção mútua e o uso de camisinha”, pontuou Nansamba. “Eu enfrentei o mesmo desafio porque não podia falar de sexo com meu irmão mais velho, que era como meu pai”. Seus pais faleceram quando ela era bebê e seu irmão a criou.

Uganda é um país de jovens: quase 80% de seus 34 milhões de habitantes têm menos de 30 anos. A prevalência nacional de HIV é de 7,2% e lentamente está crescendo. Na faixa entre 15 e 24 anos, 5% das mulheres e 2% dos homens vivem com HIV, segundo a Pesquisa Indicadora da Aids de Uganda 2011. O estudo Para uma Geração Livre de Aids. A Infância e a Aids: Sexto Inventário da Situação 2013, divulgado pelo Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef), estima que esse país tem cerca de 110 mil adolescentes entre dez e 19 anos que vivem com HIV, dos quais 64 mil são do sexo feminino e 48 mil do masculino.

Emmanuel Elwanu tinha 14 anos quando soube que nascera com o vírus HIV. Por medo de ser discriminado, não quis contar sua situação aos amigos. “Tive que receber muita orientação psicológica para me abrir”, disse à IPS. Elwanu teve sorte: sua escola tinha sessões semanais sobre o vírus com psicólogos e ele participou da iniciativa sobre HIV/aids na paróquia de Mbuya. “Muitos de meus colegas HIV positivos vivem momentos realmente difíceis com suas relações”, detalhou o jovem, hoje com 18 anos. “Penso em sexo, mas não é minha prioridade”. Seus pais morreram quando era criança e ele decidiu praticar a abstinência sexual até completar seus estudos.

Pobbly Nuwagaba, conselheira do Centro Naguru de Informação e Saúde Adolescente de Kampala, disse à IPS que a maioria dos adolescentes tem problemas em revelar que são portadores do vírus. “Se veem sãos, atraem parceiros HIV negativos e têm desejos sexuais”, explicou. “Alguns nos dizem que quando revelam serem portadores do vírus não acreditam, e acabam mantendo relações sexuais sem proteção”.

A médica Sabrina Kitaka, especialista em saúde adolescente da Universidade de Makerere, em Kampala, destacou a brecha existente nos serviços de saúde para os jovens. “Há poucos centros de saúde ambulatoriais amigáveis com os adolescentes, enquanto as salas de internação pediátrica recebem crianças de até 12 anos. Portanto, os adolescentes costumam ser admitidos em salas de adultos”, apontou.

Em 2013, a Organização Mundial da Saúde (OMS) alertou que, por falta de serviços efetivos de tratamento do HIV, as mortes relacionadas com a aids entre os adolescentes do mundo aumentaram 50% entre 2005 e 2012, enquanto entre a população geral essa mortalidade caiu 30%. A OMS pediu aos governos que revisem suas leis para facilitar aos adolescentes a realização de exames para detectar o HIV sem o consentimento dos pais.

Porém, os funcionários de saúde de Uganda não se colocam em acordo sobre oferecer serviços de planejamento familiar e preservativos aos adolescentes. Stephen Watiti, médico que vive com HIV, observou que as leis e políticas sobre as camisinhas e os anticoncepcionais para adolescentes não estão claras e são interpretadas de modo incoerente. Isso dificulta que tanto os jovens quanto o pessoal da saúde entendam as opções.

Oficialmente, só quem tem 18 anos ou mais tem direito a serviços de planejamento familiar e a receber profiláticos. Porém, mais da metade das mulheres entre 18 e 24 anos mantém relações antes dos 18 anos, segundo a Pesquisa de Demografia e Saúde de Uganda 2011. “Como médicos, não podemos ir às escolas e promover o uso de camisinha ou anticoncepcionais. Mas quando se encontra com um adolescente de 14 anos que é sexualmente ativo, então não há outro remédio a não ser ensiná-lo a usar a camisinha”, ressaltou à IPS.

Na reunião de Jovens Positivos de Uganda, realizada no final de janeiro em Kampala, Nansamba disse aos participantes: “Pessoal, não é fácil viver com HIV. A gente sempre se sente culpado quando dorme com alguém, mas, ao mesmo tempo, temos desejos sexuais que devem ser saciados”. Sua decisão atualmente é praticar a abstinência sexual. “Não quero colocar ninguém em risco de contrair o HIV”, afirmou. Entretanto, para muitos adolescentes soropositivos se abster não é fácil. Tampouco o é revelar que vivem com o vírus ou manter relações sexuais seguras.



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