Ajuda humanitária: uma nova “partilha da África”

Muito do dinheiro europeu "doado" a países africanos está sendo condicionado à mudança de leis que provavelmente irão aumentar a pobreza e ampliar a desigualdade

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Muito do dinheiro europeu “doado” a países africanos está sendo condicionado à mudança de leis que provavelmente irão aumentar a pobreza e ampliar a desigualdade

Por Miriam Ross, em New Internationalist | Tradução: Vinicius Gomes

Ansiosos em evitar um confronto com o lobby anti-ajuda humanitária, o governo britânico manteve silêncio quando finalmente atingiu a meta de usar 0,7% do Produto Nacional Bruto em ajuda internacional. Também de maneira silenciosa, o governo britânico está usando milhões de dólares dessa ajuda em um esquema para ajudar os nomes mais poderosos do agrobusiness a retalhar a África.

Um bilhão de dólares da ajuda humanitária dos britânicos está indo para a Nova Aliança para Segurança Alimentar e Nutrição, um esquema do G8 que direciona o dinheiro dos governos e “investimento” corporativo de empresas como Unilever e Monsanto para os 10 países africanos que assinaram a “aliança” até agora. Em troca, os governos africanos tornaram a vida mais fácil – e mais lucrativa – para as empresas envolvidas.

Observando o tipo de mudanças que os governos africanos estão sendo obrigados a fazer, torna-se claro que o esquema da Nova Aliança tem pouco a ver com segurança alimentar ou nutrição – e tudo a ver com aumentar o poder das agrobusiness globais sobre a terra, a agricultura e os alimentos na África.

De acordo com os termos da aliança, a Tanzânia, por exemplo, se comprometeu a não restringir a exportação de alimentos, mesmo quando o alimento sendo exportado é tremendamente necessário para sua própria população. Aparentemente, a segurança alimentar dos tanzanianos é menos importante do que a segurança do mercado de exportações.

Agricultura com fins de exportação, ao invés de alimentar a população local, é central para o esquema, assim como é o conceito de “corredores de crescimento agrícola”, iniciado pela empresa global agroquímica, Yara. Diversos desses corredores já estão em desenvolvimento e têm a intenção de conectar as terras para plantio com portos costeiros, para que as empresas possam facilmente transportar a produção para o mercado estrangeiro.

Um porta-voz do corredor de Beira, em Moçambique, disse ao The Guardian: “Nós iremos enfatizar o plantio que dá dinheiro… nós queremos um setor de pequenos agricultores que estejam interessados em fazer dinheiro. Não estamos interessados no ângulo social”.

Presumivelmente, alimentar pessoas é um “ângulo social”. Alterar a produção para exportar significa depender de comida importada, deixando pessoas vulneráveis a súbitos aumentos no preço de alimentos. Durante a crise de alimentos de 2008, quando os preços globais de grãos se elevaram, milhões de pessoas ficaram, subitamente, sem condições para comprar comida o suficiente.

Os corredores de crescimento agrícola também ilustram outro objetivo da Nova Aliança: ajudar as empresas transnacionais a ter acesso à terra. Os corredores supostamente deveriam aumentar a produtividade em terras “mal utilizadas”, mas, na prática, as terras classificadas como “mal utilizadas” frequentemente estão sendo muito utilizadas por pessoas que estão à beira de perder tanto suas terras como sua subsistência assim que as companhias se instalarem.

O esquema do G8 requer que países africanos que assinaram o acordo mudem suas leis sobre terras. A Etiópia, por exemplo, irá permitir uma maior celeridade no acesso de investidores a suas terras. O total de terra da África que já foi vendida ou alugada para o uso de empresas privadas já chega a 63 milhões de hectares.

Assim como o aumento no controle de tais empresas ao ditar o que é exportado da agricultura africana, as empresas de agrobusiness querem mais poder também em decidir o que entra. Empresas de sementes como Monsanto, Syngenta e DuPont querem vender mais sementes para agricultores africanos, muitos deles que atualmente guardam e usam suas próprias sementes sem custo algum. Empresas de fertilizantes e pesticidas também enxergam um mercado não explorado para seus produtos, apesar do perigo que o uso de agroquímicos representa para agricultores familiares: seja quanto à saúde, meio-ambiente e risco de endividamento. Os países africanos da Nova Aliança estão mudando suas leis para ajudar as empresas a venderem seus produtos aos agricultores – Moçambique, por exemplo, já prometeu parar de distribuir uma variedade de sementes locais.

Parece ser uma lista de presentes para as transnacionais do agrobusiness e, na realidade, é exatamente isso. Os apoiadores da iniciativa alegam que irão combater a fome, mas nada indica como isso será feito. A presunção é de que o crescimento no PIB através das atividades das corporações irá criar emprego, mas o aumento do PIB em si tem pouco impacto na pobreza.

Ao contrário, ao tirar o poder dos produtores de pequena escala que alimentam a maior parte da população africana – e concentrando tudo nas mãos de empresas privadas, a nova “partilha da África” provavelmente irá aumentar a pobreza e ampliar a desigualdade.



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4 comments

  1. Giovanni Responder

    É desesperador essa falsa generosidade… falam exatamente o que queremos ouvir, mas pelas costas a cobra tá fumando, acabamos fazendo o mesmo que estamos fazendo a séculos, só que de uma forma desnaturada. Pois se o mundo está asiim é por causa de todos nós, cada um de nós. Que as futuras gerações perdoem nossa passividade…Acorda mundo!

  2. Giovanni Responder

    Desesperador é a falsa generosidade… Falam exatamente o que queremos ouvir. Afinal continuamos fazendo o mesmo que fazíamos há séculos, só que de uma forma desnaturada. Pois somos todos responsáveis, somos parte deste mundo. Que as futuras gerações perdoem nossa passividade… Acorda mundo!

    1. Aparecida Vaz Responder

      Os meios são outros mas os fins são os mesmos.O mundo desenvolvido sempre tirando proveito dos povos dependentes,visando seus próprios interesses

  3. ana paula Responder

    Gente, o único escorrego da matéria é dizer que essa é uma atitude nova. Não é; e em verdade é um desdobramento atual de políticas muito antigas, e seu antepassado mais recente são os programas de ajuste estruturais. Sem essa passagem fica parecendo que tudo é novo sobre o sol.


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