“Cem anos de solidão foi muito além de um evento literário”, diz escritor

O escritor Gabriel Garcia Márquez sempre recusou o rótulo de "escritor de fantasia", pois, considerava que suas obras eram representantes da realidade

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O escritor Gabriel Garcia Márquez sempre recusou o rótulo de “escritor de fantasia”, pois, considerava que suas obras eram representantes da realidade

Por Bruno Gaspari*

Há muito na solidão que sempre fascinou Gabriel García Márquez, falecido nesta quinta-feira, 17, aos 87 anos. Em diversas entrevistas concedidas em seus mais de 50 anos de carreira, Gabo, como foi apelidado, descrevia suas histórias como sendo inspiradas em suas lembranças, na nostalgia, na saudade. E hoje, com a sua partida, ele deixa ao mundo não apenas seu vasto trabalho literário, jornalístico, político e humanitário, mas também esse mesmo sentimento que o inspirava.

Sua obra, frequentemente relacionada ao realismo mágico, reúne uma série de romances, contos, roteiros de filmes e textos não-ficcionais dos mais diversos gêneros. Gabo desprezava ser rotulado como um escritor de fantasia, já que considerava as suas obras como representantes de nada menos que a realidade, mesmo quando o universo de algumas de suas histórias era repleto de acontecimentos absurdos e impossíveis.

Antes de se firmar como escritor, Gabo teve uma longa carreira jornalística que o tornou conhecido e mesmo infame na Colômbia, seu país natal. Durante o mandato do general Gustavo Rojas Pinilla (1953-1957), Gabo se viu obrigado a sair de seu país após uma série de reportagens que publicou em 1955, mais tarde compiladas no livro Relato de um náufrago (1970).

A narrativa da provação de Luis Alejandro Velasco Rodríguez à deriva nos mares – após o navio que o trazia dos Estados Unidos naufragar por excesso de bagagem, boa parte devido ao contrabando vindo da América – causou um frenesi na mídia local e ataques das autoridades colombianas, que descreditaram o texto por ser contrário à história divulgada, que atribuía o naufrágio a uma tempestade. Gabo, então, foi mandado para ser correspondente na Europa, e, após viajar pelo sudeste americano para visitar as paisagens que William Faulkner, uma grande influência literária, descreveu em seus livros, se estabeleceu no México, onde viveu boa parte de sua vida.

Cem anos de solidão (1967), seu trabalho mais lembrado, é a síntese de suas experiências de vida e considerado o ápice da sua obra. Macondo, a cidade fictícia fundada no meio do nada, é um reflexo da cidade natal do escritor, a pequena Aracataca, cuja história é escancarada nas páginas do livro. O chamado Massacre da Banana, em que centenas de funcionários da empresa americana United Fruit Company foram brutalizados pelas forças armadas colombianas, é uma das memórias da cidade real que são descritas com riqueza de detalhes e de forma nua e crua, desprovida de qualquer fantasia. Todas as personagens do livro são solitárias a sua maneira, mesmo aquelas que vivem cercadas de amantes ou que surgem como líderes em sua comunidade. Vivos e mortos se relacionam, ao passo que sete gerações da família Buendía sobrevivem às vicissitudes da miséria, da violência e do amor.

No entanto, o sucesso de Cem anos de solidão foi muito além de um evento literário. Gabo se envolveu politicamente com eventos importantes na Colômbia, incluindo negociações entre o governo e guerrilheiros revolucionários. Ele se aproximou de líderes comunistas que defendia, como Fidel Castro, de quem se tornou amigo. Criou inimizades com líderes com ideologia oposta às que defendia e foi considerado subversivo pelos Estados Unidos, que não permitiram sua entrada no país durante a maior parte da sua vida após o reconhecimento como escritor.

García Márquez rejeitava os rótulos que marcaram sua carreira devido ao sucesso de Cem anos de Solidão, ao dizer que cada um de seus livros foi escrito de uma maneira diferente. Crônica de uma morta anunciada (1981), apesar de fictícia, é uma rica e detalhada descrição de uma investigação jornalística em uma pequena cidade colombiana; Já Amor nos Tempos do Cólera (1988), é uma história entre dois indivíduos que se apaixonaram bem jovens e que se reencontram já idosos e sem os impedimentos de outrora para viver esse antigo amor. Escrito de maneira particular, em um estilo que o tornava uma intensa declaração de amor, Amor nos tempos do cólera pode ser considerada a sua obra mais conhecida depois de Cem anos de solidão e, definitivamente, um dos marcos de seu estilo de escrita.

Seu último trabalho de ficção publicado foi Memórias de minhas putas tristes (2004). O protagonista, um homem que completa 90 anos e se envolve com uma jovem que vendia sua virgindade, retoma temas recorrentes em sua obra, como o amadurecimento, o amor e a nostalgia. A curta história foi escrita após o conturbado período em que foi tratado de um câncer linfático, cujas complicações debilitaram sua saúde. Vítima de Alzheimer, aposentou-se da escrita e passou a ter uma vida reclusa, evitando aparecimentos públicos e sofrendo, segundo relatos da família, de demência senil e diversos problemas médicos.

Cem anos de solidão vendeu mais de 50 milhões de cópias e foi traduzido para 25 idiomas, e outras obras do autor foram adaptadas para os palcos e para as telas. Amor nos tempos do cólera recebeu uma adaptação cinematográfica em 2007 do cineasta Mike Newell (Donnie Brasco, Harry Potter e o Cálice de Fogo) com um elenco que contava com Fernanda Montenegro e Javier Bardem. Do amor e outros demônios (1995) tornou-se uma ópera em 2008.

Quando recebeu o Prêmio Nobel de Literatura, Gabo comentou que sentia que o reconhecimento não era apenas direcionado à sua obra, e sim para a literatura latino-americana. Foi premiado por sua extensa obra, tanto os seus romances os muitos contos que escreveu em que “o fantástico e a realidade são combinados em um mundo de imaginação ricamente composto, refletindo a vida de um continente e seus conflitos”, conforme definiu a própria Academia Sueca ao anunciá-lo como o escolhido em 1982.

A única história que ele não conseguiu terminar de escrever foi a da própria vida. Viver para contar, primeira parte da trilogia de suas memórias, publicada em 2002 e nunca finalizada. Seus últimos anos foram silenciosos. O próprio García Márquez afirmou em entrevista que sentia que sua voz literária havia se calado. Ele faleceu vítima de pneumonia após um período de internação devido a uma infecção respiratória, na tarde do dia 17 de abril de 2014.

*Bruno Gaspari é jornalista e escritor.

Referências:
Gabriel García Márquez: Viver para Contar; Editora Record, 2003.
Gabriel García Márquez: Relato de um náufrago; Editora Record, 2003.

Gene H. Bell-Villada: Gabriel García Márquez’s One Hundred Years of Solitude: A Case Book; Oxford University Press, 2002.
http://www.espacoacademico.com.br/074/74adoue.htm

 

 



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