A militarização do Ártico

O derretimento do Ártico está abrindo não apenas novas opções para a exploração de recursos naturais e novas rotas marítimas – está trazendo um inteiramente novo teatro de operações militares

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O derretimento do Ártico está abrindo não apenas novas opções para a exploração de recursos naturais e novas rotas marítimas – está trazendo um inteiramente novo teatro de operações militares

Por Trefor Moss, em Foreing Policy Blog | Tradução: Vinicius Gomes

De todas as disputas territoriais no mundo, as várias que existem no Ártico não costumavam ser prioridade nas agendas dos governos, pois a única recompensa na vitória seria um mar congelado e na maioria do tempo estava muito frio para qualquer força militar operar por ali. 

De repente, esses vagos territórios árticos passaram a importar. A região está cada vez mais acessível por conta do degelo e um mar aberto significa uma rica exploração de pesca, de minerais submarinos e recursos energéticos – em outras palavras, o Ártico está se tornando uma commoditie valiosa.

Os que estão em melhores condições de clamar por direitos na região são os “5 do Ártico”: países que têm litorais no oceano do Pólo Norte com bases estabelecidas e linhas territoriais preconcebidas. “A Rússia e a Noruega são os dois países mais ativos em aumentar sua capacidade para operações no Ártico”, disse Ernie Regehr, membro do think tank canadense Simons Foundation, especialista em segurança no Ártico. “O Canadá” continua Regher, “fez algumas declarações dramáticas a respeito do aumento de sua capacidade militar ao norte”, mas bateram de frente com sua realidade financeira, enquanto os EUA estão muito preocupados com outros lugares para gastarem energia em estabelecer sua presença no Ártico.  O outro país é a Dinamarca, através de seu território autônomo, Groenlândia.

A Rússia é definitivamente a que está fazendo mais: sua Frota do Norte está sendo reequipada, irá receber um novo navio anfíbio da França; e seis novos  barcos “quebra-gelos”, que com 170 metros de comprimento, serão os maiores do mundo e novos porta-aviões. Os noruegueses, enquanto isso, adquiriam uma nova frota de cinco fragatas Fridjtof Nansen que, junto de seis submarinos classe Ula, aumentaram significativamente seu poder naval.

Ainda assim, seria errado sugerir que uma “corrida armamentista no Ártico” está acontecendo. Bases estão sendo melhoradas, frotas de barcos “quebra-gelos” se expandiram e modernizaram e batalhões árticos foram treinados e armados. Mas pelo Ártico ser tão remoto, um conflito ali é quase inimaginável, segundo Regehr.

“A preparação militar no Ártico será realmente significativa se aumentar sua capacidade para contribuir efetivamente para busca e resgate, respostas emergenciais e apoio à segurança das pessoas”, diz, citando uma “insistência universal”, entre os “5 do Ártico”, para que qualquer competição continue amigável.

Os novos interesses no Ártico, entretanto, podem tornar a região um lugar mais lotado. O Conselho do Ártico – que já inclui Finlândia, Islândia e a Suécia, junto dos outros cindo – votou em maio em admitir diversos países como membros observadores, incluindo China, Índia e Japão. Entre estes, a China é a que tem mais interesse: em 2012, seu único barco quebra-gelo, o Xuelong, completou sua primeira viagem trans-ártica e já adquiriu outro que será entregue em 2014. Com isso, Pequim busca abrir o Norte como um conduíte do comércio chinês.

Regehr está otimista que esses novos atores no cenário Ártico possam se acomodar pacificamente. “Os riscos não são a China ou a Índia, especificamente”, ele diz. O problema é que mais e mais barcos e navios irão passar por águas que permanecerão perigosas mesmo que se tornem navegáveis. “A atividade humana e comercial estão um arco ascendente, assim como também estão os riscos”.

Cinco Territórios de Disputa:

280px-Barents_spMar de Barents: rivais na Guerra Fria, Noruega e Rússia acordaram por sua disputa de décadas nas fronteiras do Mar de Barents em 2010. No entanto, o descobrimento subsequente de grandes depósitos de gás e petróleo do lado norueguês deixou os russos se perguntando se eles receberiam alguma parte. 

BeringEstreito de Bering:  A China planeja começar a usar o Ártico como uma rota comercial chave para cortar viagens de longa distância. Mas barcos devem acessar a região através do Estreito de Bering – um estreito gargalo entre a Rússia e o Alaska. Um bloqueio nesse gargalo seria um movimento óbvio caso uma crise aconteça entre a China e outra potência.

greenlandGroenlândia: O derretimento nas placas que cobrem a Groenlândia está atraindo escritórios internacionais interessados em explorar os recursos da ilha. Mas pressões comerciais estão tornando-a um lugar difícil para operar, uma vez que super-explorar o frágil ambiente da ilha poderia causar problemas entre os Inuit (o povo nativo), empresários estrangeiros e o governo dinamarquês.

RUSSIA ARCTIC GRABPólo Norte: Desde que um submarino russo plantou uma bandeira nacional no leito marítimo do Pólo Norte, a “propriedade” do Norte tem sido um assunto de discussão. O Pólo, em si, interessa muito menos do que os vastos recursos de hidrocarbonetos que residem abaixo de sua superfície. O Canadá, a Dinamarca, a Rússia e os EUA, todos alegam partes de territórios que se sobrepõem, baseados em interpretações conflitantes de fronteiras marítimas.

500px-Northwest_passageA Passagem do Noroeste: O derretimento do mar congelado está abrindo a mítica Passagem do Noroeste, que cruza o norte do Canadá – ligando os oceanos Pacífico e Atlântico. Mas enquanto o Canadá alega ter soberania sobre a Passagem, citando sua proximidade com a costa canadense, outros países do Ártico – mais a China – dizem que a Passagem está em águas internacionais. Enquanto mais países utilizam a rota, o Canadá deve decidir se força sua soberania ou cede à pressão.



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