Fracasso do diálogo motivou união de Fatah e Hamas

A afirmação é do coordenador do Centro de Direito Global da Direito da FGV, Salem Nasser. “A Autoridade Palestina estava apostando em negociações com Israel pelo processo de paz. O que vimos, até agora, é que essa foi uma aposta errônea”, avalia o especialista

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A afirmação é do coordenador do Centro de Direito Global da Direito da FGV, Salem Nasser. “A Autoridade Palestina estava apostando em negociações com Israel pelo processo de paz. O que vimos, até agora, é que essa foi uma aposta errônea”, avalia o especialista

Por Igor  Carvalho

Após o anúncio da união entre os grupos palestinos Fatah e Hamas, que eram rivais declarados na luta pela criação do Estado da Palestina, houve um bombardeio das Forças militares de Israel na Faixa de Gaza. A reação do governo israelense, para o coordenador do Centro de Direito Global da Direito GV, Salem Nasser, é sintomático do que será o comportamento doravante adotado pelo país.

“Para os israelenses, esta união é ótima, porque isso servirá como desculpa para não se avançar em pontos que eles nunca cederiam mesmo e prosseguir com a violência contra a Faixa de Gaza e a Autoridade Palestina”, afirmou Nasser. O entendimento entre os dois grupos provocará, em seis meses, a realização de eleições presidenciais. Nas próximas cinco semanas, conforme o acordo, ambos organizarão um governo de transição, que administrará a Palestina até o pleito eleitoral.

O Fatah controla, por meio da Autoridade Palestina comandada por Mahmud Abbas, a Cisjordânia, e representa o centro do poder palestino. A Faixa de Gaza é controlada pelo Hamas e foi conquistada após conflitos contra o próprio Fatah, em 2007. O Hamas, considerado um grupo terrorista pelos americanos vive “isolado” e pode se fortalecer com o acordo, segundo Nasser. O afastamento do grupo é uma condição de Israel ao Fatah para que o processo de negociação por paz evolua.

O primeiro-ministro israelense, Benjamin Netanyahu, ao saber do acordo, mandou um recado para Abbas. “Ele precisa se decidir: Quer uma reconciliação com o Hamas ou a paz com Israel? Ele só terá uma dessas coisas.” Os israelenses anunciaram, nesta quinta-feira (24), a suspensão das negociações de paz com a Palestina.

Confira a entrevista, na íntegra, com o Salem Nasser:

Fórum – Por que esse acordo entre Hamas e Fatah agora?

Salem Nasser – Primeiro, tem uma coisa de fundo, a união entre os dois é uma necessidade para a causa palestina, na medida que, se eles estiverem divididos, enfraquecem a causa e qualquer representação que almejem separadamente. Ainda que tenham divergências, são mais fortes juntos. A Autoridade Palestina estava apostando em negociações com Israel pelo processo de paz. Desde 1993, em Oslo, o Fatah apostou na negociação com Israel, com intermediação dos Estados Unidos. O que vimos, até agora, é que essa foi uma aposta errônea, fadada ao fracasso, porque há uma resistência forte de Israel a fazer qualquer concessão, e os EUA não têm força para impor isso. As negociações estão completamente paradas e a linguagem de Benjamin Netanyahu continua a ser a violência.

O Fatah  até tentou uma entrada em organismos internacionais, para forçar o reconhecimento do Estado Palestino, mas é um processo que não tem funcionado também. Pelo lado do Hamas, há um sofrimento por conta do seu isolamento e confinamento relativo à Faixa de Gaza. Os dois precisam recuperar algo de sua força e de seu prestígio e encontram, nessa união, uma maneira de reforçar um ao outro.

Fórum – O senhor acredita que a má gestão do Abbas e as crises de corrupção em Gaza influenciaram? 

Salem Nasser – Ele errou muito, a sua grande bandeira política foi o diálogo com Israel, a aposta de que nasceria um Estado palestino desse diálogo. Deu errado. Nada aconteceu e nada acontecerá por via de negociação. O governo do Abbas fracassou, tem muito a ver com corrupção e um mau gerenciamento. É claro que isso impulsionou o acordo com o Hamas, é uma forma de tentar trazer uma agenda positiva, mostrando uma união nacional. Claro que isso também, em parte, manda um recado aos israelense, e talvez mais ainda aos americanos, de que, se não investiram em um acordo, então não tem mais porque atender aos pedidos de isolamento do Hamas.

Fórum – Grupos como a Jihad Islâmica crescem com o discurso do enfrentamento armado. Há uma pressão para que a Autoridade Palestina seja mais combativa? 

Salem Nasser – Esta parece ser uma escolha feita pela população nesse momento. Você tinha aqueles setores que apostaram no processo de negociação, mas essa aposta se mostrou fracassada. A outra opção e alternativa é a resistência armada. Mas, quando o Hamas faz esta escolha pelo alinhamento com o discurso do Fatah, e ao se afastar da Síria e do Irã ele se afasta um pouco da resistência. Certamente, este passo deixa uma dúvida na população, que apoia a resistência.

Fórum – Israel já condenou a união do Fatah e do Hamas e bombardeou Gaza. Os EUA consideram o Hamas um grupo terrorista. O que o senhor espera dessas relações, agora?

Salem Nasser – As reações israelense e americana são sinais de como é a posição deles de um modo geral, não há novidades. Porém, para os israelenses, esta união é ótima, porque isso servirá como desculpa para não avançar em pontos que eles nunca cederiam mesmo e prosseguir com a violência contra a Faixa de Gaza e a Autoridade Palestina. Com relação aos americanos, eles demonstram uma certa impotência, ou uma falta de vontade política, de avançarem para algo pelo menos satisfatório aos palestinos. Assim como os israelenses, eles vão se segurar nessa reaproximação como desculpa para o que eles vão entender como retrocesso, mas será apenas uma justificação para a falta de vontade americana e israelense.



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1 comment

  1. Jacobus Visser Responder

    Sou a favor de um estado judeu na região, como foi decidido pela ONU em 1948. Faltou visão dos palestinos e seus aliados que não aceitaram o fato definido pela colonização da Palestina por levas de migrações de judeus, comprando terras legalmente e com consentimento dos mesmos. Interferência externa de qualquer lado e suas políticas energéticas é que nunca viabilizaram a real paz. Simplificando era só deixar vizinhos de fronteira resolverem a questão.


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