“Dentro do trem lotado às sete da manhã, um homem ofegante abriu minha calça jeans”

Coletivo Think Olga, responsável pela campanha “Chega de Fiu Fiu” cria mapa colaborativo onde mulheres narram as violências sexuais de que foram vítimas e apontam os locais em que aconteceram

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Coletivo Think Olga, responsável pela campanha “Chega de Fiu Fiu”, cria mapa colaborativo em que mulheres narram as violências sexuais de que foram vítimas e apontam os locais onde aconteceram

Por Igor Carvalho

Juliana de Faria Kenski e Bárbara Castro, do coletivo Think Olga, responsável pela campanha “Chega de Fiu Fiu”, decidiram que precisavam intervir na geografia da violência contra a mulher. A ideia era propor uma ação e influenciar esteticamente os espaços onde ocorrem os maiores registro desses casos.

“Íamos colar cartazes que provocassem constrangimento aos homens e informar o que acontecia ali”, afirma Juliana. O problema é que elas não encontraram dados condensados sobre os locais em que ocorrem os casos de violência contra a mulher. Fim da empreitada? Não.

As duas decidiram criar, então, um mapa colaborativo, no qual as mulheres podem registrar o tipo de violência que sofreram e o local em que ocorreu. O site está no ar desde a última terça-feira (22) e já reuniu mais de 450 denúncias.

Confira um dos depoimentos postados no mapa:

“Dentro do trem lotado às sete da manhã, um homem ofegante abriu minha calça jeans. Distraída, senti cócegas na altura da virilha e pensei que fosse a corrente que usava pendurada na calça que estivesse me dando a sensação. Passei a mão e me assustei ao sentir que era a mão de outra pessoa. Afastei a mão dele, em choque. Ele tornou a colocá-la em mim, e eu tive que afastá-lo repetidamente até chegar na próxima estação, onde desci chorando. Entrei para as estatísticas do metrô, mas não conseguiram pegar o cara porque eu nem sequer consegui vê-lo direito”

Linha Vermelha do Metrô de São Paulo

“Ainda é cedo para analisar os dados, mas podemos dizer que a grande maioria vem de São Paulo e a denúncia mais comum é de assédio no transporte público. Como local, se destaca o Parque do Ibirapuera”, relata Juliana.

A construção do mapa não tem como objetivo final inibir que as mulheres frequentem esses espaços, ela explica. “Pelo contrário, queremos modificar a realidade desses locais, entender quais motivos levam os homens a cometer violência ali para propor modificações.”

As mulheres podem colaborar anonimamente, porém, para as que desejarem, há um questionário sócio-econômico. Entre os campos, é possível informar se o caso foi denunciado e qual o destino da denúncia.

Abaixo, mais depoimentos:

“Existe um garoto, que muitos ja viram na faculdade, que anda no ônibus da faculdade com o zíper da calça aberto. Ele frequentemente faz isso e fica bem perto de meninas sentadas para ser notado, é extremamente desagradável. Se você vê-lo, avise a guarda do Campus. É um rapaz novo, tem cara de estudante é branco de cabelos curtos castanhos.”
Estrada de Acesso A Universidade do Amazonas, 640-2506 – Coroado, Manaus – AM, Brasil

“Estava saindo da minha casa de short quando passei em frente a um estacionamento pago próximo a FGV quando dois caras me assediaram verbalmente dizendo “Que vontade de chupar esse cuzinho todo”. Me senti um lixo, sempre que passo próximo ao local tenho que atravessar a rua, pq “a culpa é minha que estou de short curto, e não do cara que é um completo babaca.”
Rua Rocha, 295 – Bela Vista, São Paulo – SP, 01306-010, Brasil

“Estou andando na rua quando passa, em sentido contrário ao meu, um sujeito, com seus 38 anos (eu tinha 23), que fala baixo e bem perto do meu ouvido – inclinando o corpo em minha direção para falar – “quero chupar sua buceta”. Fiquei absolutamente chocada, nunca senti tanta vergonha e tanta invasão de privacidade antes. Olhei para trás depois de ter passado, ele olhou também rindo de mim. Foi tão chocante que não soube que falar e continuei andando. Isso faz 2 anos e ainda me gera desconforto a lembrança, foi muito agressivo, nunca me senti tão invasiva. Por vários meses, depois disso, embora eu estivesse usando calça jeans e uma blusa baby look normal na época, eu parei de usar qualquer roupa que fosse minimamente sensual – só usava calças de número maior e blusas bem largas. Depois percebi que isso afetava a MINHA liberdade de escolha de roupas e voltei escolher o que eu quisesse. Um absurdo que esses vermes se sintam no direito de nos dizer qualquer coisa. Imbecis.”
Rua Augusta, 2356 – Cerqueira César, São Paulo – SP, Brasil

“Estava voltando de um dia duro de trabalho e enquanto passava pela calçada, um homem veio na minha direção fazendo gestos obscenos com os dedos e a língua, falando coisas nojentas que queria fazer comigo. Me senti agredida, desrespeitada, invadida e fiquei com medo que ele me tocasse de alguma maneira. Mesmo assim o respondi à altura e fiz com que todos que passavam soubessem o que estava acontecendo.”
Rua do Rosário, 169-195 – Centro, Vitória – ES, 29016-095, Brasil



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2 comments

  1. Ana Carolina Ribeiro Responder

    Hoje, andando pelo centro de São Paulo, perto do metrô São Bento, três homens sentados em um bar mexeram comigo enquanto eu passava. No começo não liguei porque não era nada ofensivo, mas depois um deles me chamou de “danadinha”. Não levo desaforo pra casa e não sou obrigada a ouvir o que não quero, engolir seco e fingir que nada ouvi, só porque sou mulher e estou sem alguém que os intimide. Parei, voltei e disse bem alto “quem você pensa que é pra me chamar assim? você me conhece pra falar desse jeito comigo? tenha mais respeito pelas pessoas!” Ele ficou super sem graça e os amigos dizendo “calma, moça, é brincadeira” e eu continuei “brincadeira muito sem graça, de péssimo gosto”. Eles continuaram mexendo comigo, mas pelo menos consegui deixar o que me ofendeu bem sem graça e sem reação por alguns segundos. E mais do que isso, mostrei que as mulheres têm voz sim e muitas vezes não ficam caladas nesse tipo de situação.

  2. Kate Responder

    Acho que todas nós, mulheres, temos alguma história de constrangimento a contar. Já passei dos 30 e considero ter aprendido tarde a levantar a cabeça e encarar os idiotas que nos querem constranger. Penso que nao devemos nos calar, creio que tb o silêncio que esperam de nós que os estimula.


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