Em defesa do cinema desagradável

Triste e desolado, “Cães errantes” expõe, entre elipses, ambiguidades e pontos sem explicação, personagens movendo-se nas bordas da metrópole capitalista

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Triste e desolado, “Cães errantes”  expõe, entre elipses, ambiguidades e pontos sem explicação, personagens movendo-se nas bordas da metrópole capitalista

Por José Geraldo Couto, no blog do IMS via Outras Palavras

Cães errantes ganhou o grande prêmio do júri no Festival de Veneza do ano passado, mas está longe de ser uma unanimidade de crítica e, muito menos, um sucesso de público. Como todo o cinema do malaio (radicado em Taiwan) Tsai Ming Liang, é um filme duro, radical, exigente.

Já nas primeiras imagens – um plano fixo de vários minutos que mostra um menino e uma menina dormindo numa choça, enquanto em primeiro plano uma mulher sentada penteia sem parar os longos cabelos, de modo que mal vemos seu rosto – o diretor mostra seu rude cartão de visitas, como se estabelecesse ali um pacto com o espectador: “Deixai toda esperança, vós que entrais”. Quem quiser diversão ou conforto, que vá procurar em outra sala.

Na continuação da narrativa, essa mulher sai de cena e passamos a acompanhar, de modo fragmentado e lacunar, o dia-a-dia dessas duas crianças e de seu pai, um alcoólatra que ganha a vida segurando tabuletas de propaganda nas esquinas de Taipei. São eles, evidentemente, os “cães errantes” do título, ainda que cachorros vadios “literais” apareçam ocasionalmente num galpão abandonado, alimentados por uma mulher.

A forma é o conteúdo

Mas a ideia de uma narrativa linear, progressiva, se esgarça por conta das elipses, das ambiguidades, dos pontos sem explicação. A longuíssima duração dos planos-sequência, quase sempre fixos, esvazia-os da função de tijolos numa construção narrativa, devolvendo-os, por assim dizer, à condição de pedra bruta, intratável, insubstituível.

Ao comentar recentemente o filme Sem essa, aranha, de Rogério Sganzerla, Julio Bressane disse que, depois de alguns minutos de plano-sequência o olhar do espectador é atraído para a materialidade da imagem, para o grão, para a textura, a composição, a luz. Os valores da forma, em suma, ganham relevo, deixando de servir meramente a um “conteúdo”. Melhor dizendo, o conteúdo passa a ser a própria forma.

No caso de Cães errantes, mais do que contar a história daqueles poucos seres, o que importa, ao meu ver, é a construção de uma ambiência, de um estado. Os personagens se movem nas bordas, ou antes, nas frestas da metrópole capitalista. Os becos, terrenos baldios, barracos, construções abandonadas, não apenas são estranhamente contíguos à paisagem natural (árvores, rios), como são invadidos por ela, como as touceiras de mato que surgem nas rachaduras do cimento ou do asfalto.

Seres sem lugar

Essa condição de seres sem lugar, intervalares, que ocupam esse espaço ambíguo entre a metrópole e o mato, a natureza e a cultura, o animal e o humano, é o que unifica o filme e é, provavelmente, o que fica, ao fim da sessão e depois, na sensibilidade do espectador que estiver disposto a se abrir à experiência.

Num dos episódios mais desconcertantes do filme, a menina, que perambula sozinha por um enorme supermercado, leva para casa um repolho e o transforma numa boneca, pintando-lhe um rosto, dando-lhe um nome. Uma noite, depois de chegar em casa bêbado, o pai da menina primeiro beija lubricamente o repolho (como se fosse uma boneca inflável ou algo do tipo) e em seguida o devora com voracidade, cru mesmo, e o despedaça brutalmente. Um prato cheio para quem gosta da palavra “ressignificação”.

Excluídos do mercado capitalista e das maravilhas do consumo, os personagens de Cães errantes vivem das suas sobras, que eles reciclam e adaptam para construir o seu mundo – como o estranho subsolo abandonado em que esboçam, já perto do fim, o arremedo de um lar e de uma família.

O mundo de Tsai Ming Liang é triste e desolado como a chuva num barraco de lona plástica ou as manchas de uma parede descascada. Não é agradável. Mas quem disse que a arte tem que ser agradável?

O infortúnio necessário

Numa carta que escreveu em 1904 a seu amigo Oskar Pollak, Kafka disse o seguinte: “Penso que devemos ler somente os livros que nos mordam e piquem. Se o livro que estamos lendo não nos sacode e acorda como um golpe no crânio, por que nos darmos o trabalho de lê-lo? Para que nos faça feliz, como você diz? Ora, seríamos felizes da mesma forma se não tivéssemos livros. Livros que nos façam felizes, em caso de necessidade, poderíamos escrevê-los nós mesmos. Precisamos é de livros que nos atinjam como o pior dos infortúnios, como a morte de alguém que amamos mais do que a nós mesmos, que nos façam sentir como se tivéssemos sido banidos para a floresta, longe de qualquer presença humana, como um suicídio”.

Podemos substituir a palavra “livro” por “filme” ou qualquer outro meio de expressão artística. Não vou tão longe a ponto de achar, como Kafka, que toda obra deva afligir e atormentar. Que seria de nós sem as delícias do cinema de entretenimento? Mas de vez em quando um infortuniozinho cai bem para nos lembrar da nossa triste condição de humanos num mundo desumano.



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