Farc negam participação no narcotráfico e defendem debate global sobre drogas

“Há uma propaganda mundial equivocada de que os camponeses produzem a coca, e que alguns traficantes colombianos produzem cocaína e vendem. Mas quem compra? Por que não se questionam os Estados Unidos como o grande consumidor?”, pondera Andrés París, um dos negociadores da organização...

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“Há uma propaganda mundial equivocada de que os camponeses produzem a coca, e que alguns traficantes colombianos produzem cocaína e vendem. Mas quem compra? Por que não se questionam os Estados Unidos como o grande consumidor?”, pondera Andrés París, um dos negociadores da organização com o governo colombiano
Por Leandra Felipe*, da Agência Brasil/EBC

As Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc) rejeitam as acusações de envolvimento direto na cadeia produtiva do narcotráfico, como afirmou um relatório sobre terrorismo divulgado ontem (30) pelo Departamento de Estado do governo americano, e defendem que o problema só será resolvido “se os grandes países consumidores assumirem responsabilidades”.

A guerrilha, que negocia a paz com o governo e discute uma solução para o problema das drogas no país, nega que tenha participação direta no plantio, na produção e no tráfico de drogas, como a cocaína, a maconha e a heroína. “A única coisa que fazemos é cobrar um imposto aos grandes capitais que circulam nas regiões em que atuamos”, diz.

Embora não tenha respondido aos Estados Unidos após a divulgação do relatório dessa quarta-feira, as Farc afirmaram em diversas ocasiões que tais acusações são infundadas.

“O pecado que as Farc cometem é viver em áreas de cultivos ilícitos e compartilhar estas zonas com camponeses”, disse Fidel Rondón, um dos representantes da guerrilha em Havana, Cuba, durante uma entrevista coletiva realizada na capital cubana, na 3ª Assembleia Geral da União das Agências de Notícias Latino-Americanas, a ULAN, que contou com a presença da Agência Brasil, entre os dias 21 e 22 de abril.

Andrés París, um dos negociadores das Farc com o governo colombiano, disse que o imposto cobrado, as chamadas vacunas, não estabelecem uma política de colaboração com as máfias do narcotráfico. “Fazemos isso desde o começo, para nosso financiamento, e de tal maneira que só permitimos a permanência destes capitais nas regiões em que estamos mediante o pagamento deste imposto”, explicou

A cobrança dos “impostos” é uma exigência feita pela guerrilha a empresas mineradoras, energéticas e petroleiras nacionais e internacionais que atuam no país, em áreas onde as Farc permanecem. Entretanto, no tema do narcotráfico, as Farc sustentam a versão de que a prática da cobrança do imposto é a única relação com a cadeia produtiva de drogas – versão contestada pelo governo colombiano e por aliados, como o governo americano.

No relatório, os Estados Unidos afirmam que a guerrilha colombiana é a principal responsável por atos terroristas e que há provas documentadas da participação da guerrilha na cadeia do narcotráfico – no plantio de coca e de maconha, na produção e no tráfico de drogas.

Em busca da paz, o governo e as Farc conversam sobre o tema na mesa de negociações e esperam fechar um acordo parcial em breve. Na entrevista coletiva, as Farc falaram do impasse enfrentado na negociação com o governo sobre as soluções para o problema das drogas ilícitas.

Ainda que não admita envolvimento direto no narcotráfico, a guerrilha reconhece que o fenômeno é uma realidade no país, que permeia as relações políticas, militares, sociais e econômicas colombianas.

Neste ponto, as Farc divergem do pensamento do governo de Juan Manuel Santos. “Para nós, o narcotráfico só será resolvido quando todos os países, mundialmente, dialogarem e buscarem uma solução comum. Só quando os países poderosos assumirem suas responsabilidades”, destacou Páris.

O governo por sua vez, defende que a mesa negociadora trate do problema internamente, já que o tema depende internacionalmente do envolvimento de outros países e da definição coletiva de novos parâmetros.

As Farc reconhecem que não conseguirão “resolver um problema global” na mesa, em Havana. “Sabemos que não é possível, mas queremos chamar a atenção para que os países se envolvam, além de lembrar que o império das drogas não sobreviveria sem apoio de capitais e setores do poder mundial”, frisou Rondón.

A guerrilha confirmou que já tem um acordo sobre os cultivos, e que espera que a mesa aprove uma proposta que libere o cultivo para fins medicinais, além de uma abordagem do consumo dentro de uma perspectiva de saúde pública.

Mas para a solução verdadeira, as Farc dizem que é preciso chamar atenção para o “ponto final” da cadeia produtiva. “Há uma propaganda mundial equivocada de que os camponeses produzem a coca, e que alguns traficantes colombianos produzem cocaína e vendem. Mas quem compra? Por que não se questionam os Estados Unidos como o grande consumidor?”, ponderou París.

Para as Farc, o principal responsável pelo narcotráfico são os Estados Unidos. “Para transformar coca em cocaína são necessários componentes químicos e todos vêm dos Estados Unidos. Vamos ver se eles [americanos] estão dispostos a firmar uma declaração que comprometa as partes a tratar deste tema”, ponderou.

O processo de paz entre o governo e a Colômbia começou em novembro de 2012 e, para ser concluído, a mesa negociadora deve chegar a um consenso sobre o tema das drogas e avaliar ainda três assuntos: a reparação das vítimas do conflito armado, a desmobilização e a reintegração de guerrilheiros e as  garantias para cumprimento de acordos no pós-conflito.

*Colaborou Lana Cristina 



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3 comments

  1. Elias Responder

    Mas realmente os USA são os grandes consumidores, assim como o Brasil, usuário de droga tem sim a sua culpa. A destraça do México é culpa dos usuários americanos. Concordamos?

  2. Franco Responder

    Em meio às negociações de paz entre as Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (FARC) e o governo de Juan Manuel Santos – iniciadas em outubro de 2012–, a guerrilha foi responsável pela maior parte dos ataques terroristas no Hemisfério Ocidental em 2013. A conclusão é de um relatório sobre terrorismo divulgado ontem pelo Departamento de Estado dos EUA (Country Reports on Terrorism 2013).

    Os ataques à infraestrutura colombiana – especialmente a oleodutos e plataformas de petróleo – principalmente pelas Farc e pelo Exército de Libertação Nacional (ELN) tiveram aumento de 46% em comparação a 2012. As FARC se concentraram no ano passado em ataques assimétricos (contra inimigos sem poder de retaliação) de baixo custo e alto impacto. As formas mais comuns foram lançamento de granadas de morteiros em delegacias de polícia ou postos militares, uso de explosivos colocados perto de estradas ou trilhas, ataques de franco-atiradores, barricadas e emboscadas.

    No ano passado, segundo o relatório do Departamento de Estado dos EUA, a Colômbia experimentou a diminuição da atividade terrorista, apesar de o número de ataques à infraestrutura ter aumentado. Estatísticas do governo colombiano mostraram uma diminuição de 7% nos ataques em relação a 2012, com 830 incidentes terroristas no país comparados a 894 ataques no ano anterior.

    As forças de segurança e prédios públicos foram o alvo mais comum, embora as baixas civis tenham ocorrido durante todo o ano. Ataques foram mais frequentes ao longo da fronteira com a Venezuela nos departamentos de Arauca, Norte de Santander e La Guajira. Também se destacaram no sudoeste, nos departamentos de Nariño e Cauca, e no departamento de Antioquia.

    As FARC terminaram o ano de 2013 com uma declaração de cessar-fogo unilateral de 30 dias a partir de 15 de dezembro, enquanto Santos declarou que o governo continuaria sua pressão contra os insurgentes.

    A guerrilha é considerada pelo governo americano a maior, mais antiga, mais violenta e mais bem equipada organização terrorista da América Latina. Embora o governo colombiano e os guerrilheiros tenham chegado a acordos parciais em reforma agrária e participação política, um acordo de paz bilateral não foi atingido.

    O ELN também expressou desejo de encontrar uma saída política. Embora suas negociações com o governo ainda não tenham começado, o ELN libertou duas importantes vítimas de sequestro e indicou um grupo de negociadores formado por cinco pessoas.
    …..
    Depois irão fazer um partido politico serão eleitos dificilmente com medidas populistas e irão criar uma comissão da verdade contra a “ditadura” Colombiana.

  3. Paulo Leone Responder

    Perdão, mas acho que é mentira.

    Ou melhor, apenas jogo de retórica: “envolvimento direto na cadeia produtiva do narcotráfico” . . .

    Tenho ouvido diversos relatos de que a FARC faz um tipo de segurança da área e recebem por isso . . . e a última “fofoca” que ouvi é que esses pagamentos chegavam na cifra de 300 milhões de dólares anuais !!!

    É bom lembrar que o narcotráfico (segundo a ONU) tem plantado milhares de hectares (tipo 300 mil . . .) de árvores de coca na Amazônia – TODO ANO …
    e ninguém vê ?

    Também ouvi, aliás, vi um documentário em que moradores locais entrevistados dizem que a FARC executa qualquer aventureiro que tente fazer uma pequena produção caseira de cocaína para aumentar sua renda . . .
    e executam sumariamente … o que parece ser um tipo de proteção de reserva dos produtores que pagam a segurança . . .

    Seria importante que um trabalho real de jornalismo fosse permitido na região para que a opinião pública soubesse a realidade e pudesse criar seu juízo de valor a respeito !!!
    Será que eles permitiriam uma equipe de jornalistas acompanhando a rotina de suas atividades ?


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