“Putin, fique longe do meu país”

Ruslana, a popstar e ativista política ucraniana, explica porque defende a aproximação de seu país à União Europeia e não à Rússia. "Nós entendemos que Moscou e Putin não nos respeitam, não acreditam em nossa independência"

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Ruslana, a popstar e ativista política ucraniana, explica porque defende a aproximação de seu país à União Europeia e não à Rússia. “Nós entendemos que Moscou e Putin não nos respeitam, não acreditam em nossa independência”

Por Anna Beatriz Anjos, fotos por Renato Leite Ribeiro , na Fórum Semanal

Ruslana Lyzhychko é uma popstar. Mas não apenas isso. Ela faz multidões pularem ao som de suas canções. Porém, usou suas músicas como arma política em um dos mais surpreendentes levantes populares dos últimos anos.

A cantora, uma das mais populares da Ucrânia – se não a mais –, se apresentou durante noites e noites seguidas na Maidan, a praça central de Kiev, desde novembro, quando começaram os protestos contra o já deposto presidente Viktor Yanukovych.

Desde então, o que se viu foi uma queda de braço entre o lado que apoia uma Ucrânia vinculada a Moscou e os partidários da ideia de que seguir a União Europeia seja o caminho. Ruslana não titubeia em demonstrar sua escolha.

“Acreditamos que podemos manter a Ucrânia um país independente com a União Europeia, não com a Rússia. Não é por motivos econômicos. A União Europeia não vai destruir a Ucrânia. Essa é a ambição de Putin”, afirma a cantora.

O mandatário russo é o alvo certo das críticas e da indignação de Ruslana. “Putin quer mostrar aos russos que é um grande homem, para que possa ser presidente para sempre. E a Ucrânia é que tem que pagar por isso”, diz.

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Ruslana, a popstar que defende sua nação com unhas e dentes, diz reconhecer seu papel em meio à revolta ucraniana. “Não sou uma líder, quero apenas dar voz às pessoas.”

“Ajudar o meu país”

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A carreira é de uma popstar. Videoclipes superproduzidos com efeitos especiais, roupas exóticas e entrevistas para revistas do mundo inteiro. Nos últimos meses, Ruslana foi tema de matérias de importantes veículos, como Reuters, The Washington Post, The Daily Beast e Newsweek.

O interesse da imprensa internacional tem menos a ver com sua música do que com seu engajamento político. Provavelmente por isso a cantora tenha sido convidada a participar do TEDx Liberdade, em São Paulo, no último dia 23. O evento reuniu, em torno de seu tema – “The Power of Together” (algo como “o poder da união”, em português) -, palestrantes brasileiros e estrangeiros. Em sua fala, como não deixaria de ser, a artista contou sobre a experiência das manifestações na Ucrânia, deflagradas depois que Yanukovych decidiu não assinar um acordo comercial com a União Europeia.

No lobby do hotel onde a encontramos, no centro da cidade, Ruslana andava de um lado a outro falando em seu iPhone. Em um ucraniano rápido, conversou por cerca de 5 minutos com a pessoa do outro do lado da linha. Somente depois de finalizado o diálogo, sentou-se conosco e se concentrou na entrevista. “O mais importante é você usar a sua matéria para ajudar o meu país. Não falar sobre mim, a pessoa pública Ruslana”, disse, antes mesmo da primeira pergunta. “O que está acontecendo é uma grande guerra que não tem a ver com a Ucrânia. Tem a ver com a União Europeia contra a Rússia. Infelizmente, o centro dessa batalha é a Ucrânia.”

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“Putin quer mostrar aos russos que é um grande homem, para que possa ser presidente para sempre. E a Ucrânia é que tem que pagar por isso”

Que a cantora é a favor da integração de seu país à União Europeia já sabíamos. Não apenas por conta de seu apoio aos atos contra o ex-governo, mais próximo de Moscou, mas porque é essa uma de suas maiores reivindicações como ativista política. Hoje com 40 anos, nasceu na cidade de Lviv, no oeste ucraniano, onde não há predominância da cultura russa, como ocorre na região leste. “Me desculpem os russos, mas sou muito feliz como ucraniana. Nós somos livres agora”, afirma,rindo.

Em fevereiro, inclusive, Ruslana esteve no Parlamento Europeu, em Estrasburgo, na França. Em entrevista à BBC, na ocasião, explicou que esperava que os europeus pudessem “nos ajudar com a nossa crise, nos ajudar a organizar uma nova estratégia anticorrupção e com o nosso processo de democracia. Nós precisamos disso antes das próximas eleições”.

O nome do presidente russo é citado inúmeras vezes ao longo da entrevista. Para Ruslana, ele é o inimigo número 1 da autonomia ucraniana. “Por exemplo, ele pode nos dar gás ou não, elevar os preços ou abaixá-los. Ele nos chantageia. A mensagem que  manda é: a Ucrânia é minha”, diz. “Nós entendemos que Moscou e Putin não nos respeitam, não acreditam em nossa independência.”

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Munida do discurso pró-União Europeia e anti-Putin – pois “o problema não é a Rússia ou os russos, é seu presidente” –, a cantora enfrentou o rígido inverno do leste europeu e subiu ao palco da Maidan todas as noites durante semanas. Por horas, ao lado de outros músicos conterrâneos, cantava seus hits, intercalando-os ao hino nacional ucraniano. Um jornal de Kiev chegou a considera-la a “real anfitriã do EuroMaidan”, pois “ela falava do palco e encorajava as pessoas a ficarem na praça”.

“Se você não tem a chance de subir no palco, pegar o microfone e dizer ‘Putin, fique longe do meu país’, posso dizer por você”, conta Ruslana. “Eu tenho o microfone, tenho minha voz, meu nome. Posso reproduzir o que querem dizer pessoas que nunca terão a oportunidade de ter nas mãos um microfone.”

Ativismo e carreira

A presença de Ruslana em mobilizações sociais não é recente. Em 2004, foi figura central nas manifestações contra os indícios de fraude nas eleições presidenciais da Ucrânia – a chamada Revolução Laranja. À época, ela já fazia oposição a Yanukovych, o primeiro vencedor do pleito. A pressão popular foi tamanha que uma nova eleição teve de ser realizada e culminou na vitória do outro candidato, Viktor Yushchenko, apoiado pela cantora.

Pouco antes, naquele mesmo ano, ela se destacou também no cenário artístico. Com a música Wild Dances, venceu o Eurovision, concurso musical entre países europeus. O fato marcou sua carreira e a projetou tanto nacional, como internacionalmente. Por 97 semanas, Wild Dances esteve no topo de rankings em toda a Europa. Na Ucrânia, o álbum do hit, Dyki Tantsi, vendeu 500 mil cópias e ganhou 5 vezes o disco de platina, o que fez de Ruslana a primeira artista a alcançar tal feito em seu país.

O boom de sua carreira musical e seu ativismo político atraíram o interesse de organizações como a ONU. Em 2005 e 2006, foi embaixadora da Boa Vontade do Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef) na Ucrânia. Mais recentemente, no fim do ano passado, recebeu, da primeira-dama norte-ameriacana, Michelle Obama, o prêmio Women of Courage (em português, “mulheres de coragem”). Ela e mais nove mulheres do mundo todo foram escolhidas por sua “excepcional coragem e liderança na defesa da paz, justiça, direitos humanos, igualdade de gênero e empoderamento feminino, apesar de expostas, frequentemente, a grandes riscos”.

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“Todos nos respeitam agora por conta do poder popular. As pessoas podem se unir e mudar as coisas, é isso. Não os políticos, apenas as pessoas”, diz a cantora sobre o levante popular ucraniano contra o governo de Yanukovytch

Ainda que os holofotes estejam sobre a figura de Ruslana, há quem diga que seu engajamento na Maidan não passa de uma tentativa de promover a si mesma. Um manifestante ucraniano, em entrevista à Newsweek, lembrou que a cantora não lança um álbum de sucesso há anos e descreveu sua participação nos protestos como “falso entusiasmo”. “Felizmente, o que ela vem fazendo – sua pessoa pública – ajuda a fortalecer o movimento, mas suas motivações particulares estão distantes disso”, comentou o estudante, que preferiu permanecer anônimo. Ruslana rebate: “Você acha que eu arriscaria minha vida por publicidade? Isso é uma coisa estúpida. Esse não é o melhor jeito de conseguir atenção, é perigoso”.

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Embora já tenha sido deputada, entre 2006 e 2007, pelo Nossa Ucrânia, partido de Yushchenko, a cantora nega ter intenções de concorrer novamente às eleições. “Eu odeio política”, revela. “Todos nos respeitam agora por conta do poder popular. As pessoas podem se unir e mudar as coisas, é isso. Não os políticos, apenas as pessoas”, declara, categórica. Ruslana, a popstar que defende sua nação com unhas e dentes, diz reconhecer seu papel em meio à revolta ucraniana. “Não sou uma líder, quero apenas dar voz às pessoas.”



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3 comments

  1. Rodrigo Responder

    O fato da mídia estar incentivando essa mulher já não é um bom sinal. A tática de desinformação que os EUA utilizam para que dominem outras culturas tem como um dos pilares esses artistas pop.
    Não vejo, claramente, razão para dar crédito a essa cantora.
    Que ela possui um lado definido é claro, mas que essa é a melhor saída para a Ucrânia, já não sei. O partido que apoia a UE é de extrema direita neonazista. Assim como o ocidente criou um Hitler o financiando e construindo toda uma imagem de salvador da pátria, pode surgir ai um outro semelhante. Como apontado em outra reportagem aqui do site, os EUA tentam “Hitlerizar” Putin, mas quem venceu a guerra contra os nazistas foi a URSS. E por meio da propaganda os EUA tentam levar o crédito.
    O ocidente nunca teve nada de humanitário nas suas ações.

  2. Cleusa Pozzetti Siba Responder

    A União Européia e os EUA irão ajudar à Ucrânia? Ou essa cantora é ingênua ou mal intencionada? É só ver como estão os países pobres europeus e as invasões dos EUA em países soberanos como foi o caso do Iraque, Líbia,entre tantos outros. Acho que se ele realmente amasse o seu País escolheria a Rússia como sua aliada em uma situação soberana. A única ajuda que receberão dos seus pretendidos aliados – será a fome, desrespeito e miséria para o povo da Ucránia!


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