É preciso por fim ao capitalismo

É evidente que para combater a pobreza extrema é essencial pôr fim à extrema riqueza. Como Eduardo Galeano disse: "este capitalismo assassino mata os famintos ao invés de matar a fome, e está em guerra contra os pobres mas não contra a pobreza"

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É evidente que para combater a pobreza extrema é essencial pôr fim à extrema riqueza. Como Eduardo Galeano disse: “este capitalismo assassino mata os famintos ao invés de matar a fome, e está em guerra contra os pobres mas não contra a pobreza”

Por Xavier Caño Tamayo, em Voltaire. Tradução: Marisa Choguill

Alguns dias atrás, Jim Yong Kim, Presidente do Banco Mundial, disse que 1 bilhão de pessoas vive hoje em extrema pobreza. Isso representa um sétimo da população, ou quase 15% dos habitantes da terra. Para ressaltar a gravidade da situação, Kim indicou que “colocar um fim à pobreza extrema exigiria que 1 milhão de pessoas deixasse de ser pobre a cada semana, durante 16 anos”.

Há cerca de 5 anos, José Vidal Beneyto escreveu que “a cada 3 segundos morre uma criança por sofrer de pobreza, e em resposta todos os dias a fortuna dos mais ricos se multiplica rapidamente”. Ele havia se aprofundado em um relatório da Organização das Nações Unidas sobre desenvolvimento de recursos humanos, desmontando a falácia da pobreza devido a circunstâncias inevitáveis. Desnutrição, fome, doença, exploração, analfabetismo, mortalidade infantil… poderiam ser eliminados se acabássemos com uma ordem social cujo principal objetivo é aumentar a riqueza dos ricos.

Vidal Beneyto citou um relatório por Emanuel Saez e Thomas Piketty que mostrava que 1% das pessoas mais ricas dos Estados Unidos possuíam uma fortuna maior do que a que tinham, na época, 170 milhões de americanos com menos recursos. Mas isso foi há quase 5 anos. Um estudo na Universidade da Califórnia em Berkeley (Striking it richer: the evolution of top incomes in the United States – Ficando mais rico: a evolução dos rendimentos mais altos nos Estados Unidos) mostra que, de 2009 a 2012, nos Unidos Estados, os 1 por cento mais ricos da população se apropriaram de 95 por cento do aumento da receita no país. O benefício desses 1% mais ricos cresceu mais de 30% nesse período; mas, o benefício do resto foi só um pequeno 0.4 por cento.

Conforme mostrado pelos dados do Credit Suisse, em um mundo de 7,3 bilhões de habitantes, quase metade da riqueza está nas mãos de 1% da população, enquanto a outra metade é distribuída entre os 99% restantes, sendo maior o número daqueles têm menos. A desigualdade cresce sem cessar, pois a riqueza cada vez se redistribui menos e se concentra mais em muito poucas mãos.

Na Espanha, se medirmos os rendimentos dos 20 por cento mais ricos da população e dos 20% mais pobres, lembra-nos Juan Torres, veremos que a desigualdade aumentou dramaticamente desde 2007. A Espanha é o país europeu com mais desigualdade. Em 2011, apenas Bulgária e Romênia tinham maiores taxas de pobreza.

Mas isso não acontece apenas na Espanha. Na Alemanha, já existem 8 milhões de trabalhadores que ganham menos de 450 euros por mês; e, na França, o nível de pobreza é o maior desde 1997: 2 milhões de trabalhadores ganham menos de 645 euros por mês e 3,5 milhões de pessoas precisam de ajuda alimentar para sobreviver. Mesmo em países com reputação de mais igualitários (Suécia ou Noruega, por exemplo), a renda dos 1% mais ricos aumentou mais de 50 por cento, mas não a do resto da população.

O caso espanhol é o mais grave. De acordo com dados do Fundo Monetário Internacional, só a Lituânia o supera em aumento da desigualdade; o que significa que desigualdade e pobreza associadas atingirão níveis insustentáveis se não forem tratadas. Falar em desigualdade é, necessariamente, falar de pobreza. E a pobreza que acompanha a desigualdade tem consequências terríveis. Por exemplo, Joanna Kerr, diretora geral da ActionAid International, anunciou recentemente que, se não se agir imediatamente, mais 1 milhão de crianças poderão morrer até 2015.

Mas, não se luta contra a pobreza sem fazê-lo contra a desigualdade também. Uma desigualdade que persiste e cujas causas estruturais são a imposição de uma liberdade total para a compra e venda de bens, capitais e serviços; a completa desregulamentação da atividade econômica (principalmente financeira); a redução drástica das despesas públicas; mais a exigência de um rígido controle orçamental, especialmente em serviços e atendimento dos direitos sociais. Para não mencionar a indecente redução sistemática dos impostos para os mais ricos, que começou em 1980 e não cessou.

É evidente que para combater a pobreza extrema é essencial pôr fim à extrema riqueza. Como Eduardo Galeano disse: “este capitalismo assassino mata os famintos ao invés de matar a fome, e está em guerra contra os pobres mas não contra a pobreza”.



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13 comments

  1. Elias Responder

    Capitalismo não existe é um termo pejorativo inventado pela esquerda, não é uma ideologia é apenas um modelo econômico, o livro comercio, que sempre existiu, acabar com essa liberdade é literalmente condenar toda humanidade ao autoritarismo estatal, futuro sombrio da humanidade pois a ONU também tende para a esquerda.

    1. Thiago Albino Responder

      Aff cara, pensa no que tu fala. Autoritarismo estatal? isso é o que vc aprende na escola e na mídia. Autoritarismo é o que vivemos atualmente, o nosso Estado só serve para assegurar os privilégios desse 1% (que pessoas ignorantes adoram). Sabe como também é chamada a Ditadura militar? Autocracia Burguesa. Vc vive o fascismo e nem sabe. Acorda, cara, vc tá falando o que o Faustão e o Eike Batista querem que vc fale. Vc não é nenhum milionário para ficar pensando assim. Parece que vc apenas leu o título e veio comentar essa baboseira aí. Vá estudar de verdade, esquece esse paradigma e sai desse seu mundinho limitado.

      1. André LDC Responder

        Thiago Albino, há uma contradição séria no seu comentário. Você diz que “autoritarismo estatal” é aquilo que se aprende na escola e na mídia. Ou seja, numa só frase, você pretende desqualificar um conceito pelos meios onde ele supostamente é aprendido. Mais adiante, você diz ao Elias para “estudar de verdade”. Estudar de que forma? Seria em uma não-escola? Ou acaso não percebe que toda forma de transmissão de conhecimento assemelha-se à atividade escolar? Nem vou falar do seu rancor contra a mídia, como se um mundo sem imprensa fosse algo mais justo. Questões ideológicas à parte, o Elias está certo quando fala que o capitalismo é um modelo econômico. Criticar o modo predatório como ele vem sendo praticado não deveria ser confundido com o desejo pela sua extinção, o qual é ingênuo, eufemisticamente falando. Deixe de ser falacioso e aprenda a argumentar, pois o seu mundinho é bem mais limitado e tacanho do que você imagina.

      2. Elias Responder

        Estudar de verdade para debater com a esquerda? Não é necessário, mesmo que todos os milionários e este 1% do mundo dividisse a sua riqueza o que gera riqueza é o mercado, o estado não gera riqueza ele gasta riqueza. Acreditar na esquerda em pleno ano de 2014, por favor estudem história se a humanidade deixasse de tentar “mudar o mundo” as coisas de fato melhorariam, até hoje o máximo que conseguiram foram genocídios históricos. Para o mundo mudar é necessário a humanidade mudar.

        http://www.youtube.com/watch?v=7Y5iXGutfO0

        1. Rodrigo Xavier Responder

          Caro Elias, concordo contigo, em parte. Certo é que esperar que a situação se modifique por meio de política, seja ela econômica ou estatal, é acreditar em contos de fadas. Grande parte das mudanças que modificaram a história para o bem da humanidade se deram por movimentação do corpo social que, por sua vez, alteraram a política.
          Não sei se você sabe mais a maioria das ditaduras que se diziam de esquerda foram, na verdade, financiadas por meios capitalistas. Hitler, Saddan, Osama, tiveram apoio maciço de capital norte americano antes de se instalarem no poder. Sem falar, é claro, da ditadura brasileira, que foi implantada pelos empresários e a grande mídia.
          O que quero dizer é que não existe, de fato, uma direita e esquerda definida, isso tudo que vemos é apenas um jogo de poder onde nós somos as peças de tabuleiro. Quando é necessário implantam um tipo de poder manipulando a população e vice versa.
          Dê uma olhada na afirmação de FHC recentemente. Ele que se mostrava, claramente, de direita diz ser de esquerda. Isso, sinceramente, não existe. O que querem é o poder. E poder é o capital.
          Isso dá muito pano pra manga.

          http://www1.folha.uol.com.br/poder/2014/04/1438019-sou-de-esquerda-mas-ninguem-acredita-diz-fhc.shtml

          E se quiserem obter mais informações te um fórum interessante que tratam esses temas. Um dos tópicos, é discutido exatamente a função da esquerda e direita.
          É claro que existem algumas viagens. Mas, no todo, possui bastante informação legal.

          http://forum.antinovaordemmundial.com/Topico-direita-e-esquerda-dois-bra%C3%A7os-um-corpo?highlight=esquerda+e+direita

          Abraços.

        2. Gabriel Miziara Responder

          ”o Estado não gera riqueza, ele gasta riqueza” diz o cara que não sabe que a sociedade brasileira foi baseada numa porcentagem com privilégios (proprietários de terras), numa porcentagem de imigrantes que também tiveram ALGUNS privilégios e, numa grande porcentagem negra, ex-escrava, que ficou aqui à mercê de um desemprego estrutural após a abolição…

          1. Alexandre

            Ele está certo: o estado não gera riqueza, apenas a gasta. Pode distribuí-la com alguma justiça ou não. Aliás, a desigualdade social não é necessariamente injusta. Muitas vezes, o privilégio que gerou a riqueza de alguém vem do estado. Pense nisso.

  2. Elias Responder

    Rodrigo Xavier o próprio prédio da ONU representa a torre de Babel é um desafio claro a deus, ou seja uma simbologia clara disso, eu concordo que tanto a direita quanto a esquerda possui intenções autoritárias semelhantes, um governo único global, existe uma luta entre a Eurásia e o Ocidente(OTAN) sobre o controle do mundo, mas de maneira quase impressionante ambos os blocos de esquerda e de direita possuem objetivos semelhantes.

    http://www.olavodecarvalho.org/textos/110307debate.html

    1. Lucas Responder

      Sabia que era Olavete!

  3. Rodolfo Responder

    Ao afirmar que os ideias da esquerda está defasado ou o segundo argumento lógico, de que ele gera também o autoritarismo ( URSS, China, etc) reivindicando para tal a história contemporânea, comete-se o grave erro de ver a história apenas por um lado, ainda por cima um lado visto através de lentes ideologicamente disformes.
    Pois, primeiramente, o capitalismo é sim uma ideologia, devido ao simples fato de que ao se estruturar enquanto modelo econômico ele acaba por sistematizar uma série de pensamentos e “regras” para o seu funcionamento pleno. Além disso, o capitalismo enquanto sistema é capaz de determinar condições em todos os demais campos da vida humana – política, ciência, arte, etc.
    Segundo, uma pequena dedicação aos estudos torna possível perceber que o pensamento de esquerda NUNCA esteve de forma correta empregado, a URSS teve um breve período onde a ideologia comunista teve a frente dos ideias ( momento breve) depois tivemos mais regime individualista justificado por derivações nebulosas do comunismo – principalmente da ideia tão mal compreendida de “Ditadura do proletariado”.
    Terceiro, afirmar que o fim do capitalismo seria a desgraça humana é um argumento cego, pois nesse momento mais de 80% da humanidade já vive em desgraça devido aos empreendimentos capitalistas ( seja a especulação financeira, a destruição do comércio local pelas grandes corporações, o monopólio, o controle de patentes, etc.). Enfim, esse tipo de argumento demonstra um tipo de conformismo com o sistema que se baseia em duas coisas:
    Primeiramente na incapacidade de se “desapegar” desse modelo, a substituição do capitalismo alteraria por completo nossa vida social/política.
    Em segundo lugar, demonstra o efeito perverso da mídia (a parte representante dos grande interesses) e também da educação, que vem sendo de fundamental importância no processo de “afastamento” do indivíduo comum das discussões políticas, através de reducionismo, simplificações. Ainda sobre isso, vale ressaltar que o projeto de se substituir a identidade do “ser” cidadão pelo “ser” consumidor foi de veras vitoriosa, hoje vivemos entre indivíduos cujo os padrões e perspectivas se baseiam enquanto eles podem consumir e não no quanto podem ser livres.

  4. francisco Ribeiros Responder

    Talvez seja melhor instaurar o socio-comunismo, esse sistema que não remunera quem trabalha. Aí é só contar com a boa vontade de todos para coletivizarem suas produções e seus bens, isso se tiverem ânimo de produzir alguma coisa sem benefício de retorno. Como todos os homens são bonzinhos, o comunismo funciona que é uma beleza … kkkk (SQN)

  5. cavalcante Responder

    A hegemonia capitalista tem demonstrado ser uma situação terrível para o planeta uma vez que tira a possibilidade de escolha das pessoas se manifestarem e optarem por um sistema sócio-politico. Não significa dizer que o “socialismo” seja bom ou perfeito, O que ocorre é que com a hegemonia capitalista, a liberdade de escolha não existe e os paradigmas deixam de existir.

  6. Maria Fernanda Neves Responder

    Maringá, 19 de agosto de 2014

    Caro editor da revista Fórum

    Venho por meio desta carta comentar a matéria publicada no dia 06/05/2014, na

    qual o jornalista Eduardo Galeano faz uma crítica a permanência do capitalismo, e a

    desigualdade social que o mundo vem enfrentando.

    fazendo com que o capital financeiro se acumule nas mãos de pouco, causando

    desigualdade e pobreza extrema. Estou absolutamente de acordo com as criticas do

    jornalista quando se diz respeito à frase: “este capitalismo assassino mata os famintos ao

    invés de matar a fome, e está em guerra contra os pobres mas não contra a pobreza”.

    Esta citação deixa explicito a revolta causada pelos avanços do capitalismo, que

    aumenta drasticamente as taxas de pobreza no mundo. Porém é importante citar que

    não estamos preparados para um comunismo global, basta apenas observar a pobreza

    enfrentada pelos países comunistas, que sofrem com a exclusão provocada pelas

    grandes potências capitalistas.

    Não somos aptos a vivermos todos iguais, partilhando dos mesmos bens. Deve-
    se haver mais conscientização por meio das autoridades: não é necessário a abolição do

    capitalismo, mas sim um melhor planejamento dele.

    Ultimamente o mundo capitalista vem beneficiando apenas os mais ricos,


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