Se amamos tanto as mães, por que as tratamos tão mal?

Por Jarid Arraes (Foto: Rogério Tomaz Jr.) Véspera de Dia das Mães é sempre a mesma coisa:...

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Por Jarid Arraes

(Foto: Rogério Tomaz Jr.)
(Foto: Rogério Tomaz Jr.)

Véspera de Dia das Mães é sempre a mesma coisa: mensagens inspiradas, declarações de amor e, como não poderia faltar, compra de presentes. Homens e mulheres, crianças e adultos de todas as idades homenageiam as suas mães, até porque a maternidade parece ser um dos fenômenos mais respeitados de nossa cultura. Mas só parece.

Na verdade, a sociedade usa a maternidade como forma de controle. Criamos meninas para serem mães e fazemos essa preparação de muitas formas, seja por meio da boneca dada exclusivamente às crianças do sexo feminino ou pelas constantes cobranças ambivalentes quanto a sexualidade quando o período biológico de reprodução começa. São cobranças por recato para que a mulher não acabe grávida de “qualquer um”; e são cobranças para que essa mulher engravide quando sua idade começa a avançar um pouco ou quando ela se casa com um homem. A cultura da maternidade é monogâmica, patriarcal e muito moralista. Tratamos mulheres como pessoas destinadas a serem mães e, para que esse quadro seja ideal, precisa vir acompanhado de um relacionamento estável com um homem, de preferência culminado em uma formalidade matrimonial.

Diversos equívocos se iniciam a partir da ideia de que as mulheres e a maternidade se relacionam intrinsecamente, sem levar em consideração a escolha subjetiva de cada mulher enquanto indivíduo. Aquelas que não desejam ter filhos são tidas como aberrações e constantemente persuadidas a mudar de opinião: “Quando você for mais velha, vai pensar diferente”, diz o mantra. Com uma perversa ironia, essa mesma maternidade interpretada como o “milagre da vida” é tratada como um castigo, um fardo eterno com o qual a mulher deverá ser punida se engravidar por acidente – especialmente caso tenha relações sexuais por prazer. Não importa se ela tem condições ou não para criar uma criança; “Engravidou, agora aguenta”.

Além disso, enfrentamos constantemente vários problemas relacionados à capacidade de se tornar mãe: muitas empresas não contratam mulheres casadas ou que pretendem ter filhos, enquanto muitas outras aderem à demissão pós-licença maternidade. Há uma seríssima questão de violência obstétrica em nosso país, onde muitas mulheres não podem sequer escolher que tipo de parto terão e, após o nascimento do bebê, eventualidades como depressão pós-parto são temas cercados de incompreensão e a autonomia feminina é muito cerceada, além dos incontáveis constrangimentos pelos quais passam as mulheres que amamentam em público. Isso sem mencionar o modo como nos abstemos de compartilhar com essas mulheres o cuidado das crianças – que, segundo o ECA, são responsabilidade de toda a sociedade – e os afazeres domésticos, que apenas muito raramente são efetuados pelos homens. Com a desculpa cínica de que “ajudamos”, aderimos a uma ou duas atividades de limpeza e organização, e ainda afirmamos que estamos colaborando. Afinal, se amamos tanto as mães, por que as tratamos tão mal?

Devido a esse tratamento imposto às mães, a maternidade aparenta servir muito mais como uma espécie de demarcação de limites e papéis sociais do que como algo a ser celebrado. Como sociedade, obrigamos mulheres a serem mães e causamos todos os tipos de violência sobre elas; mas achamos que fica tudo bem se publicarmos um poema espiritualizando a maternidade e gastarmos dinheiro com consumo desnecessário no segundo domingo de Maio.

Para as mulheres e mães que fazem parte do movimento feminista e voltam seus esforços também para as reivindicações que envolvem a maternidade, o quadro é péssimo. Há muito o que mudar e melhorar e precisamos pensar a respeito do “ser mãe” também a partir do “não ser mãe”, debatendo pautas como a legalização do aborto, a adoção por casais do mesmo sexo, crianças abandonadas, parto humanizado, licença paternidade e a participação efetiva dos pais na criação dos seus filhos. Assim superamos a névoa que disfarça a misoginia e podemos oferecer às mulheres dois presentes genuínos no Dia das Mães: a escolha livre e o respeito à autonomia.



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8 comments

  1. Flávio Meyra Responder

    AHH! Conversa de feminista sem juízo! Lógico que a mulher existe pra ser mãe, pra gerar uma vida, pra ser amada e respeitada, tanto é que seu corpo é preparado pra isso. Essa inversão de valores é preocupante. Escolher não ser mãe?? Vc não tem direito de fazer isso, VC NASCEU PARA GERAR UMA VIDA! Sou a favor da adoção, mas não do aborto. Dps que vi um vídeo de um feto se debatendo no útero de sua mãe, tendo seu conforto rompido por um cano que sugava seus braços, suas pernas, seus órgãos e por fim sua cabeça, tendo o seu crânio esmagado culminando na sua morte. Isso é violento, é imoral, é desumano. Essa história de vcs feministas quererem direitos iguais a todo custo, está fazendo vcs parecerem com homens, perdendo o papel natural que a mulher tem, a de pacificadora, amorosa e etc. Sou a favor da mulher trabalhar, ter sua independência, conquistar o seu espaço, mas sou contra feministas, n sou a favor de radicalismos. Essa coisa de “brigar pelos meus direitos” só remete a mulheres sem juízo, que querem direitos iguais a todo custo. Acho que homens e mulheres têm que ter direitos iguais na sociedade, mas sem perder os papeis biológicos, os papeis naturais que homens e mulheres tem no mundo!

    1. Lucrécia Responder

      Gente que comentário delirante, merece até que eu comente de volta.
      “VC NASCEU PARA GERAR UMA VIDA!” – Oi? Não. Nasci pra fazer o que eu quiser, obrigada.
      ” Essa história de vcs feministas quererem direitos iguais a todo custo, está fazendo vcs parecerem com homens, perdendo o papel natural que a mulher tem, a de pacificadora, amorosa e etc.” – Essa foi ótima, estamos parecendo ~homens~. Não, não estamos; porque deus me livre de ficar parecida com uma criatura que escreve um comentário desses. O ponto aqui, jovem, é que as mulheres feministas querem ser tratadas como PESSOAS, não como ~mulheres~ que tem que ser ~amorosas~ e ~pacificadoras~. Nem todo mundo quer ser amoroso o tempo todo, nem todo mundo tá afim de ~pacificar~ o tempo todo.

      “Acho que homens e mulheres têm que ter direitos iguais na sociedade, mas sem perder os papeis biológicos, os papeis naturais que homens e mulheres tem no mundo!” – Falando de biologia: Engraçado como nas espécies afora o papel do macho como ‘patriarca’ NÃO é um determinismo biológico, não é mesmo? Então que diabo de papel ‘biológico’ é esse que não é a norma entre as várias espécies dos vários reinos? Ah, aí vai responder: ‘Mas não, na espécie ~humana~ é assim’. E então que eu pergunto: Quem falou, jovem? Quem foi que disse isso?

      A Bíblia? O padre? O pastor da igreja?

      Poupe-me.

  2. pedro Responder

    Resumir o significado social da maternidade de forma tão simplista e enviesada só mostra a sua ignorância sobre história e antropologia da sua própria cultura ocidental. Cultura essa que criou o indivíduo e a possibilidade da autonomia. Disseminar a ignorância nesse nível é como cuspir no prato que comeu.

  3. Cora Responder

    da mesma forma que a mulher valorizada é apenas a mulher idealizada, etérea, irreal, enquanto a mulher real é vilanizada e sofre todo tipo de violência verbal, simbólica e moral, a mãe valorizada é apenas a mãe idealizada, enquanto a mãe real é violentada cotidianamente pela sociedade. se essa mãe ainda for pobre, aí é que a violência será intensificada. por que usar o assento preferencial no transporte público? engravidou por quis, agora aguenta, é o que ouvimos. por que externalizar as dores do parto? na hora de fazer não gritou, é o que ouvimos. amamenta no espaço público? está apenas querendo aparecer, é o que dizem. e assim segue a vida nas sociedades. se fosse uma questão apenas brasileira, mas sabemos ser mundial. alguns países melhores, sem dúvida, mas ainda é uma questão mundial. nós temos um problema com as mulheres reais, de carne e osso. mas eu não consigo entender por quê. faço minha a sua dúvida. por que as tratamos tão mal?

  4. Juliany Responder

    Adorei seu tem texto. É quase perfeito. Gostaria de saber por que, nas reinvindicações, planejamento familiar acessível não está lá? Ele está exatamente entre a sexualidade livre e a maternidade. Vem – ou deveria vir – antes da opção de transar, de parir ou de abortar. Onde a mulher pobre faz seu planejamento? No posto de saúde que funciona das 8 às 17h, durante seu trabalho? Difícil. No ginecologista? Pior ainda. Faz com as amigas, no balcão da farmácia, SE fizer. E daí por diantes só as falhas, o sofrimento do aborto ou da maternidade compulsória. Num país onde os homens são ensinados onde quem engravida é a mulher e que usar camisinha é “chupar bala com papel” (como se pênis tivesse papila gustativa) é mandatório que as mulheres conheçam seu corpo e sejam empoderadas a cuidar dele da melhor forma possível.

    SEXO QUANDO DESEJO. FILHO QUANDO DECIDO.

  5. Verônica Responder

    Excelente texto!!

  6. Haad Responder

    Muito bom Jarid

  7. Julie Responder

    ótimo texto!


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