Nigéria: o perigo de hashtags e armas ocidentais contra o Boko Haram

Os crimes do Boko Haram estão sendo explorados pelo Ocidente - principalmente o braço militar dos EUA - para justificar um aumento da presença norte-americana no continente

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Os crimes do Boko Haram estão sendo explorados pelo Ocidente – principalmente o braço militar dos EUA – para justificar um aumento da presença norte-americana no continente

Por Vinicius Gomes

Na última sexta-feira (9), o The Guardian republicou um texto de Jumoke Balogun, jornalista nigeriana radicada nos EUA, que trazia em seu título a verdade inconveniente de que hashtags não irão trazer de volta as mais de 200 meninas sequestradas na Nigéria, há quase um mês, pelo grupo islâmico radical Boko Haram.

“Os militares dos EUA amam suas hashtags porque lhe dá legitimidade para aumentarem sua presença na África”, disse Balogun. A comparação óbvia é da campanha #BringBackOurGirls com #Kony2012, a respeito do infame Joseph Kony e seu Exército da Resistência do Senhor (LRA, sigla em inglê). Kony e seu grupo eram acusados de sistemáticos sequestros de crianças – os meninos, para empunharem armas contra o governo, e as meninas, para se tornarem escravas sexuais.

No entanto, como Balogun aponta, “assim como Kony 2012 falhou em contextualizar a violência da LRA, fora da Nigéria, a campanha #BringBackOurGirls e a campanha midiática que se seguiu ignoraram o contexto no qual o Boko Haram surgiu”.

É preciso antes de qualquer coisa ter em mente duas coisas: a Nigéria é uma das maiores produtoras de petróleo no mundo, e as ações militares dos EUA dentro da África nunca foram tão vastas quanto na atual administração Obama. O clamor público por uma resposta à tragédia nigeriana – assim como a ugandense – mascarada como “intervenção humanitária” pode ser ainda pior para o povo local.

Os EUA na África

A Africom é o corpo militar dos EUA dentro da África e é responsável por supervisionar e acompanhar as operações militares norte-americanas no continente por meio de sua base de drones Predator, no Níger, que faz fronteira com a Nigéria, além das vizinhas Mali (cena de intervenções recentes) e da Líbia.

Os drones norte-americanos também operam no Djibuti, Etiópia, e logo além lado do Mar Vermelho, no Iêmem. O Ocidente envolveu-se em guerras por procuração recentes, na Somália. A colunista Lindsey German sustenta que “se o terror islâmico tornou-se ameaça em cada vez mais pontos da África, os países ocidentais desempenharam um grande papel em sua criação”.

Em 2013, a Africom lançou um total de 546 “atividades militares” – o que, em média, é praticamente uma missão e meia ao dia – e a expectativa é de que elas aumentem, uma vez que a grande missão da Africom é “aumentar a segurança dos interesses nacionais dos EUA”.

A jornalista nigeriana continua apontando que a hashtag para a captura, vivo ou morto, de Kony, deu uma espécie de “carta branca” aos EUA para enviarem seus soldados – que foram cerca de 100 tropas. “Bem, eles não o encontraram e, apesar de as tropas terem momentaneamente parado de caçá-lo, Obama enviou mais tropas em março de 2014, que agora estão espalhadas pela Uganda, República Centro-Africana, Sudão do Sul e República Democrática do Congo”. Esta última inclusive, tendo suas tropas treinadas pelos EUA e que foram acusadas pelas Nações Unidas de cometerem estupros em massa.

A resposta ao Boko Haram

As mais de 200 meninas foram raptadas em 14 de abril – há quase um mês. Além disso, relatórios da Anistia Internacional sugerem que o comando do exército da Nigéria havia recebido um aviso de ataque de que o Boko Haram estava seguindo para Chibok, com quatro horas de antecedência.

A lentidão de quase um mês para uma resposta e a revelação do aviso de quatro horas antes enfraqueceu ainda mais a posição do presidente Goodluck Jonathan – que no momento da pressão internacional e explosão de hashtags estava sendo o anfitrião do Fórum Econômico Mundial, na capital do país, Abuja.

Mesmo assim, Balogun ainda pede para qualquer outra pessoa que não seja nigeriana e queira fazer alguma coisa a respeito do enfrentamento ao Boko Haram, que não pressione por uma “intervenção humanitária” :

“Se você precisa fazer alguma coisa, aprenda mais sobre o trabalho incrível de ativistas e jornalistas que arriscaram serem presos e suas vidas, desafiando o governo da Nigéria a fazer mais pelo seu povo dentro do processo democrático. Se você precisa tuitar alguma coisa, tuite mensagens de apoio e coragem para eles; não para uma ação do governo dos EUA que apenas procura expandir seu militarismo. Não se junte à cooptação desse movimento iniciado e sustentado por nigerianos.”



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1 comment

  1. Priscila Responder

    Disse tudo!


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