Taca cachaça que ela libera? Quem canta também pode refletir

Por Jarid Arraes, (Divulgação) Na manhã de ontem, dia 19 de Maio, aconteceu em Fortaleza/CE o evento “Questão de Gosto se Discute...

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Por Jarid Arraes,

(Divulgação)
(Divulgação)

Na manhã de ontem, dia 19 de Maio, aconteceu em Fortaleza/CE o evento “Questão de Gosto se Discute SIM!”, organizado pelos alunos da disciplina de Ética do curso de Jornalismo na UNIFOR. Coordenado pela professora Sandra Helena Souza, o seminário teve a proposta de debater a representação feminina na música popular, em especial no Forró Eletrônico, que embora seja um gênero musical amplamente presente no nordeste do Brasil, já alcançou visibilidade em programas de televisão aberta e novelas do horário nobre.

É difícil negar que muitas letras de músicas populares tratam as mulheres de maneira pejorativa, montando uma representação objetificada, uma sexualidade passiva e um julgamento de caráter que se sustenta em princípios misóginos. Essas canções são comuns, fazem sucesso e refletem os valores distorcidos de nossa cultura. Ao mesmo tempo que exemplificam o que seus consumidores gostam de ouvir e cantar, essas composições também estimulam preferências e opiniões. Desse modo, cria-se e perpetua-se um ciclo vicioso em que a figura feminina não pode ir além do limite que o machismo impõe.

Todos esses pontos foram devidamente expostos pela professora Kalu Chaves e também por mim; no entanto, o evento poderia ter sido só mais um debate acadêmico, se não fosse pela presença de dois “astros” do forró – Tony Guerra e Taty Girl – que foram convidados para que trouxessem suas vivências e opiniões. Foi a partir deles que se deu a genuína reflexão.

Antes de chegar ao local do evento, eu tinha em mente uma missão muito bem delimitada: perguntar para Tony Guerra se ele sabia que uma das músicas tocadas por seu grupo, a “taca cachaça que ela libera”, é uma apologia ao estupro de vulnerável, um crime hediondo segundo o código penal.

Entre muitas afirmações feministas assertivas, apresentei o fato, e não pude deixar de me surpreender com o silêncio do público e as expressões faciais de incredulidade. Pelo que parecia, muitas pessoas ali nunca tinham parado para pensar que embebedar uma mulher (ou um homem) com o objetivo de “facilitar” o ato sexual é, na verdade, um crime. Pior, é um crime que nossa sociedade facilmente relaciona a “monstros” e “doentes”, estereótipos que passam longe da imagem construída para um cantor de forró.

A parte mais interessante, no entanto, não se deu pela reação da plateia, e sim pelo visível incômodo causado em Tony Guerra. O cantor mudou completamente sua feição e passou a afirmar em diversos momentos que jamais havia pensado sob aquela ótica e que se comprometia, a partir daquele momento, a nunca mais cantar essa música ou qualquer obra parecida. E foi além, dizendo que conversaria com outros colegas cantores de forró sobre o fato e pediria que também fizessem uma revisão de suas letras.

Ainda é cedo para afirmar que tais promessas serão colocadas em prática. Como ambos cantores afirmaram múltiplas vezes, há muita coisa que se faz só pelo dinheiro. O público quer essas músicas e os artistas querem o cachê. Nem sempre a ética vence os interesses econômicos. Não obstante, o registro precisa ser feito para que a provocação se mantenha firme. Afinal, Tony Guerra, você foi suficientemente impactado para que cumpra sua intenção de filtrar o que canta?

É fato que não existe debate onde todos concordam entre si e apenas dedicam suas falas para “complementar” o que os outros já disseram. Um debate se faz de pontos de vistas e lugares de fala distintos, até mesmo antagônicos, que após serem apresentados e defendidos, abrem o espaço para que todas as partes possam revisar suas convicções e deixar o ambiente com um pouco mais de conhecimento. Com isso dito, resta esperar que o evento tenha cumprido seu papel e gerado em todos os presentes o desconforto sadio que impulsiona mudanças.



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11 comments

  1. Ítalo Duarte Responder

    Mande ele falar isso pro empresário dele. Arte só atinge plenitude quando é feita de dentro pra fora. E infelizmente não é que estão fazendo os compositores do forró elétrico, por exemplo.

  2. Nathalia Responder

    E a Taty Girl? Interessante mesmo pq teve a presença feminina q querendo ou não em muitas e incontáveis letras reproduz práticas e ideologias machistas. Muita gente que escuta, curte forró – e eu falo pq conheço “esse meio” – diz que “é só pra dançar” e nem para pra pensar na carga que traz a letra e tudo o que ela pode representar se for realmente escutada e não só dançada.. Mas enfim, fiquei curiosa por saber o que a Taty teria falado sobre.. pq ela pode não cantar essa música, mas ela escuta e isso algum impacto deve causar…( ou não), enfim. E parabéns pela iniciativa :D

  3. Sandro Vilanova Responder

    O dia em que esse mundo politicamente correto se estabelecer,pela assepsia do corpo,pela assepsia da memoria do territorio se estabelecer o mundo podera ainda ser chamado de mundo?Eu adolescente bebia pra chegar nas minas, algumas minas bebiam pra conseguir chegar nos caras- ambas as partes sabiam desse jogo .Liberar? A musica faz apologia? O politicamente correto não quer correr o risco, que seja banida…pensando aqui a respeito dos riscos dos discursos, a travesti que foi vista de mão dada com Romario disse que era contra o movimento LGBT ,essa revista aqui não quis correr risco…e travesti mais moralista??!! assepsia nela, pode ser travesti, ter o corpo que quer romper,mais seu discurso não se alinha, e da vanguarda que saira o neofacismo,como temia o Pasoline.

    1. Brunno Vianna Responder

      Então, Sandro. Uma coisa é beber para ganhar coragem. Outra é para turvar a capacidade de julgamento do outro. Pensa diferente. O que você diria do cara que embebedou uma mulher conhecida sua para ficar com ela? Tipo, sua mãe, ou sua irmã?
      E o que isso é diferente de um “boa noite, Cinderela”? Ou um estupro de fato? A falta de resistência? Falta de resistência não significa aceitação; a bebida incapacita o pensamento racional.

    2. Zizi Responder

      “O dia em que esse mundo politicamente correto se estabelecer,pela assepsia do corpo,pela assepsia da memoria do territorio se estabelecer o mundo podera ainda ser chamado de mundo?”
      Vc deve conhecer o termo “assepsia”, né? Imagino que você utilizou esse termo tendo bastante segurança do que diz.
      Sabe o que ocorreu na nossa sociedade com o pensamento “Higienista” do séc. XIX?
      Ambas as coisas se referem a “limpeza” dos atos, como faz supor seu comentário, de caráter moralista, regulador e normatizador. A luta feminista e outras de caráter social busca construir uma sociedade de respeito às diferenças e igualdade de oportunidades às pessoas. Não é pra normatizar os comportamentos. Quem faz isso é militar, governos autoritários, machistas e etc..
      Liberdade = todos podemos atuar na sociedade e todos devemos ser respeitados.
      (Ah, não se espante ao ver mulher e travesti machista, gay homofóbico e preto racista. Todos nós recebemos a mesma educação. A quebra dessa lógica só acontece com o questionamento.)

    3. Letícia Responder

      Sandro, você beber pra se sentir mais confortável, é uma coisa. É você quem está bebendo. Agora embebedar outra pessoa de modo que ela fique mais sucetível a transar com você, isso é estupro de incapaz. Não é questão de ser politicamente correto ou não, é questão de consciência e bom senso.

  4. Salander Responder

    Parabens pela abordagem ‘confrontaçao’!
    Uma boa ideia se passarmos a agir em atos/manifestaçoes a ‘desenhar as musicas/letras’ sexistas/misoginas com encenaçoes teatrais para o publico em geral! #somosmais!

  5. Marco Responder

    Eu acredito que as pessoas cantam é apenas a fonética destas músicas horríveis. Uma vez a um ou dois anos atrás eu questionei uma moça que cantava a música do Camaro Amarelo no ônibus quando a fiz entender a letra que ela mesmo cantava, exclamou admirada: “Que horror!” . Pelo menos naquele dia ela não cantou mais. Mas seria melhor as pessoas escutarem melhor o que empurram para elas, para que a musica passe pela consciência antes de ir para a bunda ou seja onde for.

  6. Mário Responder

    Sou músico e educador musical e, fazendo uma comparação, posso confirmar: esse tipo de “música” faz tão mal como uma comida estragada!!!!
    Também concordo que gosto se discute, sim!
    Assim como a população deva ser orientada quanto a outros assuntos, espero que a inclusão obrigatória do ensino de música nas escolas possa contribuir para que as futuras gerações tenham condições de avaliar o que ouvem por aí!

  7. Nade Responder

    Puxa muito importante essa reflexão , e quem dera fosse realizada uma ação que também colocasse em reflexão a letra de musicas nos estilos axé, funk que da mesma forma incitam a esses comportamentos e a outro piores contra mulheres e outros grupos….

  8. bellini Responder

    Com certeza. E no dia seguinte, a menina ainda sente culpa, sendo que é vítima e foi coagida ao ato. Vergonhosa prática, que infelizmente, tem respaldo de muita gente que se diz séria. Excelente pesquisa e debate.


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