Boliviana constrói casas de garrafas para famílias em situação de extrema pobreza

Projeto começou há 14 anos e já ajudou mais de 300 famílias de países latino-americanos Por Naiara Araujo, da Agência Plano ...

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Projeto começou há 14 anos e já ajudou mais de 300 famílias de países latino-americanos

Por Naiara Araujo, da Agência Plano 

Ingrid Vaca Diez, boliviana nascida e criada na cidade de Warnes, em Santa Cruz, colocou em prática uma ideia com a qual sonhava desde que era uma niña (criança, em espanhol). Fundadora e idealizadora do Casas de Botellas, projeto que constrói moradias para famílias em situação de extrema pobreza utilizando garrafas pet, ela conta com um misto de orgulho e animação que já ajudou a construir mais de 300 casas na Bolívia e em países vizinhos. Em passagem pelo Brasil, Ingrid conversou com PLANOsobre a iniciativa e não escondeu sua vontade de implantar a ideia no maior país da América Latina.

Tudo começou em 2000, quando Ingrid Diez já ajudava a comunidade do bairro Alfredo Vaca Diez, nome dado em homenagem ao seu pai, ex-prefeito da região. Envolvida com causas humanitárias e com a desigualdade social que cerca os países latino-americanos, Ingrid decidiu realizar o sonho das crianças do bairro, perguntando o que elas gostariam de ganhar de presente. Brinquedos foram a maioria entre as respostas, mas um pedido chamou sua atenção. “Todos escreviam cartas falando que queriam uma bicicleta, um vestido, sapato e bolas. Só uma menina falou que queria um quarto para poder dormir, porque eles eram em oito em sua casa e dormiam muito apertados. Foi a única criança que eu demorei para entregar o presente”, conta.

Casa feita com garrafas PET em pleno processo de construção. (Foto: reprodução/Facebook Casas con Botellas)
Casa feita com garrafas PET em pleno processo de construção. (Foto: reprodução/Facebook Casas con Botellas)

“Vai ser de lixo?”

Ingrid usava garrafas de plástico para fazer artesanato e o acúmulo do material na sua casa resultou em uma briga entre ela e o marido, que se irritou com a quantidade espalhada pelo jardim. No meio da discussão, ele disse, em tom de ironia, que com aquele tanto de garrafas seria possível construir uma casa. Ela conta que concordou, mas jamais pensou que isso um dia aconteceria.  Com a ideia na cabeça, ela começou a fazer experimentos para descobrir um material que pudesse ser usado como cimento. Depois de fazer cerca de dez testes misturando materiais como barro, açúcar, mingau e linhaça, ela ficou satisfeita com os resultados e resolveu colocar o plano em prática.

Ingrid foi até a casa de Claudia, a garota que pediu um quarto, e foi contar a novidade para a mãe da menina: “Maria, já sei como te fazer uma casa”. Quando descobriu de qual material o novo lar seria feito, Maria continuou contente, mas perguntou surpresa: “vai ser de lixo?”.  A primeira etapa para a construção era juntar as garrafas. Animada com a ideia, Ingrid conta que começou a recolher muitas garrafas, saía de carro de madrugada para recolher nos lixos dos bairros mais próximos.

A primeira construção feita de garrafas na comunidade foi um berçário. Depois, Ingrid começou as obras da casa da família de Claudia, que demorou cerca de quatro anos para ficar pronta. Apesar do tamanho da casa (190m²), o que atrasou a construção foi a falta de material e de trabalho voluntário. Com todo o material e um grupo de 8 ou 10 pessoas, ela garante que é possível construir uma casa em 20 dias.

Uma das missões do projeto é fazer com que a família trabalhe pelo seu lar e isso atrapalhou, porque os pais e os irmãos de Claudia não quiseram trabalhar. Somente no segundo ou terceiro ano eles começaram a ajudar na construção. “A ideia não é que se faça e entregue a casa, eu não quero assim”, explica Ingrid. “As pessoas que vão morar na casa também têm de trabalhar. Eu faço casa para pessoas que têm sete, oito filhos e são muito pobres. Quando você trabalha na casa, você dá mais valor, não é só um presente”.

Os objetivos principais do projeto são: oferecer moradia digna, ensinar ecologia e dar trabalho. Para Ingrid, é muito importante que essas famílias saibam trabalhar e aprendam a produzir, assim elas poderão ajudar em outras construções.

Autodidata

Por formação, Ingrid é advogada, administradora de empresas e auditora. Quando questionada se fez algum curso de arquitetura para aprender a construir casas,  ela ri e nega com a cabeça, e explica que comprou livros e começou a estudar por conta própria. “Eu ia a algumas obras que estavam sendo edificadas e olhava muito, observava e perguntava. Agora, eu mesma faço os desenhos, com um papel e um lápis traço um dormitório, dois dormitórios, banheiro, sala, cozinha e pronto. Não preciso planta, só de olho”.

Com a ajuda de doações, que não são muitas, Ingrid vai seguindo com o projeto. Conseguir as garrafas é uma das tarefas mais difíceis, pois para cada metro quadrado são necessários 82 recipientes de 2L, ou 240 de 600ml.  A estimativa de custo de cada casa é de U$ 8 mil a 10 mil, porque além do material reciclável, as casas precisam de telhado, portas, janelas e tinta, que acabam sendo comprados por ela com a ajuda do marido, um empresário boliviano que apoia a ideia financeiramente.

Ingrid mantém o projeto sozinha: não existe um grupo porque, segundo ela, as pessoas não querem trabalhar voluntariamente. “Vão um dia e depois não voltam, o trabalho é muito pesado. Faz quem gosta, sem receber nada em troca, como eu”.

No Brasil

Aos 51 anos e com energia de sobra, a advogada não tem planos de parar e não esconde o desejo de implantar o projeto no Brasil, “Eu quero fazer e ensinar, aproveitar que vou voltar para cá antes do ano acabar”. Ingrid acredita que aqui a população é mais conscientizada sobre material reciclável do que na Bolívia e fala animada da coleta de lixo seletiva que viu em alguns lugares do país.

As casas feitas de garrafa se espalharam pela América Latina nos últimos anos. Além da Bolívia, Argentina, México, Panamá e Uruguai também já estão construindo esse modelo com a ajuda de Ingrid. Para alguns lugares, ela viaja e coloca a mão na massa; Para outros, o Facebook  tem sido um aliado. Até mesmo por meio de videoconferência e compartilhando fotos ela já ensinou o passo a passo da construção.

Crédito foto de capa: reprodução/Facebook Casas con Botellas



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14 comments

  1. Jacy Responder

    Sua atitude eh contagiante ,que voce tenha forc/a e coragem para continuar nesse caminho de dedica;ao e amor aos seus semelhantes.

  2. janete cezar da silva Responder

    interessante,é um projeto de extrema responsabilidade,gostaria de aprender passo-passo

  3. marcia valeria regina teixeira xavier Responder

    Parabém pela criatividade e pelo incentivo a reciclagem, um lixo que se torna luxo para os que mais precisam. Que deus ilumine seu caminhos, para que mais famílias possam ter um lugar descente para viver. Obrigado por você existir. Você é um exemplo de ser HUMANO.

  4. mario genario araujo Responder

    Excelente idéia! asim serão retirados do solo milhares de petys que levam 150 anos para serem destruidas. Algum tempo fui instrutor de movelaria pety no bairro da ampliação em Itaboraí-RJ e gostaria de um conhecimento maior sobre este tipo de construção com a finalidade de beneficiar população carente que vivem as margens do Rio Parnaíba no Estado do Piauí. Em setembro de 2013 navegando aquele rio pude ver a real necessidade daquele povo.

  5. Julimar Júnior Responder

    Aguenta tiro de hk-47 ? Se não, não serve …

    1. fulano Responder

      creio que vc quis dizer ak 47, hk eh outro fuzil ..
      mas nao vejo relaçao disso com a contruçao ..

  6. SINVAL NUNES MOURA FILHO Responder

    Ja vi varias coisas produzidas a partir de garrafas pet mas essa ideia é maravilhosa contribui para a limpeza do meio ambiente proporcionando vida saudavel á familias que realmente precisam de uma casa habitavel com qualidade saúdavel! mil vezes parabens Ingrid.

  7. agnaldo Responder

    qual a vantagem de uma ksa feita com garrafa pet c toda estrutura e feira em concreto e cimento a economia é em tijolos apenas não vejo vantagem alguma!

  8. Carolina Balcazar Responder

    Muchas felicidades querida Ingrid !!
    Muy orgullosa de ver todo lo que haces por ayudar a la gente mas necesitada .
    Sos una persona muy ingeniosa , te pones un propósito y lo haces a pesar de tantos inconvenientes .
    Dios te bendiga , y que siempre tengas ese corazón

  9. Carolina Balcazar Responder

    Querida INGRID muchas felicidades por ser como sos .
    Te conocí desde niña y siempre fuistes una persona muy inteligente , todo lo que hacías te gustaba que este perfecto pasó el tiempo y me siento muy orgullosa que toda esa inteligencia y sabiduría se la dediques a tus semejantes más necesitados

  10. Lucilene Fernandes Responder

    Maravilhoso projeto social deve ser implementado em todos os Países para as pessoas necessitadas de um Lar
    com certeza vai ser muito útil.
    Parabéns a quem teve a brilhante ideia.

  11. rosangela dias de carvalho Responder

    gostaria muito de ter seu contato- ou email por favor. obrigada

  12. rosa Responder

    Buenas noche gustaria saber un poco mas de su trabajo pq aqui donde vivo es caro las cosas pero se ve muchas garrafas tirada y quisiera aser 2 cuartos gracias espero su respuesta
     

  13. SILVANA NASCIMENTO Responder

    PARABENS A ESSA MULHER HUMANA E INTELIGENTE,SOMOS MULHER E GUERREIRA


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