Quem come quem?

Essa ideia opressora de dominação pelo falo, de uma disputa de poder que só dá status ao macho, é uma das coisas mais infantis da fragilíssima construção da masculinidade Por Fabricio Longo, em Os...

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Essa ideia opressora de dominação pelo falo, de uma disputa de poder que só dá status ao macho, é uma das coisas mais infantis da fragilíssima construção da masculinidade

Por Fabricio Longo, em Os Entendidos

Uma das primeiras coisas que tive que responder ao sair do armário foi se era ativo ou passivo. Na época, achei bastante natural que uma amiga – heterossexual e tendo seu primeiro contato com um gay assumido – me perguntasse isso. Treze anos depois, em 2014, o que me espanta é que nós, gays, ainda estejamos preocupados em nos definir dessa forma. Pior, definir os outros também! Será que ainda somos assombrados pelo rótulo de “quem é o homem e quem é a mulher”?

A foto que ilustra esse post é do casal Michael Sam e Vito Cammisano. Sam ficou famoso recentemente por ter sido o primeiro jogador de futebol americano abertamente gay a ser escolhido para a liga profissional. Já Cammisano, ganhou notoriedade por ter sido beijado em rede nacional pelo namorado, em comemoração ao fato. Não é incrível que a discriminação acabe por nos dar mais destaque? É um típico caso de “sua inveja é o combustível do meu sucesso” ou “com as pedras que me atirares construirei meu castelo” ou outro tipo qualquer de adesivo de caminhão. Entretanto, não é disso que quero falar…

Com a notoriedade, vieram as fotos e os comentários sobre os moços. Em veículos gays é consenso que eles são uns fofos, mas outra coisa muito comum é a certeza de que Michael “está comendo” esse rapaz. Porquê? Porque é maior? Porque é “um negão”? Seria porque Vito é uma “bichinha” e seria broxante imaginar que um homem como Sam se submetesse a dar para ele? De repente ele é tão alto e forte, além de ser um atleta, que mesmo tendo se assumido gay não poderia piorar tudo sendo passivo! Não, é mais provável que, sendo negro, ele tenha um pau infinitamente maior do que o do namorado, que por sua vez não resistiria a tamanho poder! Não é isso?

Ai, ai… Não dá pra saber. E não interessa. É perfeitamente possível que Vito tenha três vezes mais centímetros de pênis que o namorado e que seja exclusivamente ativo, ou que seja igualmente dotado, mas prefira ser passivo, assim como é possível que Sam seja o passivo e até que seu “pau preto” seja do tamanho de um dedo e ainda assim ele seja o ativo. Talvez seja mais provável que os dois se considerem versáteis, mas também é possível que nem curtam penetração. Realmente, nada disso importa.

Essa ideia opressora de dominação pelo falo, de uma disputa de poder que só dá status ao macho, é uma das coisas mais infantis da fragilíssima construção da masculinidade. Sexo é bom sem amarras, sem esse tipo de neurose. Não faz o menor sentido que alguém se sinta validado por ter um pau maior ou mais duro ou ser aquele que está metendo. É ainda mais inaceitável que esse tipo de percepção sirva para diminuir quem é passivo. A masculinidade é um construto cultural baseado na dominação para manter um sistema de poder que vitimiza até os próprios homens. Está longe de ser essa maravilha e ninguém vale menos por “atentar” contra ela, ainda mais ao se utilizar do próprio corpo.

Ativos e passivos se complementam. Uma prática não existe sem a outra. Tentar decifrar o que alguém prefere por sua aparência ou seu comportamento é uma bobagem. Qualquer bonita mais rodada sabe que tá cheio de boy Kinder Ovo surpreendendo por aí! Quem nunca chorou ao ver o bofão de dois metros já cair na cama virando de bruços ou se surpreendeu com o emo dominador?

Brincar com esses “papéis” ou fantasiar com o jogo de poder é uma coisa. No sexo, vale tudo que for consensual e prazeroso. Mas insistir na hierarquia entre “macho” e “fêmea” e reproduzir esses conceitos para qualificar ou desqualificar nossos iguais é adicionar homofobia ao que já era burrice! É uma “viadagem” do pior sentido! Sem contar que, para “morder” e “comer” alguma coisa é preciso usar a boca ou algo similar, então quem come quem? Vamos transar, já que a vida é muito curta para perdermos tempo com essas disputas de “quem mija mais longe” ou “quem goza mais”. A gente cresceu, não foi?

Permita-se. Seja livre. Seja fabuloso.

Foto de capa: Reprodução/ESPN



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2 comments

  1. Robson Fernando Soares Silva Responder

    Certíssimo!

    E não tenha dúvidas de que, a grande maioria, de fato e de verdade, acha que o negão é o macho da casa. Tudo isto baseado no estereótipo de homem negro, africano, forte, e adaptado às condições adversas. Acham, equivocadamente, mas muito equivocadamente mesmo,que o branco deixa a desejar na cama. Que pena!

  2. Hétero Responder

    Estou cansado desse papo gay, sempre julgando o que os outros pensam. F***m-se direitinho, não me interessa como!


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