“As drogas cumprem um papel social e farmacológico”, diz especialista

V Congresso da ABGLT reúne cerca de 200 ativistas em Niterói e promove, em seu primeiro dia, debates sobre a redução de danos e despatologização da transexualidade

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V Congresso da ABGLT reúne cerca de 200 ativistas em Niterói e promove, em seu primeiro dia, debates sobre a redução de danos e despatologização da transexualidade

Por Marcelo Hailer

Cerca de 200 ativistas do movimento LGBT estão reunidos em Niterói (RJ), no Espaço Cinema Petrobras, para o V Congresso da ABGLT, que acontece entre os dias 22 e 25 de maio. No primeiro dia de atividades, temas como despatologização da transexualidade, intersecção de pautas e redução de danos estiveram no centro das discussões.

Na primeira roda de conversa de ontem (24), foi discutida a questão da participação dos ativistas LGBT nos mecanismos de controle social, principalmente no Conselho de Saúde, visto que, de acordo com os presentes, homens afeminados, travestis e transexuais e lésbicas ainda sofrem muito preconceito e maus tratos por parte de funcionários.

Sandra Munhoz, do Comitê Técnico de Saúde LGBT, disse que é urgente a participação dos ativistas nos Conselhos de Saúde, pois “é a partir da participação nos Conselhos de Saúde que a estrutura do SUS (Sistema Único de Saúde) vai ser alterada”, mas, reconheceu que a maioria das pessoas LGBT, principalmente as travestis e transexuais, não são otimistas quanto à efetividade da mudança a partir da participação no conselho.

Julio Moriera, do Grupo Arco-Íris, foi mais enfático e disse que o movimento “não ocupa o espaço público”, referindo-se aos mecanismos de controle social, e que a participação é “um direito” conquistado e que só assim “iremos alterar o atendimento dos postos de saúde”.

A ativista transexual Fernanda Benvennuty declarou que realmente é “constrangedor” quando chamam as travestis e transexuais pelo nome de registro e não o social, mas ressaltou que sempre que isso acontecer é necessário falar com o funcionário, “dizer que existe a lei” e que é necessário paciência, pois trata-se de um trabalho pedagógico que aos poucos vai tornar o SUS mais humanizado e menos preconceituoso.

A experiência abjeta 

Posteriormente ao debate de saúde, foi realizada a mesa “A luta pela cidadania LGBT e a sua interseccionalidade”, que tratou da questão LGBT na esfera da política, arte, feminismo e como todas elas se relacionam.

Djalma Tuller, pesquisador sobre sexualidades da Universidade Federal da Bahia (UFB), fez a sua fala inspirado no poema “Dama da noite”, de Caio Fernando Abreu e utilizou a alegoria da roda gigante que há no poema para dizer que “o movimento LGBT está desconstruindo a roda gigante, que antes era um privilégio da sociedade branca e heterossexual” e que hoje “lésbicas, gays, travestis e transexuais participam dessa roda gigante”.

Representando a Secretaria de Justiça do governo estadual do Pará, a ativista transexual Barbara Pastana disse que houve avanços das “políticas trans no Pará nos últimos anos” e revelou que não gosta de ser rotulada. “Não sou transexual, travesti, sou uma mulher e mãe de família”, disse. Posteriormente, disse que apenas conquistar o nome social não é suficiente. “É preciso capacitar os servidores para que utilizem o nome social, principalmente nas escolas”, criticou.

Um dos momentos que mais causou emoção no público presente foi a fala de Raul Capistrano, homem trans e artesão. Capistrano contou um pouco da sua experiência de transexualização de feminino para masculino. “Sozinho é a palavra que define a caminhada de um homem trans. A questão trans não é entendida pelos Centros de Referência e nem pelo movimento que carrega a letra T. Nenhum deles sabe acolher uma pessoa trans”, criticou o artista.

“Quero pensar nessas sopa de letras, nessa roda gigante e perguntar: qual é o fio condutor que nos une, que nos oprime e que nos coloca aqui. A nossa sociedade é centrada no homem branco, rico e heterossexual, e nós ousamos questionar e romper com isso”, disse a socióloga Carla Ayres, que também chamou a atenção para que sociedade o movimento LGBT está pensando.

“A médio e a longo prazo temos que pensar como a nossa ação vai transformar a sociedade. E de como seremos entendidos como algo dado e não como algo fora da caixinha. Até que ponto, quando utilizamos as letras LGBT não estamos reforçando o binarismo de gênero?”, questionou Ayres.

A função das drogas

A última roda de conversa de hoje tratou da questão das drogas e redução de danos. Ana Ferraz, do Departamento de DST-Aids do governo federal, iniciou questionando: “por que as pessoas usam drogas? Uma sociedade sem drogas é um mito, a droga faz parte da história. Desde sempre o homem tem relação com plantas, sempre houve uma busca pela transcendência. Dos ritos católico com o vinho ao Santo Daime com a ayuasca”, explicou Ferraz.

“As drogas têm uma função social, a busca pela transcendência, pelo prazer. Imagina se a gente não pudesse contar com um analgésico pra dor de cabeça. As drogas cumprem um papel social e farmacológico. Mas as convenções sociais criaram estigmas em torno das drogas”, comentou a especialista. Ana Ferraz ainda explicou como funciona o olhar da sociedade sobre o usuário de drogas. “Existe três olhares sob o usuário: 1- como doente; 2 – delinquente; 3 – pecador. Nós não trabalhamos com nenhuma das três. ”, concluiu.

Luana Maria, da Lanpud – Rede Latino-Americana de Pessoas que Usam Drogas, criticou o governo federal a respeito da política de drogas. “A redução de danos não existe no governo federal. A gente não pode mais tolerar essa política de drogas com as comunidades terapêuticas, pois elas ferem o Estado Laico e, pior, tentam converter as pessoas que as procuram”, criticou a ativista.

A integrante do Lanpud ainda atentou para o fato de que o Brasil ainda não possui nenhum levantamento a respeito da comunidade LGBT, do uso de drogas e sobre como isso pode afetar e criar situações de vulnerabilidade. Porém, Luana Maria trabalha com a hipótese de que há indícios do uso de drogas na questão de enfrentamento à homofobia e na assunção da identidade.

Por fim, a ativista declarou que é obrigação do Estado fornecer informações a respeito dos danos que a droga pode causar, da quantidade que se deve usar para evitar overdoses, porém, Luana Maria comentou que tal ação vai demorar para ocorrer, pois, ainda “vivemos sob um Estado proibicionista”.



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3 comments

  1. Elias Responder

    Mito? Então eu sou um mito kkkkkkkkkkk, um bando de drogados, politicamente correto mode on, ora se um monte de usuários de drogas se reúnem para “debater”. Vão debater sobre o que? Drogas oras, quanta inteligencia.

    Realmente drogas possuem um grande papel na sociedade quando visam aprimoramento humano seja em pesquisas ou na genética e por ai vai, ou na saúde, agora a humanidade utiliza drogas de maneira “lúdica” e os sábios drogados conseguiram o que? Milhões de pessoas mortas pelo álcool, crime organizado, e outros infinitos malefícios.

  2. alberto Responder

    Elias, dizer que é um mito acreditar numa sociedade sem drogas não é dizer que todos necessariamente irão consumir drogas de maneira lúdica. Significa dizer que uma parcela considerável sempre irá buscar este fim e isto é inerente a condição humana. Algum malefício sempre poderá decorrer do uso de qualquer atividade humana. Até a atividade religiosa causou diversos danos a povos inteiros durante a História. Por isso que a busca é pela redução de danos. Por que buscar dano “zero” através da guerra as drogas é um outro mito que acaba por impedir a minimização dos danos e causa outros ainda mais cruéis e que seriam evitáveis caso lidássemos de maneira realista e não idealista.Como o proibicionismo que gera a guerra e que leva a morte de muito mais pessoas do que o uso e o cultivo regulado poderia causar. Quer sejam policiais, traficantes, pessoas por perto das regiões de conflitos por balas perdidas e é o que gera o crime organizado em função de que proibição abre espaço para corrupção. E o tráfico que acabaria, caso fosse legalizada a venda e consumo. O tráfico não teria mais clientes e sem esse dinheiro para comprar armamento e seria progressivamente desmontado por isso, pois poderia se comprar num bar assim como a cerveja. Sobrando assim milhões que poderiam ser revertidos em políticas preventivas e de tratamento, bem mais baratas e com resultados bem melhores.

  3. Gustavo Responder

    O cara que citou que o vinho, no catolicismo, é pra buscar a transcendência falou uma grande besteira. O padre não bebe o vinho pra ficar chapadão, como os maconheiros que ele defende. Pelo contrário, o vinho simboliza o sangue de Cristo, uma forma de lembrar o sofrimento do Salvador, na véspera de ser crucificado.


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