Golpe militar na Tailândia = luta de classes

O golpe militar na Tailândia é uma vitória para a classe média e a elite do país. Mas é improvável que a maioria rural tailandesa fique de lado enquanto as camadas urbanas ditam uma nova Constituição

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O golpe militar na Tailândia é uma vitória para a classe média e a elite do país. Mas é improvável que a maioria rural tailandesa fique de lado enquanto as camadas urbanas ditam uma nova Constituição

Por Walden Bello, em Foreing Policy in Focus | Tradução: Vinicius Gomes

Após declarar lei marcial na terça-feira passada (20), os militares tailandeses anunciaram, dois dias depois, um golpe de Estado completo – que foi iniciado quase oito meses atrás após maciços protestos de rua contra o governo Pheu Thai, identificado com o antigo primeiro-ministro Thaksin Shinawatra. A tomada de poder pelo chefe do exército, o general Prayuth Chan-Ochacame, aconteceu duas semanas depois de Yingluck Shinawatra, irmã de Thaksin, ter sido destituída como primeira-ministra pela Corte Constitucional por “abuso de poder”, em 7 de maio.

Os militares tailandeses mostraram como um esforço para impor a ordem após duas rodadas de negociações entre as facções rivais no país falhou em produzir um compromisso que proveria à Tailândia um governo funcional.

Um roteiro habilmente escrito

A narrativa militar produziu pouco. De fato, muitos analistas enxergaram no movimento militar um “golpe misericórdia” ao governo eleito da Tailândia, seguindo o que parecia ter sido um golpe judicial em 7 de maio.

É realmente difícil não ver o golpe como o último passo de um roteiro habilmente escrito pela estrutura conservadora “monárquica” para torpedear o direito de um bloco político populista governar – que tem vencido as eleições desde 2001. Utilizando do discurso anticorrupção para inflamar a classe média a aderir um protesto civil, o objetivo de peças chaves na coalizão antigoverno tem sido, desde o início, criar o tipo de instabilidade que faria os militares entrarem no jogo e oferecerem a força muscular para uma nova ordem política.

Utilizando aquilo que o analista Marc Saxer chama de “ódio da classe média” como uma máquina de guerra, esses elementos da elite forçaram a renúncia do governo de Yingluck em dezembro; interromperam as eleições em fevereiro – dando assim a justificativa para a conservadora Corte Constitucional anulá-las – e instigaram a mesma Corte a destituir Yingluck como primeira-ministra em 7 de maio com fracas acusações de “abuso de poder”. As manifestações de protesto foram orquestradas com iniciativas jurídicas para pavimentar o caminho para a tomada de poder pelos militares.

Estes dizem que formarão um “conselho para reforma” e uma “assembléia nacional” e que irão formar a base institucional para o novo governo. Esse plano se assemelha muito ao anunciado ao final de novembro pelo líder dos protestos Suthep Thaugsuban, o que colocaria o país por um ano sob um painel não-eleito e que não prestaria contas.

A ação militar contou com ampla aprovação da base partidária de Suthep: a classe média. De fato, foi o apoio da classe média que ofereceu cobertura para os movimentos calculados das elites políticas. Muitos desses que forneceram apoio vital aos protestos de rua agora planejam redigir uma nova ordem elitista que irá institucionalizar a desigualdade política à favor de Bangcoc e a classe média urbana do país.

A classe média tailandesa: de modelos para inimigos da democracia

O sociólogo Seymour Martin Lipset certa vez elogiou a classe média da Tailândia como modelo de democracia. Mas, nos anos recentes, esta mesma classe média se tornou partidária de interesses elitistas e claramente antidemocráticos. A classe média tailandesa atual não é mais aquela pró-democrática que derrubou a ditadura do general Suchinda Krapayoon, em 1992. O que aconteceu?

Os Camisas Vermelhas (pró-governo e maioria rural) e os Camisas Amarelas (oposição, monárquicos e urbanos), há anos têm entrado em conflito na Tailândia
Os Camisas Vermelhas (pró-governo e maioria rural) e os Camisas Amarelas (oposição, monárquicos e urbanos), há anos têm entrado em conflito na Tailândia

Uma detalhada análise de Marc Saxer explica essa transformação:

“A classe média de Bangcoc exigiu uma democratização e principalmente poderes políticos para se proteger do abuso de poder das elites. Todavia, uma vez que a democracia foi institucionalizada, eles perceberam que eram uma minoria dentro da estrutura do país. Mobilizada por empreendedores políticos espertos, era agora a periferia que habilmente venceria todas eleições. Alheios ao crescimento de uma classe média rural exigindo total participação na vida social e política da Tailândia, a classe média urbana interpretou essas exigências por direitos iguais e serviços públicos como “os pobres ficando gananciosos” […] uma liderança da maioria foi vista como equivalente a insustentáveis gastos com o bem-estar social, o que eventualmente levaria o país à falência”.

“Da perspectiva da classe média”, Saxer continua, “nunca houve qualquer contrato social que dissesse que a classe média era obrigada a pagar impostos em troca de serviços públicos de qualidade, estabilidade política e paz social. É por isso que a classe média sente que está “sendo roubada” por políticos corruptos, que usam do recolhimento de impostos para “comprar votos” dos “pobres gananciosos”. Ou, em uma linguagem mais sutil, as “massas rurais sem-educação são uma presa fácil para políticos que lhes prometem tudo como um esforço para manter o poder”.

E assim, como conclui Saxer, do ponto de vista da classe média urbana, as políticas aplicadas às constituintes locais não passam de “populismo” ou outra forma de “comprar votos” por parte de políticos famintos de poder. A Corte Constitucional tailandesa entendeu então que o mesmo principio que define as eleições é igual à corrupção. Consequentemente, a aliança “amarela” das elites feudais com a classe média de Bangcoc clamou pela usurpação dos direitos dos “pobres sem-educação”, ou, de maneira mais clara, pela suspensão da democracia eleitoral.

Sonho impossível

Mesmo assim, a aliança elite-classe média está enganando a si própria se acredita que a adoção de uma Constituição que legalize o comando do país por uma minoria será possível, pois a Tailândia de hoje não é a mesma de 20 anos atrás, onde conflitos políticos aconteciam entre as próprias elites – tendo a maioria das classes mais baixas apenas como espectadores ou seguidores passivos das facções beligerantes.

Aquilo que hoje é a força motora das políticas na Tailândia é o conflito de classes com características tailandesas, para citar Mao. A figura central que transformou o horizonte político tailandês é o exilado Thaksin Shinawatra: um carismático, mas corrupto bilionário que conseguiu criar – combinando populismo e clientelismo – uma maciça maioria eleitoral. Enquanto para Thaksin o objetivo dessa coalizão pode ter sido o encurralamento do poder das elites; para os setores sociais que ele mobilizou, o objetivo era a redistribuição de riqueza e poder da elite para as massas e, igualmente importante, dar respeito às pessoas que foram chamadas como “caipiras do campo”. Não importa o quanto muito do movimento dos “camisas vermelhas” de Thaksin tenha surgido de uma coalizão entre políticos corruptos e “pobres gananciosos”, ela se tornou o veículo para a conquista de todos os direitos de cidadania das classes marginalizadas da Tailândia.

A aliança elite-classe média está sonhando se acha que os Camisas Vermelhas irão ficar de lado e permitir que lhes ditem os termos de rendição – muito menos institucionalizar tudo isso em uma nova constituição, mas nem os Camisas Vermelhas no momento têm o poder necessário para conseguir alterar a balança política a curto ou médio prazo. O momento agora é promover a resistência civil.

Desde o golpe, cerca de 150 pessoas foram detidas – incluindo Pravit Rojanaphruk, um proeminente repórter do jornal tailandês Nation, conhecido por suas críticas aos protestos antigoverno que precipitaram a intervenção militar.

O que parece agora é que, com protestos civis violentos e não-violentos, feitos pelos Camisas Vermelhas, a Tailândia irá passar por uma prolongada e amarga queda rumo a uma quase guerra civil: com seus fortes regionais Pheu Thai, no norte, nordeste e partes da região central do país – que se tornarão cada vez mais ingovernáveis pela Bangcoc imperial. Isso tudo é um trágico desfecho daquilo que uma oposição antidemocrática, desdenhando todos os compromissos políticos, atingiu: mergulhar na crise essa outrora promissora nação do Sudeste Asiático.

Foto de Capa: Pittaya Sroilong |Flickr



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5 comments

  1. Juliano Responder

    Novamente a “guerra de classes” se a maioria da população apoia o ato do exército a maioria é golpista? Sinceramente deveriam rever o conceito de democracia de vcs. O problema da esquerda que ela incita a guerra de classes em nível cultural, o correto seria vcs voltarem como antigamente com armas ai o povo reagiria, quem vencer que vença, o ódio gerado pela esquerda acaba sempre do mesmo jeito e depois culpam os “reacionários” que geralmente possuem uma formação intelectual muito acima de quem vota em esquerdista.

    1. Márcio Gonçalves Responder

      Então, se isto acontecer no Brasil você ficará com os camisas amarelas alegando “superioridade intelectual” da sua classe? Políticas públicas que não atendem as maiorias não fazem sentido.

  2. Marcos Responder

    “A aliança elite-classe média está sonhando se acha que os Camisas Vermelhas irão ficar de lado e permitir que lhes ditem os termos de rendição.”

    Agora sim falam a minha língua, esquerda só gera ódio e quando o povo a tira do poder declaram guerra, voltam as origens, eu prefiro algo autentico do que falso. O Brasil tem 100000 homicídios anuais se o povo brasileiro a retira do poder em um lapso temporal de sabedoria a choradeira vai ser a mesma.

    1. Márcio Gonçalves Responder

      Ódio na esquerda? Bolsonaro, Sheherazade, Olavo de Carvalho – os monges do ódio e da discriminação no Brasil de hoje estão na direita – e eles sim querem o golpe, querem violência, desordem e caos


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