“A vigilância é uma ameaça à democracia”, diz Edward Snowden

Em entrevista, o ex-agente da NSA nega que tenha entregado documentos para outros países e que o asilo político é uma questão de Direitos Humanos

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Em entrevista, o ex-agente da NSA nega que tenha entregado documentos para outros países e que o asilo político é uma questão de Direitos Humanos

Por Redação

Na edição deste domingo (1) do programa Fantástico, a jornalista Sônia Bridi entrevistou o programador Edward Snowden, hoje considerado o inimigo número 1 dos Estados Unidos. Snowden, que está em asilo político na Rússia, declarou que acreditava nas coisas que o governo de seu país falava, mas, ao tomar conhecimento dos programas de espionagem, se sentiu obrigado a divulgar aquilo que sabia para, em sua visão, aprofundar a democracia.

“A informação de que eu era um funcionário de baixo escalão é um erro de informação propagado pelos Estados Unidos. Na verdade, eu tinha cargo alto”, diz Snowden. O programador revela que, após os ataques de 11 de setembro, se alistou voluntariamente no Exército porque “acreditava” no que o governo falava. “Na época, eu acreditava que o Iraque estava desenvolvendo armas de destruição em massa”, lembra.

Snowden revela que o momento crucial de sua vida foi quando presenciou o depoimento de James Clapper, diretor de Inteligência da CIA, no Congresso levantando a mão e dizer que só diria a verdade. “Perguntaram pra ele: os Estados Unidos monitoram milhões de americanos? Ele disse não e eu sabia que era mentira e os deputados da comissão também sabiam que era mentira e ninguém disse nada”, denuncia.

O programador ainda afirma ter conhecimento de todos os dados contidos nos documentos que entregou ao jornalista Glenn Groworld, e também revela que há mais documentos sobre o Brasil para serem compartilhados que mostram mais ações de espionagem dos Estados Unidos sobre o Brasil e outros países.

Edward Snownden também conta que não estava dando entrevistas porque não queria retirar a atenção dos documentos. “Agora eu me sinto seguro para falar”, disse Snowden. “Eu nunca escolhi vir pra Rússia, eu estava a caminho da América do Sul, para o Equador. Mas o problema é que os Estados Unidos cancelaram o meu passaporte e não pude mais viajar. Fizeram isso de propósito para dizer que eu sou um espião russo”, comenta o ex-agente da CIA.

Sobre os noventa dias que passou dentro do aeroporto, ele classificou como “tensos”. “Você não sabe o que vai acontecer com você, o que vai acontecer enquanto você dorme, se alguém vai bater ou derrubar a porta”, lembra.

Quando a jornalista pergunta se Snowden estava arrependido, ele disse que não. “Eu sentia que deveria tornar isso público com responsabilidade. A maneira de impedir que a minha opinião não prevalecesse foi fazer parceria com jornalistas competentes e instituições sérias. Deixei a imprensa livre pra fazer o que faz de melhor e ajudar os cidadãos a pensarem sobre que tipo de sociedade eles querem pra viver”.

Sobre todo o debate em torno da NSA (Agência Nacional de Segurança, na sigla em inglês), Snowden disse que não se trata apenas de privacidade. “Trata-se de liberdade, equilíbrio entre os direitos individuais e o direito que o governo tem de coletar informações. Se vigiarmos cada homem, mulher e criança da hora que nascem até a hora que morrem, podemos dizer que eles são livres? Isso é muito perigoso, porque mudamos o nosso comportamento quando sabemos que somos vigiados. Isso é uma ameaça à democracia.”

Ele também desmente a informação de que os chineses teriam copiado os dados que ele têm em mãos. “Isso é uma loucura, eu sou um especialista em cibersegurança e em como proteger exatamente esse tipo de coisa (metadados).” Snowden também nega que seja um traidor. “Você não pode ser um traidor ao menos que a sua lealdade tenha sido transferida para um inimigo de Estado e a minha lealdade nunca mudou. Ainda hoje eu continuo trabalhando para o governo americano, eu não quero derrubar o governo.”

Sobre ser julgado nos Estados Unidos, Snowden afirma que “adoraria” ser julgado, mas afirma que não seria um julgamento “justo”. Acusado de “traidor da pátria”, Edward Snowden não tem direito à defesa pública, segundo a lei norte-americana.

O asilado político também comentou o discurso da presidenta Dilma Rousseff. “Foi incrível, porque ela foi a primeira presidenta que tomou a liderança para dizer: temos o direito de falar, de nos comunicarmos sem sermos espionados. Isso não são direitos de um país, são Direitos Humanos”, comentou Snowden, que também rebateu a acusação do governo Obama de que teria oferecido documentos ao governo brasileiro em troca de asilo político.

“Primeiro que eu não tenho documentos a oferecer, eu nunca cooperaria com um governo em troca de asilo, um asilo deve ser dado por razões humanitárias.” Sobre o seu futuro depois que o asilo russo terminar, Snowden disse que é uma questão difícil de se responder. “Eu não tenho resposta, o meu asilo vence no começo de agosto e se o Brasil me oferecer um asilo, eu ficaria feliz em aceitar. Eu adoraria viver no Brasil e, de fato, eu já pedi asilo ao Brasil. Quando eu estava no aeroporto em mandei pedido de asilo a vários países, o Brasil foi um deles.

(Crédito da foto da capa: Wikimedia Commons)



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