X-men – dias de um futuro esquecido (filme)

quanta gente, quanta alegria Depois de tempos...

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quanta gente, quanta alegria
Depois de tempos sem escrever, volto a brincar de crítica de cinema com X-men, dias de um futuro esquecido.
Não levo em consideração aqui a história em quadrinhos, que eu não li, só dei uma googlada rápida, nem os outros filmes. O texto todo contém spoilers.
Depois de meses sem ir ao cinema e assistindo filmes por meios ilegais, achei que o Hugh Jackman, o Michael Fassbender e o fofinho do McAvoy mereciam ser vistos em tela grande com efeitos especiais de som pra amplificar esses sotaques britânicos maravilhosos.
Minhas cenas preferidas são a do Mercúrio salvando geral e a do Magneto divando, usando o estádio pra cercar a Casa Branca. Além de ter efeitos especiais, lutas, homens lindos com sotaques idem, Tempestade morrendo maravilhosamente, recomendo o filme como um exemplo de produto feito pra ser blockbuster que consegue ao mesmo tempo trazer uma discussão política interessante.
X-men, aliás, sempre faz isso (ok, no filme aleatório do wolverine com japoneses, não), mas o próprio motivo da série é discutir como nós tratamos aqueles que são diferentes. Até aqui a briga foi o discurso revanchista de Magneto – a melhor defesa é o ataque, quem não teve misericórdia não merece misericórdia, uni-vos mutantes do mundo todo e vamos extinguir esses humanos fraquinhos antes que eles acabem com a gente – versus o pacifista do Professor Xavier – a paz, a cooperação e a convivência harmônica entre povos diferentes é possível e desejável, a educação é o caminho pra autoaceitação das diferenças, a esperança é mais forte do que o medo, as pessoas que fazem coisas ruins também podem vir a fazer coisas boas, se tiverem novas chances e outras opções.
O mérito desse enredo foi trazer ainda mais fortes as nuances dessas duas posições extremas e antagônicas e ligação delas com a experiência pessoal dos dois, Eric e Charles, no caminho escolhido por cada um. Wolverine é o anti-herói que fica no meio dos extremos, e Mística é a peça chave que mostra o poder de uma decisão entre esses dois caminhos.
Focar no crescimento da Mística como mulher que erra e acerta, vacila e duvida antes de tomar uma decisão foi uma escolha que conseguiu juntar a exploração midiática da imagem da queridinha Jenifer Lawrence com uma tentativa bem-sucedida de explorar a complexidade da personagem que resiste a ser servir de joguete entre homens poderosos e inteligentes, que se dá o direito de ficar confusa, de hesitar, de, enfim, ser gente, e não uma super-mulher com uma sabedoria ancestral vinda sabe-se lá de onde.
Esse X-men também pode ser usado nas aulas de história sem culpa. Foi uma escolha dos roteiristas e do diretor situar o passado pro qual Wolverine volta nos anos setenta. A história que serve de fundo pra volta ao passado é a do tratado de paz entre Estados Unidos e Vietnã, e essa escolha não é por acaso. 
Depois da Segunda Guerra Mundial, o american way of life teve dinheiro e prestígio pra espalhar mundo afora que aquele que era o jeito bom, correto e decente de se viver. Toda a cultura, música, valores que a gente importou a partir dos anos 50, é uma forma de celebrar a vida e a alegria, de mostrar ao mundo como se vive em paz e com liberdade, de recompensar os homens que voltaram da guerra com um país livre e mulheres perfeitas. Era a inauguração de um tempo de paz e consumo.
Nada disso combinava com testes nucleares no Japão, com uma intervenção militar, que se mostrou desastrosa, num Vietnã dividido entre norte e sul. Enquanto os governos discutiam diplomaticamente, vietcongs, guerrilheiros comunistas e soldados americanos morriam numa guerra sangrenta e traiçoeira – uma entre tantas da Guerra Fria, que de “fria”, teve pouco. 
Nesse cenário, é até compreensível o desejo do dr. Bolivar Trask, acreditando no american way of life como modelo ideal pra humanidade inteira, de unir o gênero humano como uma espécie através de um inimigo comum. É um desejo quase bonito em teoria, mas que na prática foi desastroso: sabemos pelo “futuro” que os humanos que tentaram ajudar os mutantes também foram perseguidos e mortos, num novo genocídio. 
Hmm, gente poderosa unindo a “humanidade”, ou pelo menos os cidadãos de bem dela, em nome de um inimigo comum que deve ser perseguido e exterminado… sounds familiar?
O futuro de Xmen de futurista não tem nada, o extermínio sistemático de não-humanos (mutantes culturais!) já aconteceu e ainda acontece. Mas ainda não contamos com super-poderes que nos levem ao passado. O único super-poder que pudemos criar foi a capacidade de termos um olhar crítico sobre a História, e fazer o caminho contrário: o de trazer o passado pro nosso presente, para evitar que os mesmos erros sejam cometidos de novo. Essa é a grande viagem no tempo que X-men, dias de um futuro esquecido, teve o mérito de conseguir realizar.


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