Europa: a esquerda como grande esperança para a crise

Nos países onde os eleitores tiveram uma distinção clara entre democracia econômica de esquerda e a xenofobia da direita, eles optaram pela esquerda Por Conn Hallinan, em Foreign Policy in Focus |...

833 0

Nos países onde os eleitores tiveram uma distinção clara entre democracia econômica de esquerda e a xenofobia da direita, eles optaram pela esquerda

Por Conn Hallinan, em Foreign Policy in Focus | Tradução: Vinicius Gomes

Agora que a poeira das recentes eleições para o Parlamento Europeu baixou, é hora de respirar fundo e ver o que realmente aconteceu.

Não, o Reino Unido não está prestes a jogar toda sua população imigrante ao mar. Não, a França de Marine Le Pen não está prestes a marchar sobre o Palácio do Elísio e, por mais repulsivos que sejam os brutamontes do Partido Jobbik da Hungria e Aurora Dourada da Grécia, foi para a esquerda europeia a quem os láureos foram destinados. Os partidos que visaram o combate ao desemprego, austeridade e a crescente desigualdade da riqueza na Europa, foram bem. A dramática chegada dos partidos de direita racistas e xenofóbicos na França, Reino Unido e Dinamarca tiveram mais a ver com a inabilidade ou falta de vontade dos partidos tradicionais desses países em oferecer uma alternativa viável a meia década de crise econômica, do que com um levante neonazista

De fato, se houve uma mensagem que as eleições de 25 de maio trouxe, foi aquela que aqueles que exaltaram a austeridade como a panaceia para a crise econômica, foram punidos. Daí o fato de a coalizão conservadora-liberal-democrata britânica tomarem um drible, os socialistas da situação francesa serem atropelados e os cristãos-democratas da chanceler alemã Angela Merkel perderem oito assentos, enquanto seus oponentes sociais-democratas ganharam mais quatro.

Em contraste, onde ocorreu uma escolha clara entre democracia econômica de um lado e “vamos jogar a culpa nos imigrantes e em Roma” do outro – como na Grécia, Espanha, Portugal, Irlanda, Itália (curiosamente, os PIIGS) e grande parte da Europa central e oriental, os eleitores foram para a esquerda. Como o filósofo croata, Srecko Horvat, apontou, “A esquerda europeia está de volta no jogo”.

Terremoto

Um “terremoto” foi a metáfora usada para descrever os triunfos da Frente Nacional de Marine Le Pen na França, do Partido da Independência do Reino Unido (UKIP, sigla em inglês) e do Partido do Povo, na Dinamarca.

Mas se houve um resultado que de fato mexeram com as bases da Europa, foi a vitória do Partido Syriza na Grécia e da aparição “vinda do nada” do Partido Podemos, na Espanha.

O Syriza emergiu da destruição imposta à economia grega pela chamada “Troika” – a tríplice formada pelo FMI, o Banco Central Europeu e a Comissão Europeia. Como preço pela “ajuda”, o governo da Grécia colocou em prática massivas demissões, enormes cortes em aposentadorias, saúde e educação, além de privatizar propriedades do próprio governo. A taxa de desemprego subiu para 28% – mais de 50% entre os jovens – e milhões de gregos caíram na pobreza. Enquanto os credores da Grécia iam muito bem obrigado, a austeridade não fez nada em troca para contornar a depressão econômica.

O Syriza conquistou 26,5% dos votos e se tornou o maior partido da Grécia no Parlamento Europeu. Em contraste, os dois partidos majoritários – que participaram do programa de austeridade – perderam 10% de votos entre eles. Grande parte da mídia se concentrou no partido neonazista Aurora Dourada, que ganhou 9,4% dos votos, colocando três representantes do partido no Parlamento Europeu, onde serão engolidos pelos representantes da esquerda grega.

Enquanto o Syriza se concentrou na crise doméstica grega, eles conscientemente também se aliaram à outros movimentos de esquerda e antiausteridade ao redor do continente. “O que aconteceu na Grécia não é uma história de sucesso, mas sim uma tragédia social que não deveria ser repetida em lugar nenhum na Europa”, disse Alexis Tsipras, o líder do partido.

Lugar nenhum na Europa

Esse “lugar nenhum na Europa” ecoou em outros países encurralados pela fórmula de austeridade da Troika, ou lutando para saírem de estagnações econômicas e longos anos de desemprego. Além da Grécia, o mais claro exemplo é o Podemos, da Espanha.

O partido de esquerda saiu de maciços protestos de rua antiausteridade que paralisou Madri e outras cidades espanholas em 2011, e que levou a ações similares em outros lugares do mundo. “O Podemos”, diz o líder Pablo Iglesias, “são cidadãos fazendo política. Se os cidadãos não se envolverem com a política, outros irão. E isso abre uma porta para que eles roubem sua democracia, seus direitos e sua carteira”.

Outros partidos da esquerda espanhola também tiveram sucesso na Catalúnia, Valência e no país Basco. Além dos votos do Partido Verde e do Partido Socialista – o partido de situação e de direita, Partido Popular, é agora definitivamente uma organização minoritária.

E esse padrão se repetiu em diversos outros países.

Na Irlanda, os dois partidos que supervisionaram o programa de austeridade econômica – Fine Gael e o Partido Trabalhista – caíram muito, enquanto os partidos de esquerda e independentes, como Sinn Fein, Partido Socialista e Partido o Povo Antes dos Lucros, conquistaram juntos 45% dos votos.

O Partido Socialista Português, antiausteridade, derrotou a coalizão centro-direita que utilizou a receita da Troika. Além do Partido Comunista Português que conquistou 12,7% dos votos.

A Itália testemunhou o Partido Democrático de centro-esquerda emergir como a força política número um no país com 40% dos votos. O partido de direita do ex-primeiro ministro Silvio Berlusconi, Forza Italia, chegou apenas em terceiro lugar, com 16,8%. O protótipo italiano do Syriza, o L´Aitra Europa  (Outra Europa), conquistou respeitáveis 4% e três assentos no Parlamento Europeu, após poucos meses de campanha.  Em contrapartida, o muito mais velho, conhecido e racista, Liga do Norte, perdeu quatros assentos.

A direita oportunista

Não que isso signifique que tudo está lindo e leve.

A direita conquistou assentos no Parlamento em 10 dos 28 países da União Europeia – e aumentou sua representação em 6 desses países – mas também perdeu assentos em outros 7. Os triunfos da Frente Nacional na França e do UKIP no Reino Unido são certamente preocupantes – ambos realizam discursos virulentos e campanhas anti-imigração. A Frente, em particular, é historicamente associada a ideologias antissemitas e anti-Roma.

Entretanto, seria um erro presumir que todos que votarem nesses dois partidos compartilham de seus ódios étnicos. Parte do apoio que tiveram certamente foi de racistas, mas esses partidos também se utilizaram da raiva do eleitor quanto às políticas econômicas da UE que deixaram ambos os países presos em condições de quase recessão.

A “tradicional” esquerda nos dois países – o Partido Socialista na França e o Partido Trabalhista no Reino Unido – embarcaram juntos nas medidas de austeridade da Troika. A ausência de uma crítica séria vinda da esquerda para com as políticas da UE deixou muitas pessoas se renderem ao lado obscuro e comprar a fábula de que os imigrantes inundaram o mercado de trabalho e pilharam os serviços sociais – especialmente quando muitos partidos de direita adotaram, de forma oportunista, o discurso antiausteridade.

Foi um padrão repetido em outros lugares, como na Dinamarca, onde o Partido Venstre, de centro-direita, fez campanha para negar benefícios sociais a imigrantes – uma plataforma quase idêntica ao extrema-direita Partido do Povo Dinamarquês.

Uma solução melhor do que o ódio

Politicamente, o continente rejeitou a estratégia da Troika, muito semelhante à atitude da América Latina em 2000. “Nós nos opomos à austeridade eterna como um meio para reequilíbrio fiscal, tanto em termos pragmáticos quanto ideológicos”, disse o líder do Syriza. “A submissão do processo democrático ao mercado foi a razão para estarmos na crise de hoje… Nós dissemos desde o início que políticas baseadas em austeridade iriam ser piores”.

O desafio agora será unir todas essas diversas forças de esquerda para forçar uma alternativa às crises. O Podemos espanhol já declarou que o partido tem a intenção de trabalhar com “outros partidos do sul da Europa para dizer que nós não queremos ser uma colônia da Alemanha nem da Troika”. A Syriza já propos uma reunião europeia nos modelos da Acordo da Dívida, de 1953 em Londres, que cancelou 50% das dívidas da Alemanha por conta da Segunda Guerra Mundial, parcelando ainda o resto do pagamento ao longo de 30 anos.

Quanto ao temido “terremoto” da direita: os neonazistas detratores de imigrantes farão muito barulho, mas eles não oferecem nada além de ódio como solução econômica. A esquerda tem uma solução muito melhor e eles estão de volta.



No artigo

x