Corajosas e inocentes: o estupro em zonas de guerra

Começou nesta terça-feira (10), em Londres, uma conferência global sobre a violência sexual em zonas de conflito armado Por Subi Shah, em New Internationalist | Tradução: Vinicius Gomes...

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Começou nesta terça-feira (10), em Londres, uma conferência global sobre a violência sexual em zonas de conflito armado

Por Subi Shah, em New Internationalist | Tradução: Vinicius Gomes

Em uma noite, quando Anisa* tinha 14 anos, ela foi arrastada de sua cama por seis soldados e levada sob a mira de armas a um campo atrás de sua pequena casa. Era 1971, no então Paquistão Oriental – hoje, Bangladesh – e a amarga e sangrenta guerra para a independência seguia em frente. Naquela noite,  ela foi estuprada por um bando de soldados que havia acabado de matar seus pais. “Eu estava com tanto medo”, ela disse. “Doeu muito no começo, mas depois minha mente ‘fugiu’. Eu não me lembro quantas vezes eles me estupraram, depois de um tempo eu não sentia ou pensava em nada. Não havia ninguém para me ouvir gritar.”

Agora, aos 50 e poucos anos, Anisa é uma das pelo menos 200 mil mulheres bengali que foram estupradas por tropas paquistanesas durante a guerra de independência de Bangladesh.

A experiência dela não é única, de acordo com a organização Médicos Sem Fronteiras (MSF) – isso é repetido em zonas de guerra por todo o mundo hoje. Os MSF estão hoje oferecendo ajuda médica para sobreviventes de estupros em conflitos, incluindo lugares como a República Democrática do Congo, Ruanda e Darfur. “A violência sexual durante a guerra tem diversos objetivos”, diz Françoise Duroch, a especialista da MSF no assunto. “O estupro pode ser usado como uma arma, o que significa que pode ele pode ser realizado segundo uma lógica militar e para fins políticos. Ele pode ser usado como uma recompensa a um soldado ou para remunerá-los; pode ser usado para motivar as tropas e pode ser utilizado como meio de tortura – às vezes para humilhar os homens em determinada comunidade. O estupro sistemático pode ser usado para forçar uma população a mudar de lugar e até como uma arma biológica, com o intuito de transmitir deliberadamente o vírus HIV/Aids. Isso sem contar o fenômeno de exploração  sexual, prostituição forçada e escravização sexual.”

Arma de guerra

Nessa semana, Londres irá sediar a “Cúpula Global para o Fim da Violência Sexual em Zonas de Conflito”, tendo como  anfitriões o secretário de Relações Exteriores britânico, William Hague, e a enviada especial do alto comissariado britânico para refugiados, Angelina Jolie. Essa é a maior reunião já realizada sobre o assunto e a mensagem é clara: estupro e violência sexual em mulheres e crianças nas zonas de conflito não são um oportunista “espólio de guerra”, mas, sim, uma arma estratégica usada por combatentes, e a comunidade internacional deve trabalhar junta para julgar aqueles que forem responsáveis por tais ações.

Apesar de a violência sexual em conflitos armados já ser reconhecido como um crime de guerra pelas Nações Unidas, os organizadores da conferência dizem que, para forçar uma mudança, mais trabalho deve ser feito para levar ao conhecimento de todos os impactos de tais crimes em comunidades, famílias e indivíduos.

A organização bósnio-britânica “Relembrando Srebenica” diz que o estupro foi usado como parte de uma estratégica de limpeza étnica durante o conflito na Bósnia na década de 1990. Estima-se que entre 20 mil e 50 mil mulheres foram violentadas por soldados e, tudo isso, com o intuito de engravidar as mulheres muçulmanas com bebês sérvios. Até hoje, apenas sete soldados enfrentaram um julgamento sob a acusação de estupro.

Meldisa* tinha 17 anos quando ela foi raptada das ruas da capital Sarajevo e em seguida estuprada por soldados sérvios. Durante os quatro meses em que ficou cativa dos soldados, já estando grávida, ela era queimada com cigarros e espancada. Ela continuou a ser estuprada diversas vezes, frequentemente sob a ameaça de uma faca. Meldisa relatou que seus estupradores diziam que “havia muitos muçulmanos ali, então ela teria um bebê sérvio”. Quando os soldados se entediaram dela, ela foi levada para Tuzla e jogada no meio da rua. Meldisa realizou um aborto depois disso.

Denunciar o estupro em zonas de não-conflito já é um desafio enorme para a vítima – geralmente o estigma social e a infraestrutura jurídica tornam quase impossível falar abertamente a respeito, mas, no caos de uma zona de guerra, raramente alguém irá fazer tal denúncia.

A escritora e atriz Lessa Gazi está trabalhando duro para conseguir mudar isso. Coletando as histórias de mulheres que sofreram a experiência de serem estupradas durante a batalha de independência de Bangladesh. Tais histórias estão sendo reunidas para uma produção teatral com o nome de “Birangona: as mulheres da guerra”. Birangona significa “corajosas e inocentes”.

Gazi diz que relatar a experiência dessas mulheres é uma parte vital do curta, mas a sangrenta história de Bangladesh – e confrontar a dura realidade do que aconteceu a elas – também faz parte do processo de cura.

“Existe esperança”, ela diz. “A cura não pode acontecer sem a admissão. Hoje, em Bangladesh, as mulheres que sofreram e sobreviveram à dor e humilhação de um estupro durante a guerra são corajosas o suficiente para falar sobre o que aconteceu a elas. Elas querem que o mundo saiba suas histórias e querem justiça pelos crimes cometidos contra elas. Eu espero que a cúpula desta semana em Londres consiga seus objetivos, pois o terrível legado da violência sexual em um conflito continua por um longo tempo, mesmo após o fim da própria guerra.”

(*Nome alterado)

(Crédito da foto da capa: Quinn Dombrowski)



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