Israel: a vitória da direita foi melhor para a esquerda

Mesmo com ideias paradoxais, como o antirracismo árabe e a negação de um Estado palestino, o novo presidente, vindo do maior partido de direita de Israel, é a ainda a melhor promessa de novos ares para o pessimismo na região?

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Mesmo com ideias paradoxais, como o antirracismo árabe e a negação de um Estado palestino,  o novo presidente, vindo do maior partido de direita de Israel, é a ainda a melhor promessa de novos ares para o pessimismo na região?

Por Vinicius Gomes

Os 120 deputados do Knesset, a Assembleia Nacional de Israel, elegeram em uma votação secreta Reuven “Ruvi” Rivlin como o novo presidente de Israel. Ele é o décimo presidente da história do país e assim o será pelos próximos sete anos.

Rivlin faz parte do Parlamento desde 1998 e já serviu como líder do corpo legislativo de Israel entre 2003-06 e novamente 2009-13. O novo presidente é um israelense nativo e fluente em árabe. Seu pai, inclusive, foi o acadêmico que traduziu para o hebreu os dois maiores “clássicos” literários do mundo árabe: “Mil e uma noites” e o próprio “Corão”. Fato esse que por si só já levantaria uma centelha de dúvida quanto a esse quase desconhecido político conservador do maior partido de direita de Israel, o Likud.

Ainda, como se não bastasse, alguns dos mais respeitados progressistas da esquerda israelense de fato o respeitam e acreditam que ele é o homem ideal para contrapor o cada vez menos prestigiado (mas sempre perigoso) primeiro-ministro Benjamin Netanyahu.

De acordo com o site progressista +972, em um texto intitulado “Por que o melhor candidato da esquerda pode vir da direita”, dizia: “O comprometimento de Rivlin com a democracia parlamentar – de fato, com a democracia em geral – o colocou quase sempre contra o próprio partido e seus aliados, barrando a maioria das propostas de leis antidemocráticas forçadas pelo Likud (dele e de Netanyahu) e o Israel Beitenu, do ministro das Relações Exteriores Avigdor Lieberman, enquanto, ao mesmo tempo, tentava instruir seus colegas de legisladores de direita sobre os perigos do populismo nacionalista”.

Suas posições condenando a islamofobia israelense também são bem conhecidas no país. Durante um jogo de futebol do maior time do país, o Beitar, os torcedores passaram a gritar palavras de ódio aos jogadores muçulmanos que vestiam a camisa do time: “Imaginem nossa indignação se grupos da Inglaterra ou Alemanha dissessem que judeus não poderiam jogar por eles”, criticou Rivlin, na época.

Essa atitude e sua posição contrária à expulsão do país da parlamentar Hanin Zouabi, em 2010, acusada de ter se envolvido na tentativa de palestinos de romper o boicote israelense, o fez ganhar o respeito não só de muçulmanos, mas como também dos partidos de esquerda da oposição: “Deixe-a falar”, gritou Rivlin aos outros parlamentares, quando ela tentava se defender no Knett. “Eu acredito que todos devem ter o seu direito de falar o que pensam, mesmo que o que digam me machuque”.

Se isso lhe rendeu apoio de rivais, também o fez ganhar o antagonismo de seus supostos aliados. O ministro das Relações Exteriores Avigdor Lieberman disse que não o apoiaria por conta da posição de Rivlin de defender parlamentares árabes e de se opor à criação de comitês para investigar organizações de direitos humanos. A inimizade com Netanyahu também é notória, e o próprio primeiro-ministro fez de tudo para travar a ascensão política de Rivlin: primeiro ao buscar freneticamente um candidato que o vencesse nas eleições presidenciais, ao notar que não teria sucesso, propôs o adiamento das votações e até a eliminação do cargo de presidente de Israel.

Mas por mais progressista que Rivlin pareça ser, ele ainda é pragmático em muitas questões, como ainda entender que os EUA são o maior – possivelmente único – aliado na região e em sua oposição à criação de dois Estados, por entender que tal solução para o conflito Palestina-Israel já não é mais viável. Isso ainda assusta tanto os israelenses mais linha-dura, quanto os liberais, simplesmente pelo fato de que a solução de um único Estado eventualmente acabaria com a existência de um “Estado judeu” – uma vez que, em uma democracia que garantisse uma real cidadania aos árabes, os judeus estariam fatalmente em menor número.

Mesmo assim, tal ideia vem ganhando cada vez mais força na esquerda progressista de Israel e, com o isolamento internacional e a falta de prestígio doméstico cada vez maior de Netanyahu, é possível ainda acreditar em uma mudança no discurso israelense quanto à Palestina.

(Crédito da foto da capa: Miriam Alster/FLASH90)



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3 comments

  1. Elias Responder

    Israel sobreviveu a tudo e a todos, tolos são aqueles que se levantam contra Israel, o tempo ira mostrar.


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