Ritos de Passagem: Fábio Kabral fala sobre África, gênero e sexualidade em seu livro

Por Jarid Arraes. Fotos: Divulgação Ouvi falar do livro “Ritos de Passagem”, do escritor e ativista negro Fábio Kabral, por meio de uma companheira feminista negra. Na ocasião, a ideia era somente dar uma força...

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Por Jarid Arraes. Fotos: Divulgação

Ouvi falar do livro “Ritos de Passagem”, do escritor e ativista negro Fábio Kabral, por meio de uma companheira feminista negra. Na ocasião, a ideia era somente dar uma força divulgando o lançamento do livro, mas logo se tornou um assunto do meu interesse genuíno. Para quem gosta de literatura fantástica, filmes épicos, dragões e guerras entre reinos, as opções giram sempre em torno do imaginário europeu, com suas religiões antigas e modelos de sociedade tão familiares ao ocidente. Ritos de Passagem quebra esse padrão: a fantasia se passa na África e traz uma narrativa cheia de conflitos e subjetividades. Há muita política envolvida, sem dúvida alguma pertinente para o mundo real.

A leitura é rápida e curiosa, sobretudo para quem não tem muito contato com mitos e tradições africanas. A fantasia contida ali não soa absurda, pelo contrário – a medida que os mitos são apresentados, tem-se  o sentimento de ouvir uma pessoa idosa contando histórias vividas em um outro tempo. O clima é quente, cheio de suor e palavrões. Kabral consegue transportar o leitor para os ambientes descritos e a sensação é de pressa, de sufocamento. Há muito sofrimento em Ritos de Passagem, assim como muita reprodução de paradigmas sociais ainda fortes em nossa própria cultura brasileira: gordofobia, machismo e classes dominantes que oprimem as menos favorecidas. É difícil saber onde termina a crítica e onde começa a parcela de tudo aquilo que Kabral carrega em si.

As relações de gênero são problemáticas, às vezes contraditórias. Como Kabral diz na entrevista abaixo, talvez seja tudo responsabilidade de seu inconsciente. Sob a ótica feminista, há um misto de desconforto e curiosidade. Não é nenhuma novidade a crítica das feministas negras para o movimento negro, muitas vezes dominado por perspectivas machistas e heteronormativas. Perguntei diretamente ao autor o que ele pensava disso tudo e o resultado é uma ótima entrevista, que pode ser lida na íntegra a seguir:

Como e quando surgiu tua vontade de escrever? Quando decidiu escrever um livro?

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“Me irrita muito a castidade nos livros de literatura fantástica inspirados no imaginário europeu”

Até onde me lembro, a vontade de escrever surgiu já na infância, quando pela primeira vez assisti a um desenho e disse: “Não gostei, eu faria melhor!” (risos). A vontade de escrever livros eu não me lembro exatamente quando surgiu – parece que eu sempre quis contar histórias, sempre fui acometido por essa ânsia de criar novas realidades; escolhi a plataforma “livro” por ser a plataforma hoje que origina tudo: filmes, séries, jogos, músicas, brinquedos, etc. O paradigma atual é o livro, é esta a nossa linguagem, que nos foi imposta. Mas como seria se pudéssemos nos expressar por outros paradigmas do continente?

Por que escolheu escrever literatura fantástica?

Poderia ser qualquer gênero. Tanto faz o rótulo. Eu só desejo escrever o que eu quiser com a liberdade que tenho direito. Rotularam o livro de “literatura fantástica” então que seja. Li “O Senhor dos Anéis” pela primeira vez em 1995, bem antes dos filmes, e por muitos anos foram meus livros prediletos; porém, a influência das literaturas fantásticas para aí, pois as ditas literaturas “consagradas”, como por exemplo Clarice Lispector, Machado de Assis, Graciliano Ramos e outros, influenciaram pra caramba também. Gibis também, principalmente os X-Men. Jogos de videogame, série Final Fantasy. Livros de RPG ajudam pra caramba na hora de bolar metafísicas, imaginários e mitos. TUDO é influência, então é até injusto eu citar uns poucos nomes e deixar vários outros de fora.

Como foi o processo de pesquisa na escrita do livro? Teve dificuldades para encontrar fontes? Os mitos que estão no livro são inspirados em mitos reais ou são criações suas?

Se eu tenho de definir um processo, então digo que o processo é simplesmente um vômito. Um vômito de sensações, desejos, anseios, raivas, angústias, alegrias, esperanças, vontades, imaginações, sonhos, especialmente sonhos. Muitas dificuldades para encontrar fontes, tive de me virar catando uns pedaços aqui e ali, em todos os lugares, em bibliotecas das faculdades, em prateleiras perdidas, em sites obscuros, em feiras afrocentradas, etc. O processo é intuitivo. Leio o que me interessa, absorvo, compreendo a minha própria maneira, misturo tudo e dou meu toque pessoal. Vomito a minha alma nas palavras. Os mitos do livro. Vamos dizer que metade dos mitos do livro são inspirados em mitos “reais”, e que a outra metade eu inventei. Está tudo misturado. Muitas adaptações das crenças e realidades oníricas de povos antigos do que hoje é chamado de “Angola” e “Congo”. Passados e futuros são recriados em nossos imaginários.

Você me disse que a intenção era escrever um livro sobre uma das personagens, a Kinemara, mas que acabou mudando o rumo. O que aconteceu? Por que resolveu criar mais personagens?

A doce Kinemara foi a primeiríssima dos meus personagens; minto, o primeiro personagem meu foi criado em 1996 e existe numa espécie de “poema épico” que escrevi e transformei em livro e que publiquei aos poucos num fórum sobre O Senhor dos Anéis, mas tanto esse livro quanto esse personagem jamais verão a luz do dia e nem comentarei mais sobre essa coisa lamentável (risos). Mas voltando. A Kinemara eu criei em 2003. É totalmente diferente da Kinemara de hoje. A leitura de Clarice Lispector pela primeira vez em 2004 estragou a personagem (risos). As coisas mudaram de rumo por causa de uma coisa chamada perfeccionismo, que é o irmão mais velho da insegurança. A personagem teve um milhão de versões e a história ficou emperrada. E as coisas da vida também aconteceram e tive ou de parar de escrever ou de escrever outras coisas. Aí veio o Numumba em 2007, numa excelente aula de oficina de criação literária, coisa que não existe numa faculdade de Letras. Antes e depois vieram os outros personagens também. Era pra ser um livro para cada personagem, mas as coisas tomaram outro rumo, estava demorando para terminar, a história crescia cada vez mais na minha cabeça e então aceitei finalmente que deveria dividir em partes; peguei os quatro primeiros que já tinham sua introdução pronta, os quatro que ainda precisavam virar adultos, criei mais uns capítulos “finais” para esse primeiro livro introdutório e então transformei num primeiro registro. Os outros protagonistas aparecem todos nos capítulos finais, mas ninguém percebeu. No fim, é tudo sobre a Kinemara, embora a Kinemara, assim como todos os outros, sejam faces de uma única moeda.

A Kinemara é a minha personagem favorita. Também achei muito interessante seu contexto cultural, onde as mulheres são servidas, os homens são escravos e há uma família de feiticeiras poderosas. Você poderia falar um pouco sobre sua relação com esses detalhes? Por que um grupo de mulheres poderosas?

Há mais grupos de mulheres poderosas, ainda vão aparecer – quer dizer, apareceram nos capítulos finais, mas ninguém percebeu. A alta linhagem Kalumba simplesmente surgiu. Não tenho nenhuma intenção especial a respeito disso, nem crítica, nem exaltação. Bom… minha mãe sempre me ensinou que a mulher negra é a criatura mais poderosa do mundo, então talvez inconscientemente eu tenha criado não só a linhagem Kalumba, não apenas a Kinemara bem como as mulheres poderosas que aparecerão com mais destaque nas próximas histórias tendo esse ensinamento materno como base inconsciente. Já sobre a feitiçaria eu não posso ainda falar, ou revelarei coisas demais. Alguns já perceberam o que é, então que cada um tire suas próprias conclusões.

No livro, os papéis de gênero são bem divididos nas sociedades que você criou. Homens possuem suas funções, mulheres possuem suas funções, e não deixa de haver uma relação de valores nisso. O que você tinha em mente quando criou essas relações de gênero?

Todas as antigas sociedades africanas que estudei até então possuem uma divisão muito específica a respeito das funções de homem e das funções de mulher. Na minha religião, Candomblé, são bem definidas as funções de homem e de mulher. Talvez inconscientemente tenha feito as sociedades do universo do livro dessa forma, mesmo que eu acredite que cada um possa ser e fazer o que quiser e bem entender. No entanto, nenhuma lei é escrita em pedra, e temos nos capítulos finais a mulher que é a melhor ferreira do mundo – e que, por sinal, também é a mulher mais forte do mundo; só que, de novo, ninguém percebeu. Hahahaha..

A sexualidade das irmãs de Kinemara e até mesmo da própria personagem é bem interessante. Como você enxerga a sexualidade feminina no livro? Você acha que as mulheres negras podem ou devem encarar o livro como uma crítica ou um estímulo para suas escolhas sexuais?

Nenhuma crítica ou estímulo. Na verdade, me irrita muito a castidade nos livros de literatura fantástica inspirados no imaginário europeu; a coisa da dama frágil que deve ser protegida, que não passa de um enfeite bonito, que deve ser salva do monstro e que deve se guardar para o seu amado, isso sempre me irritou ao extremo. Já nas sociedades africanas tradicionais que estudei, o que percebi é que desprezada é a mulher infértil, em vez da mulher casta; aliás, nesses povos que estudei, a menina já é tradicionalmente introduzida ao sexo logo que menstrua, e o conceito de virgindade sagrada não existe nessas sociedades. Eu sou homem e jamais terei a pretensão de falar em nome das mulheres ou dizer o que elas devem fazer e minha opinião geral é que cada um faça o que quiser, seja homem ou mulher. Por isso acho normal a sexualidade feminina no meu livro.

No livro também há relações homossexuais, ás vezes relacionadas com dominação e poder, mas também como hábito das irmãs de Kinemara. Você pensa em falar mais a respeito de relações não-heterossexuais nos próximos livros? Nas suas pesquisas, você encontrou informações que retratassem a diversidade sexual africana?

As relações homossexuais do livro surgiram naturalmente, pois pra mim homossexualidade é uma orientação sexual tão natural quanto as demais. As pessoas se gostam e pronto. Faço sempre o que a história pede, não sou eu que controlo, sou apenas um canal para a história se tornar realidade. Até onde sei haverá mais relações não-heterossexuais na história, pois é isso que a história está me pedindo. Algo normal. A função de kakuma, que é o caso do Nolom, um rapazola afeminado que serve a um nobre e aquece suas noites, realmente existiu entre os lunda-tchokwe de Angola, sociedade que é a espinha dorsal das sociedades fictícias do livro. O que vejo nas maiorias das sociedades tradicionais que estudei é que o sexo é algo natural, honesto, e que adultério é um “crime” menor, quando muito passível no máximo de uma multa. Mesmo as sociedades tradicionais patriarcais que estudei eram matrilineares, quem herda o trono é o filho da irmã do rei ou filho da parente mais próxima do rei, e não o filho do próprio rei, pois sempre se há certeza de que o filho é da mãe, mas não necessariamente do pai. E a questão da linhagem e do sangue na sociedade tradicional africana é muito, muito importante.

Você tem alguma expectativa política com o livro? É fato que a literatura fantástica geralmente só aborda questões brancas, em culturas brancas, e que seu livro marca um território.

Apenas cansei das histórias do norte gelado, da suposta beleza do inverno que está chegando, das onipresentes peles branquinhas e olhinhos azuis que são a figura principal de todas essas obras de fantasia que estão na moda, de todas essas histórias de capa e espada só só só falando do imaginário europeu. Os imaginários africanos são muito mais antigos, poderosos e eloquentes. E nunca receberam os devidos créditos. E nunca saberemos. Tem filme de Thor mas não tem filme de Xangô; reclamam que colocam um cara preto no quarteto de heróis do gibi mas se esquecem porque eram todos loirinhos quando fizeram os gibis na década de 50. Por décadas nos foi imposto só só só o imaginário europeu. Chega disso. Também cansei de reclamar disso, cansei até de falar nesta resposta. Então é sentar e escrever. Recriar. Tentaram apagar os imaginários do continente, nós recriamos. À nossa própria maneira. Será uma honra sem igual para mim se essas minhas histórias inspirarem outros a desenvolverem outros mitos e histórias afrocentradas, ainda maiores e mais espetaculares que as minhas. Será uma alegria sem igual quando os meninos e meninas tiverem heróis pretinhos pra se inspirar em suas infâncias, coisa que nunca tive na minha época.

Você encontrou dificuldade para publicar o seu livro? Como tem sido essa experiência pra você?

Demorei um ou dois anos para publicar. Muita gente manda material o tempo todo, bom ou ruim, e as editoras praticamente não apostam em escritores desconhecidos ou sem indicação. O lançamento destes Ritos de Passagem foram um estouro, muito mais do que eu imaginava que pudesse ser, com cerca de 250, 300 pessoas, muita gente preta linda, foi grandioso demais. Um grande baque, um baque positivo, mas ainda assim. Trocentas pessoas me adicionaram nas redes sociais, pelo menos uma nova adição por dia. Representantes de entidades, acadêmicos, estudantes, convites para eventos. Especialmente entre a gente preta e estudiosos de realidades afro-brasileiras, muitos têm vindo me procurar, e de muitos sinto que depositam grandes esperanças nessa obra. E a maioria desses nem leram o livro ainda. Parece que tem até professor de faculdade já citando a mim como “exemplo de teórico negro que problematiza a ancestralidade no contexto eurocêntrico contemporâneo”; vejo isso e penso: “caramba, isso é só um livro maluco que escrevi a partir de ideias malucas que tenho”. Eita. E o livro não completou nem seis meses de publicação ainda… e é por isso que digo que o melhor ainda está por vir. Enfim, tem sido algo realmente impressionante. E uma grande responsabilidade também. Assumo com prazer, mesmo que me cause um pavor dos diabos. Porque este livro, e os demais que estão por vir, estes Ritos de Passagem, não são para mim, e sim para todos nós. E apenas aguardem, pois esse livro é só o início, só uma introdução; o melhor ainda está por vir.



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