Machismo: e se fosse um pedreiro?

Europeu branco beija repórter ao vivo; ato é visto como pitoresco. Mais um elemento para debater relações entre opressão de gênero e classe

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Europeu branco beija repórter ao vivo; ato é visto como pitoresco. Mais um elemento para debater relações entre opressão de gênero e classe

Por Marília Moschkovich, do Outras Palavras

Vamos supor que você está fazendo seu trabalho, tranquila, como todos os dias. De repente um desconhecido se aproxima e te dá um beijo. Você nunca viu mais gordo. Mas você está exposta e tem que entregar o trabalho naquele minuto, sendo observada por seus chefes e pela sua equipe. Seria possível uma reação agressiva? E se aquilo se voltasse contra você? Talvez denunciar em seguida? Mas como saber quem era aquele homem?

Essa situação lamentável já consta entre a nada modesta lista de pérolas machistas que vimos e veremos nos próximos 30 dias, ao longo da realização da Copa do Mundo aqui no Brasil (em tempo: não que ela não aconteça da mesmíssima forma em outros países). Enquanto estava realizando seu trabalho, em transmissão ao vivo, a repórter Sabina Simonato foi beijada por um torcedor croata anônimo, na calçada da Avenida Paulista (veja aqui o vídeo).

A abordagem dada pela maioria dos veículos que noticiou é a mesma de sempre, sobretudo porque se trata de um europeu branco com alguma grana pra frequentar copas do mundo, de não de um “pedreiro” (pra voltarmos à velha discussão sobre intersecionalidade e preconceito de classe que rola quando falamos sobre assédio nas ruas): risadinhas, todo mundo achando graça. A própria repórter, inclusive, reage com estranhamento mas tenta se manter descontraída.

Algo me diz, porém, que ela não poderia ter tido qualquer reação ali, ao vivo, no ar, sem que aquilo se voltasse contra ela de alguma maneira. Talvez impondo limites ela passasse por “grossa”, “antipática”, “péssima profissional”, entre outros adjetivos frequentemente direcionados às mulheres que resistem o assédio. Talvez sofresse pesada retaliação de seus colegas, da sociedade como um todo, do veículo para o qual trabalha.

O episódio reacende uma questão que tem estado na boca da internet nos últimos meses, e que infelizmente não depende da Copa: até quando seremos desrespeitadas nas ruas por sermos mulheres?

Reparem que a questão aqui não é um beijo de um desconhecido. É um beijo de um desconhecido num contexto específico. Claramente não solicitado, claramente não consensual. O torcedor croata, ao tascar o beijo na repórter, coloca-a em sua posição de mulher – um corpo disponível. É assim que nos sentimos nas ruas, pontos de ônibus, estações de metrô, e até mesmo em festas e bares quando homens aleatórios se acham no direito de interferirem em nosso espaço físico e psicológico. Sabina Simonato não pediu nem concordou com esse beijo, não importa o quão leve tenha nos parecido sua reação.

Quando dizemos que o feminismo ainda é necessário, é por causa de atitudes desse tipo. Alguém já viu algum jornalista homem sofrer assédio sexual assim, ao vivo? Na frequência com que isso acontece com as jornalistas mulheres (só no último ano me lembro de pelo menos dois ou três casos de grande repercussão aqui no Brasil)? O assédio é uma questão de poder, de lembrar às mulheres que somos “apenas” mulheres. Por isso ele é humilhante, indigno, violento – ainda que venha na forma de um beijo com risadinhas.

(Foto de capa: Reprodução/Outras Palavras)



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31 comments

  1. Clara Responder

    Sociedade da ofensa, tudo, simplesmente tudo vira ofensa.

    1. Johnny Responder

      Pois é cara, ta foda. É a geração mimimi.

    2. ascorbila Responder

      Exato! Vai de cada um se ofender ou não!!!

  2. olivires Responder

    o assunto é notícia, mesmo que de fofoca.

    sobre ser europeu ou pedreiro, acho o tipo de discussão boba.

    se uma mulher beijasse um jornalista homem, não haveria nenhum escarcéu.

    se fosse um negro considerado bonito beijando a moça, também nenhum alvoroço.

    o beijo não foi solicitado nem estimulado, mas acontece com quem trabalha ao vivo.

    o problema poderia ser resolvido com um segurança 2×2 escoltando a equipe, para evitar os engraçadinhos.

  3. Barbara Responder

    Opinião muito extremista, a situação não é pra tanto.

  4. Pino Responder

    Vai com calma feminista. Esse Beijo não foi desrespeitoso. E pode sim acontecer de mulher pra homem. Nada a ver. Nada demais.

  5. Luiz Eduardo Responder

    oh textinho feminista em, meu deus ¬¬

  6. Rodrigo F Responder

    A análise do contexto tem uma razão de ser… Mas a análise do fato foi totalmente hiperbólica…

  7. pdel Responder

    Caracas, tudo isso por causa de um beijo, um gesto de carinho, seria melhor se fosse uma porrada? Ou ficou com ciumes… dele ou dela?

  8. Lara Responder

    Não concordo com sua análise, achei distorcida. O fato de ser um “contexto específico” é exatamente o que justifica o beijo: um contexto alegre e descontraído de copa do mundo. Se fosse exatamente o contrário, por exemplo, uma manifestante beijando um policial durante uma manifestação (o que, aliás, ocorreu em junho passado), você certamente não teria escrito este texto, como de fato não o fez. Evidentemente, o contexto não justificaria uma passada de mão na bunda, é claro. Mas não compreendo nesse gesto a conotação sexual de diminuição da mulher para colocá-la em “seu lugar”, nada a ver.
    Sou absolutamente a favor do feminismo em seu sentido primordial (e não sua forma degenerada atual), ou seja, a busca pela igualdade entre os sexos.
    Não vejo a situação, no entanto, como você. Não vi objetificação da jornalista, foi um ato muito simples e espontâneo de comunhão de alegria, o que é típico em eventos agregadores como a copa.
    Temos que tomar cuidado para não fazermos com que o movimento feminista nos torne melindrosas. Isso enfraquece a ideia original e deixa a vida ranzinza.

    1. leila perez Responder

      Amei seu comentario. Que bom que o bom senso ainda existe.

  9. Fred Responder

    Tremenda bobagem a matéria. Foi um beijinho amigável sem qualquer conotação sexual. O feminismo é uma tolice. Pessoas públicas sofrem assédio o tempo todo. Homens, famosos também são agarrados e beijados por fãs, na maioria das vezes com muito mais agressividade e ninguém fala nada. Essa revista Fórum é um lixo classista.
    alguns segundos atrás ·

  10. Adalberto Responder

    Alguém já viu algum jornalista homem sofrer assédio sexual assim, ao vivo?

    Já.
    https://www.youtube.com/watch?v=N4nVA6e_txw

  11. Verônica Responder

    Quanto mimimi meldels!

  12. jardel Responder

    hora, ninguem gosta de ser encomodado. Respeitar o espaço de qualquer pessoa, independente do genero, é fundamental, se isso ocorrer com frequencia, alguma punição pode ser implantada

  13. Pet Responder

    Se fosse um pedreiro gato assim…. Não teria difenca!!! Vamos ser honestas!!! Se fosse um cara feio e sujo, ninguém iria fazer isso!! Mesmo sendo gringo e com grana!!!!
    Além do mais, não passa de uma brincadeira ! O pessoal que veio está feliz!!! Vamos parar de ver cabelo em ovo!!! Achei esse tópico com uma abordagem ridícula e hipócrita !!!! Qualquer mulher adoraria ser beijada de surpresa por um gato desse a não ser que goste de mulher!!!

  14. Pio Redondo Responder

    Quer saber, se olhar bem vai notar que não foi um simples e singelo beijinho no rosto. Aliás, foi no rosto? Invasivo. Se ela não estivesse ao vivo, teria permitido? Só isso.

  15. Bruna Barbosa Responder

    Tem assunto mais importante pra virar destaque de notícia. Não vi nada de mais no vídeo. O rapaz somente deu um beijo, na bochecha, da repórter. Se fosse na boca, ai a situação seria outra. Acredito que o torcedor foi simpático e quis demonstrar isto, tendo em vista que o Brasil é conhecido como um país caloroso e receptivo.

  16. Diego Responder

    Feministasss = mimimi. Só pedem pra ser ainda mais zoadas e menos respeitadas com esse tipo de extremismo, com essa visão deturpada de mundo. Vitimistas e mal amadas, enxergam um mundo sem cor.

  17. Sérgio TE Responder

    E por que as mulheres não beijam os repórteres na rua? O machismo impregnado é tão enraizado que está presente entre as mulheres. Se alguma assim o fizer, com certeza, muitas dirão “mulher atrevida”. Mulher tem que ter comportamento de mulher: ficar na dela. O Brasil é machista desde o homem até a mulher.

  18. Pacheco Responder

    Se alguma mulher européia quiser me beijar na rua, do nada, eu não ligo. Pode vim que eu tô facim!

  19. Kleber Responder

    Ciúmes, pq a autora do texto é feia e jamais ganharia um beijo destes na rua…rsrsr

  20. Jorge Luiz Responder

    Feminista de merda. Quer tratar de um assunto de modo especulativo e sem consultar a repórter envolvida para ver se ela comunga do delirio do seu delírio. Essas feministas devem ser muito mal amadas!

  21. leon Responder

    Pura demagogia

  22. Paulo Helison Responder

    Pra não escrever tudo de novo, vou colar aqui o meu comentário que fiz sobre o assunto no blog original da matéria:

    Menos de uma semana depois, um repórter foi abraçado ao vivo por uma loira de olhos claros e eu não vi nenhum veículo de imprensa tratar isso como “opressão, violação, machismo(mesmo vindo de uma mulher)”. Abraço pode? Qual o limite entre ter uma atitude de bom humor e uma violação? Seria entre um abraço e um beijo ou se a “vítima” é mulher ou homem?

  23. Jonas Responder

    Nunca li tanta bobagem, não se está considerando o contexto em que estamos vivendo neste momento. Os turistas estava aproveitando as férias e pq ele tomou a ousadia de beijar uma repórter ja estão levando pro lado do feminismo, de assédio entre outros. Penso que nós deveriamos ser flexiveis e parar de ficar julgando tudo o tempo todo e sempre levando pra um lado negativo. Uns pedem paz e amor no mundo, esse homem tem uma atitude não violenta, mas da mesma forma levam pra um lado violento montando um contexto que existe na cabeça de quem ja tem influencia pra isso. O ser humano é complexo de mais pra julgar uma atitude isolada pra um histórico ou contexto de agressividade em qualquer sentido.

  24. Antônio Responder

    É muita punheta intelectual.. aliás, neste caso, siririca intelectual. Feminazis, por favor, me poupem dessa baboseira. Mulheres hetero assediam, gays assediam, crianças assediam, sapatas tbm, cachorros e passarinhos tbm.. o assédio é uma manifestação do desejo, uma ação em busca da conquista. Pode ser grosseira, inaceitável, mal educada, criminosa, mas está no campo da sexualidade e do desejo, muito antes de se tratar de classe, gênero e poder. Aliás, essa tara marxista pela luta de classes – gênese de toda essa babaquice que sustenta a retórica intelectualóide de esquerda, que em penúltimo caso se desdobrou na criação do Fórum Social Mundial, com seus baluartes ideológicos, e que em último caso deu sobrevida aos movimentos sociais antisociais, com seus estudantes universitários vermelhos graduantes da estupidez e da arrogância e com seus indefectíveis agentes da transformação, ainda mais vermelhos, Chavistas, Castristas, estúpidos e arrogantes, como a autora dessa merda de artigo – matou milhões de inocentes na antiga URSS e não levou o mundo a lugar algum. Aliás, quase acabou com o mundo de uma vez por todas. É por essas e outras que a esquerda perde, a cada dia, respeito e legitimidade. Muito mimimi estéril. Muito vitimismo travestido de luta social. É a moda secular da inteligentsia.

    Qualé, minha filha. Quer garantir o direito da mulherada, blz.. mas não força a barra, né?

  25. Antônio Responder

    A reflexão é tão estúpida, que ela mesma se denuncia ao aceitar que um pedreiro nosso seria diferente e menos digno que um ucraniano europeu.

  26. Tamires Responder

    Olha, todas as atitudes que você toma sem saber se a pessoa a qual você vai interferir quer, é desrespeito.
    Ninguém também pode simplesmente deduzir se alguém quer ou não um beijo, um abraço, seja lá o que for. Precisa haver comunicação, seja com gestos educados, palavras… enfim, tem que haver consenso, antes.
    Uso sempre algo mais sutil que beijos pra exemplificar isso: um abraço. Quando se quer abraçar, é bonito e educado de uma das partes perguntar antes se o outro quer ser abraçado. Ou abrir os braços para ver se o outro concede esse abraço indo em direção aos seus braços ou nega.
    São gestos pequenos, simples, são poucas palavras que diferenciam as coisas do que ~pode ser~ abusivo, já que nunca sabemos o estado de espírito em que o outro se encontra, se afim de receber carinho ou não.

    Infelizmente, a educação e estrutura familiar que temos não mudou muito desde a idade média. Somos ensinados a oprimir outros, quer sejam pobres, negros, mulheres, transgêneros, homoafetivos, etc. O machismo também oprime os homens… pena não entenderem isso </3

    Enfim, não podemos nos chamar de sociedade evoluída enquanto determinamos a ideia de valor para o ser humano. Não somos tão modernos, tudo o que vocês fazem é uma reprodução da educação familiar que recebem (ou não) desde a idade média. Parem e pensem: Por que as pessoas tentam tirar a legitimidade dessas pequenas observações? Pessoalmente, eu acho que a razão seja porque é mais fácil atirar uma pedra que ter empatia e pensar no que o outro se propõe a falar.

    Só faço um pedido: Por um mundo melhor, e mais honesto, assumam seus erros, aprendam a pedir desculpas e a pensar no que fazem, ao invés de tentar tirar do outro o direito de se sentir incomodado.


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