Randolfe Rodrigues desiste da candidatura à presidência e indica Marcelo Freixo

Para o senador a esquerda brasileira ainda vive no século no XIX e que o movimento "Não vai ter Copa" foi um erro

336 1

Para o senador a esquerda brasileira ainda vive no século no XIX e que o movimento “Não vai ter Copa” foi um erro

Por Redação

O senador Randolfe Rodrigues (PSOL-AP) não é mais o pré-candidato do PSOL à presidência da república. Em carta encaminhada à direção nacional e aos militantes do partido, Rodrigues diz que o Brasil “vive uma grave ofensiva conservadora” e que a esquerda brasileira está em crise. Luciana Genro, que era vice em sua chapa, deve assumir a candidatura.

“A leitura incorreta do sentimento das massas e da indignação que explodiu nas jornadas de junho de 2013, levou a esquerda programática a acreditar que estávamos diante de uma “avenida de oportunidades”. É necessário neste momento ter humildade para fazer a autocrítica. Os modelos tradicionais da política estão em xeque, como também estão em xeque as direções, partidos e movimentos que não conseguiram se atualizar e abriram espaço para a pauta conservadora”, diz Rodrigues.

À imprensa, o senador declarou que a esquerda está no século XIX. “O povo tem paixão pelo futebol e não deveríamos ter patrocinado o ‘não vai ter copa’. A esquerda está falando uma língua e a sociedade outra completamente diferente. As esquerdas não farão as mudanças necessárias se não pensar diferente do que pensa hoje. É claro que a copa foi um erro. Não faz sentido se gastar R$ 8 bilhões com estádios faraônicos se temos 15 milhões de analfabetos. Mas o povo quer futebol. O ‘não vai ter copa’ está errado. Erramos na comunicação.”

Rodrigues indicou para o seu lugar o deputado estadual Marcelo Freixo (RJ). Freixo, que teve 914 mil votos quando concorreu à prefeitura do Rio, em 2012, disse que prefere concorrer à reeleição na Assembleia Legislativa do Rio.

Leia a seguir a carta do senador Randolfe Rodrigues na íntegra:

“Aos Militantes do Psol

À Direção do Partido

O Brasil vive uma grave ofensiva conservadora. Cada vez mais forças sociais unificadas em torno de personalidades e discursos estão empenhadas em fazer retroceder direitos e colocar o Brasil na via expressa do neoliberalismo, agora com um viés abertamente de direita, sem o verniz social-democrata de antes.

As forças sociais progressistas, divididas em diferentes plataformas e organizações, sem uma liderança comum e agregadora e sem uma compreensão compartilhada do contexto e das tarefas necessárias para fazer o Brasil avançar, mostram-se frágeis frente ao avanço conservador. A sociedade se divide entre a justa indignação pela ampliação de conquistas e uma agenda de demandas difusas à procura de uma bandeira que as unifique.

A atual Presidente da República se demonstrou incapaz de estar à altura da tarefa de unificar o país em torno de uma proposta de avanços sociais combinados com desenvolvimento econômico, ousadia na conquista dos direitos civis, reforma urbana nas cidades, ganhar corações e mentes da nação brasileira e recuperar a credibilidade do país diante do mundo.

A candidatura de Aécio Neves se tornou herdeira da pauta conservadora, alijada do poder desde a saída de Fernando Henrique, o que o tornou incapaz de apresentar ao país nada mais do que as proposições oposicionistas requentadas do passado. É um novo ecoando as velhas propostas elitistas, incapazes de responder aos novos dilemas nacionais e de alçar a condição de amálgama nacional que o momento exige.

A candidatura de Eduardo Campos, que despontava como terceira via em uma disputa tensionada entre PT e PSDB, frustra o país, mostrando-se claudicante em palavras e atos contraditórios em declarações cada vez mais desencontradas, não dando à população a segurança necessária para ser identificada como uma efetiva quebra na bipolarização entre petistas e tucanos.

Num contexto de acirrado debate não em torno de ideias, mas em torno de vitupérios e acusações mútuas cumulativas, o país se prepara para uma campanha eleitoral sem líderes e sem ideias.

Percebendo o vazio, a nação vai se sentindo órfã, e essa orfandade vai aprofundando um sentimento de abandono que dá acolhida ao desespero e com ele, a propostas de corte fascista, como da pena de morte, panaceia direitista para a violência, que se alastra não apenas na falta de políticas públicas voltadas a minimizar o choque de interesses entre ricos e pobres, mas sobretudo na falta de autoridade, que não é dada pelas armas e pelos blindados do choque que violenta os jovens que protestam por direitos nas ruas, mas pela condução moral e intelectual que só uma liderança legítima pode oferecer a nação brasileira.

Lamentavelmente o ódio e a intolerância estão se tornando a matéria prima na caça ao voto em 2014. Por que isso acontece? Porque falta ao processo eleitoral lideranças capazes de falarem nome da nação, e falta à esquerda a capacidade de se renovar e estar a altura das tarefas que o Brasil exige.

A leitura incorreta do sentimento das massas e da indignação que explodiu nas jornadas de junho de 2013, levou a esquerda programática a acreditar que estávamos diante de uma “avenida de oportunidades”. É necessário neste momento ter humildade para fazer a autocrítica. Os modelos tradicionais da política estão em xeque, como também estão em xeque as direções, partidos e movimentos que não conseguiram se atualizar e abriram espaço para a pauta conservadora.

O Psol tem que estar a altura dos seus grandes desafios. Acredito que a principal figura de nosso partido neste momento, o Deputado Estadual Marcelo Freixo, deveria assumir a responsabilidade de liderar um processo de renovação da política brasileira em 2014.

Saio da pré-campanha presidencial para retomar em plenitude minhas tarefas como Senador e a importante função de representante do Amapá, empenhando-me em melhorar cada vez mais as condições de vida do meu povo e a qualidade da política em meu estado.

Quero agradecer o carinho de militantes que defenderam a nossa candidatura durante o 3º. Congresso Nacional do Psol no último 1º de dezembro em Luziânia em Goiás, e da mesma forma agradecer o esforço de companheiros por todo o país na construção não somente desta candidatura, mas também no sonho de uma sociedade livre, democrática e socialista.

Agradeço de igual forma a companheira Luciana Genro e acredito que se for à vontade do Partido a definição do nome dela como candidata, ela estará a altura do ponto de vista intelectual, político e moral. E para isso contará com o meu engajamento. Desejo à Luciana, minha companheira destes últimos meses, uma boa luta.

Tenho Fé e Esperança no Psol e no seu Destino! Acredito em um partido que esteja à altura do Brasil e do desafio geracional de construir uma esquerda para as novas gerações neste século XXI.”



No artigo

1 comment

  1. Ricardo Rolim Xavier Responder

    Não fica muito claro a relação da desistência dele com aquilo que ele coloca na carta. Será embora ele acredite que o PSOL possa transformar inclusive a politica partidária futuramente ele vê que o próprio partido está no século XIX?Será que houveram divergências sobre o programa de governo ou estratégia de realizar a campanha? Ou simplesmente se achou fraco para concorrer diante dessa conjuntura?
    Seria interessante a Fórum fazer um entrevista com ele sobre isso e tudo o que ele colocou na carta. Também fazer um entrevista com o presidente do diretório nacional do PSOL sobre o que traz essa carta, sobre os rumos do partido e sobre o programa de governo.


x