Crise no Iraque: criada por Bush e Blair, financiada pela Arábia Saudita

Mais de dez anos depois da invasão do Iraque, em nome de um "mundo mais seguro", os jihadistas sunitas mostram que toda destruição e sangue derramado foram em vão

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Mais de dez anos depois da invasão do Iraque, em nome de um “mundo mais seguro”, os jihadistas sunitas mostram que toda destruição e sangue derramado foram em vão

Por Robert Fisk, no Alternet | Tradução: Vinicius Gomes

Então após os grotescos Talibã, Osama bin Laden e 15 dos 19 terroristas suicidas de 11 de Setembro, conheça a mais nova contribuição monstruosa da Arábia Saudita para o mundo: o Estado Islâmico do Iraque e Levante (Isil, sigla em inglês), recém-conquistadores das cidades iraquianas de Mosul e Tikrit – e possivelmente Bagdá – e também os que humilharam de vez Bush e Obama.

De Aleppo, no norte da Síria, até quase toda a fronteira do Iraque com o Irã, os jihadistas do Isil e um misto de outros mercenários pagos pelos wahhabistas da Arábia Saudita e pelos oligarcas do Kuwait, agora dominam uma área de milhares de quilômetros quadrados.

Além do papel saudita nessa catástrofe, quais outras histórias deverão ser escondidas de nós nos próximos dias e semanas?

A história do Iraque e a história da Síria são as mesmas – politicamente, militarmente e jornalisticamente: dois líderes, um xiita e outro alawita, lutando pela existência de seus regimes contra o crescente poder do exército internacional dos muçulmanos sunitas.

Enquanto os norte-americanos apoiam o primeiro-ministro Nouri al-Maliki e seu governo xiita no Iraque, os mesmos norte-americanos ainda exigem a derrubada de Bashar al-Assad e seu regime na Síria, apesar do fato de ambos os líderes hoje serem parceiro-em-armas contra os conquistadores de Mosul e Tikrit.

O financiamento do Qatar pode em breve ser redirecionado para longe dos rebeldes muçulmanos da Síria e do Iraque para o próprio regime de Assad, por conta de um temor e um ódio profundo de seus irmãos sunitas na Arábia Saudita – que poderia invadir o Qatar se quisesse.

Todos nós já sabemos sobre a “preocupação profunda” de Washington e Londres a respeito das vitórias dos islamitas – e a total destruição de tudo aquilo que norte-americanos e britânicos sangraram e morreram no Iraque. Ninguém, no entanto, sentirá tanto essa “preocupação profunda” do que o Irã xiita e os estadistas Assad da Síria e Maliki do Iraque, que podem considerar as notícias vindas de Mosul e Tikrit como um desastre político e militar. Bem quando as forças militares sírias estavam vencendo a guerra para Assad, dezenas de milhares de militantes do Iraque podem agora avançar para cima do governo de Damasco, antes ou depois de escolherem avançar para Bagdá.

Ninguém se importará agora se centenas de milhares de iraquianos têm sido chacinados desde 2003 por conta das fantasias de George W. Bush e Tony Blair. Esses dois homens destruíram o regime de Saddam Hussein para tornar o mundo mais seguro e declararam que o Iraque era parte de batalha titânica contra o “islamofascismo”. Bem, eles perderam. Lembre-se que os norte-americanos que capturaram e recapturaram Mosul para acabar com o poder dos combatentes islamitas. Eles lutaram por Fallujah duas vezes e, ambas as cidades, foram perdidas novamente para os islamitas. Os exércitos de Bush e Blair já foram há muito tempo para casa, declarando vitória.

Sob Obama, a Arábia Saudita continuará a ser tratada como um país amigavelmente “moderado” no mundo árabe, mesmo com a família real tendo sido fundada sob as convicções wahhabistas do mesmo pessoal do Isil – e mesmo com seus milhões de dólares armando esses mesmos combatentes. Assim sendo, o poder saudita tanto alimenta o monstro nos desertos do Iraque e da Síria, quanto se alinha com poderes ocidentes que os protegem.

Nós devemos lembrar que as tentativas miliares de Maliki para retomar Mosul provavelmente serão sangrentas e ferozes, assim como as batalhas de Assad para retomar suas cidades o foram. Os refugiados deixando Mosul para trás estão mais temerosos de uma vingança do governo xiita do que estão com os jihadistas sunitas que capturaram sua cidade.

Irão dizer a todos nós que consideremos o novo “califado” armado como uma “nação terrorista”. O porta-voz do Isil, Abu Mohamed al-Adnani, é inteligente – alertando contra a arrogância, falando sobre um avanço contra Bagdá quando ele pode muito bem estar pensando em Damasco. O Isil está deixando grande parte dos civis de Mosul em paz.



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