Após prever fracasso, imprensa internacional muda tom sobre Copa do Mundo no Brasil

Na véspera da Copa, meios de comunicação estrangeiros apostavam em um "caos" durante o evento

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Na véspera da Copa, meios de comunicação estrangeiros apostavam em um “caos” durante o evento

Por Patrícia Dichtchekenian, no Opera Mundi

Após os protestos anti-Copa, as greves dos metroviários, dos motoristas de ônibus e dos policiais ao redor do país, um correspondente da Al Jazeera no Brasil escreveu no dia 1 de junho que “nada iria mudar radicalmente nos próximos 12 dias”. O prenúncio do desastre continuou sendo sustentado por veículos e agências internacionais, que mantiveram o tom apocalíptico até o primeiro batuque da abertura da Copa do Mundo, no Itaquerão. Mas o tratamento mudou.

Para o New York Times, as premonições catastróficas deram lugar a “soluços menores” e o coro do pessimismo em escala mundial foi rapidamente substituído por uma grande euforia coletiva – fenômeno descrito pelo Le Monde como o “milagre brasileiro”.

Nos últimos meses, houve uma série de preocupações que permeou a imprensa internacional. Sobre a organização do evento, previa-se que os estádios não estariam prontos, os movimentos sociais “ameaçariam” o andamento dos jogos e os transportes estariam caóticos. Até a escassez de água em São Paulo foi motivo de apreensão para alguns veículos, enquanto outros questionavam o efeito das altas temperaturas da Amazônia e as suas consequências para os jogadores europeus.
Segundo o jornal alemão Frankfurter Allgemeine, o que os brasileiros estavam realmente ansiosos era por “um Brasil melhor”.

No dia 30 de maio, o próprio NYT lançou um vídeo com cenas que – segundo o jornal, são consideradas fortes – sobre a violência no Rio de Janeiro dias antes da Copa, colocando em xeque a insegurança da cidade em tom crítico e alarmista. No início daquele mesmo mês, as embaixadas de países como EUA, Alemanha, Reino Unido e Austrália enviaram guias sobre o Brasil para seus cidadãos que viajassem ao evento. Com foco na segurança, as cartilhas forneciam dicas de como “sobreviver” ao país tropical, trazendo alertas peculiares, como quanto às explosões em bueiros e cuidado com macacos e morcegos. Mas como esse pessimismo deu lugar à euforia?

Chamemos isso de “milagre brasileiro”, define o Le Monde ao longo de um texto escrito no último dia 21 de junho. Nele, o jornal francês reforça que a catástrofe anunciada não aconteceu.

Apesar de problemas logísticos e do atraso, o Brasil “organiza um Mundial à sua maneira: desordenado e simpático, despreocupado e receptivo”, define.

Na verdade, a análise dos correspondentes franceses segue a mesma linha de uma reportagem publicada pelo NYT quatro dias antes. Intitulada “As previsões do juízo final dão lugar a soluços menores no Brasil”, a matéria muda o tom negativo abordado anteriormente pelo veículo e reconhece que o funcionamento dos estádios e do transporte público merece uma avaliação positiva.

“Em geral, as condições para a maioria dos jogos têm sido excelentes. Em cidades como Natal e Salvador – onde os campos foram agredidos com chuva excepcionalmente fortes – foi comprovada a qualidade dos sistemas de drenagem. Em última análise, esta é a prioridade mais importante, pois são os jogos que geralmente definem o legado histórico de um evento”, afirma o correspondente do jornal norte-americano Sam Borden.

Para o jornalista, a Copa do Mundo tem problemas razoáveis para qualquer evento gigantesco. Exemplos não faltam para comprovar que não se trata de um fenômeno exclusivamente brasileiro. Borden relembra que nos Jogos Olímpicos de Inverno em Sochi, na Rússia, houve diversos atrasos e até falta de hotéis, que não ficaram prontos a tempo. No mesmo sentido, os Jogos de Verão de Atenas, em 2004, tiveram greves de trabalhadores e contratempos na infraestrutura. Deslizes aconteceram até mesmo no Parque Olímpico de Londres, que não estava pronto uma semana antes da cerimônia de abertura, em 2012. No ano passado, o próprio Superbowl atrasou quase uma hora em New Orleans em virtude de um apagão.
Em mudança de tom, a The Economist elogia os aeroportos brasileiros em reportagem publicada no último dia 18: apenas 6,5% dos vôos atrasaram ​​no primeiro fim de semana de competição, bem abaixo dos 15% considerados aceitáveis ​​pelos padrões internacionais, ressalta o veículo inglês. Apesar de citar as queixas da população sobre o gasto bilionário do evento, que devia ter sido melhor destinado a serviços públicos, a The Economist dá destaque a um entrevistado que estima que tais investimentos não teriam acontecido de qualquer maneira e fecha a reportagem com a frase: “Com a Copa do Mundo, pelo menos, há a festa”.

Na mesma linha, o correspondente Andy Hunter, do britânico Guardian, relata em um diário suas impressões positivas durante uma semana no país e diz estar apreciando sua viagem para o Brasil. Em Fortaleza, o jornalista inglês elogia as praias e questiona: “Como eu posso dizer isso sem dar ao meu chefe uma impressão errada?”. Em Cuiabá, Hunter revela ter se impressionado com a “paixão” dos brasileiros pelo futebol: “o fanatismo pela Seleção é extraordinário. Todos, independentemente da idade, sexo ou profissão, estão vestindo amarelo ou verde e estão reunidos por sua paixão para a equipe nacional”. Já em Brasília, o jornalista define o estádio Mané Garrincha como “magnífico”.

Apesar de já terem sido eliminados na primeira etapa do Mundial, os espanhóis do El Pais não focaram em expressões pejorativas ao Brasil como fizeram alguns veículos locais. Ao contrário, publicaram no último fim de semana a análise de uma jornalista brasileira residente em Madri que relembra os 50 anos do golpe militar e faz uma relação entre a importância do futebol de Sócrates na transição democrática, legitimando os movimentos sociais, sem exacerbar um tom alarmista sobre seus efeitos nos jogos.

Apesar de parte das críticas dos jornais internacionais terem tido fundamento, a histeria coletiva dos pessimistas só serviu para exportar o complexo de vira-lata do brasileiro. Contudo, uma coisa talvez seja certa: a baixa expectativa ajudou a surpreender na medida em que os jogos vão acontecendo e todo o alarmismo não passou de uma “marolinha”.

Foto: Opera Mundi



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19 comments

  1. Rosemeire Responder

    Ser brasileiro é mais que ficar apenas criticando.Ser brasileiro é vestir a camisa do seu país, é ter orgulho e decidir problemas apenas nas urnas.É mostrar que somos um povo civilizado,culto, alegre e que sabe receber os que nos visitam e nos trazem divisas.Parabéns, meu Brasil.Tenho orgulho de ser brasileira.

  2. Perdone Responder

    Claro que melhoraram tudo, é copa do mundo, é a atenção do mundo inteiro em um só país!
    Mas aí fica a pergunta: E depois? E depois que a Copa passar? E depois que as eleiçoes passarem? Será que vai continuar esse “bom transporte” ?
    Não será um coincidência a Copa ser realizada exatamente antes das eleições, se o Brasil ganhar, os fanaticos por futebol votarão nela com um sorrisinho no rosto, mas se perder, a imagem do Brasil vai ficar ainda pior, a máscara cairá! Então é óbvio que dilma e sua corja moverá seus pauzinhos para seleção estar a seu favor.

    1. Bruna Marquezine Responder

      A Copa do Mundo é um evento internacional que acontece de 4 em 4 anos, com inicio no mês de junho. Então realmente é uma coincidência.

    2. Historiador Responder

      A luta vai ser de quem vai aproveitar dos louros do rpé sal que já esta sim sendo explorado. Antes alguns renegados criticavam dizendo que pre sal era fantasia, vendo acontecer agora mudam discursos. Mas sinceridade o PSDB teve oportunidade de iniciar e lançar a ideia do pré-sal, mas preferiu a idéia de vender a Petrobras, que foi negada a eles nas urnas pelo povo. vc lembra disto? Obvio que não.

  3. Fábio Assunção Responder

    Lamentável, as pessoas queriam protestar , mas a Presidenta convocou o exercito inteiro para proteger seu evento egoísta.

  4. Kkikyou Responder

    Vamos ver, depois da copa será tudo igual.Embora os protestos andam acontecendo em todo o país,a imprensa não divulga para não ganharem força.A pior parte é que o brasileiro é um povo festeiro,adora bagunça e ficar de bobeira.Usaram a paixão do povo contra eles mesmo.Depois da copa irão chegar as contas aí vão querer chorar pelo dinheiro que está curto e o salario baixo.Deram a maquiagem e muitos se pintaram de palhaços.

  5. Carlos Henrique Responder

    Enxergar a metade cheia do copo é fácil. As mesmas reportagens relatam uma série de problemas que, até para brasileiros com baixos padrões de exigência, são inaceitáveis, como ingressos para assentos inexistentes, falta de comida em lanchonetes, falhas graves de segurança e perda de tempo em filas impedindo expectadores de assistir o começo das partidas. A copa segue sem maiores sobressaltos logísticos as custas feriados forçados e um grande contingente de militares reprimindo qualquer manifestação e restringindo acesso aos corredores entre estádios e hotéis além de muitas outras medidas de exceção.

  6. carlos Responder

    A pergunta que fica é: em quanto isso prejudicou o fluxo de turistas ao Brasil?
    E ainda tem gente com comentários lastreados na opinião da mídia catastrofista, com objetivos eleitorais.

  7. Orley Nascimento Responder

    A Copa será um sucesso, o Brasil poderá ou não ganhar, mas não vou votar nela. Sei separar a festa, dos rumos do meu pais, não sou idiota pois sempre soube que o evento seria bom para o pais, ruim foi os políticos se aproveitarem da ocasião.

  8. Manoel Luiz Responder

    Os brasileiros nunca foram contra a copa do mundo–pelo contrário.Mas o que protestamos são os nossos direitos e prioridades sendo deixadas pra trás de maneira tão escandalosa.Queremos que antes que os dirigentes desse país façam “bonito” pros estrangeiros,antes disso,que cuide do povo,dos seus cidadãos.Temos que pensar que o Brasil tem que se mostrar grande pra sua população,antes de se mostrar gigantesco e rico aos olhos internacionais.

  9. Juan Perez Responder

    Felcitaciones Dilma!!! Desde el exterior tenemos un concepto de pais diferente desde que asumio Lula y ahora continua Dilma. El mundial es un exito total, y las manifestaciones previas al mundial fueron directamente electorales, que la gente entiende perfectamente por eso a muy pocas personas le engañó.

  10. Antonio Alberto Trevillato Responder

    Uma coisa são aa reportagens alarmantes internacionais, outra coisa é a reivindicação dos brasileiros por investimentos. A crítica por imvestir tanto em estádios e festa e tão pouco em infra-estrutura de locomoção. Além das outras áreas, educação, saúde, segurança, etc…
    Assim, não é possível querer minimizar a reivindicação de quase dois milhões de pessoas naa ruas, com a amenização da mídia internacional! O que uma coisa tem a ver com a outra???!!

  11. Conça Responder

    Vê lá se vou escrever algo contra meu País num momento onde os holofotes mundiais estão voltados prá nós! Outros países fazem isso? Mesmo os que são considerados primeiro mundo e perfeitos?
    Roupa suja, lava-se em casa.

  12. alfredo Responder

    Eu fico impressionado como as pessoas repetem o tempo todo que o País deixou de fazer investimentos em saúde, educação e infra estrutura. Primeiro seria bem interessante verificar qual o percentual do PIB cada governo investiu, porque parece que viviamos na Suécia e em 12 anos nos tornamos o lixo do mundo. Outra coisa importante, a constituição estabelece que a responsabilidade da gestão do ensino fundamental é dos municípios e o do ensino médio é dos governos estaduais e tudo é debitado na conta do presidente de plantão (não importa qual seja). Enquanto tivermos s ilusão do salvador da pátria continuaremos a ver os mesmos (PSDB e PT) unidos aos mesmos (Jader, Sarney, Maluf, Garotinho etc). Somente com um legislativo decente é que teremos força para que as coisas andem na direção esperada.

    1. Historiador Responder

      meu caro se vc vivia uma suécia no brasil a 12 anos atrás, creio que vc faz parte da pequenissima população beneficiada com arranjos politicos esquemosos, pois o povo a séculos vive no lixo e só tirou a cebecinha de lá infelizmente com as politicas sociais de outrora. mas ainda falta muito pra melhorar. não adianta PIB elevado com seu povo pasando fome meu caro. isto é vergonhoso se vc nao tem vergonha disto, me desculpe vai morar na suécia então vaza daki.

  13. carol Responder

    Cuiabá mostrou sua força encantou os estrangeiros com sua alegria autentica. Apesar dos defeitos quem vem para cá quer logo voltar , Cuiabá quase 300 anos faz história vendo fotos antigas de Cuiabá de 100 anos atrás chego a chorar pela conquista na minha cidade que amo, provou sua capacidade e vai supreender ainda mais

  14. Milena Responder

    Óbvio que escreveram isso tudo: qual foi a fonte? A imprensa brasileira que estava 100% apostando no fracasso da Copa…

  15. Roberto Santos Responder

    Eu gostaria de saber, porque nós teremos que pagar com o nosso suor, o PORTO de MARIEL em CUBA, porque teremos que pagar, a ESCAVAÇÃO no meio do SERTÃO NORDESTINO, e todo que foi feito, para a TRANSPOSIÇÃO do Rio S. Francisco. Por que o AÉCIO pode ser CANDIDATO a PRESIDENTE? ALCKMIN a GOVERNADOR? E os presos do MENSALÃO petista já estão podendo sair. Enquanto os outros na mesma situação continuam presos? Quanto a SELEÇÃO BRASILEIRA… é a única coisa que embora ganhem muito bem. Jamais serei CONTRA Afinal sou um BRASILEIRO! Quem gosta muito da PRESIDENTA são os PAULISTAS…

  16. Historiador Responder

    Engraçado como a população realmente esquece das coisas, querem culpar o atual governo pela mazelas de séculos que existem em nosso país. Não sou PT mais os problemas do nosso país esta na nossa elite que se diz capitalista mas suga todos os recursos da educação, saúde segurança, em benefícios próprios desde de Cabral. Capitalistas que usam dinheiro publico são falsos capitalistas, diria socio-parternalistas, isto sim é um câncer. Dinheiro público pro povo e para o povo urgente (saúde educação), chega de sustentar burguesia que “arrota” falso capitalismo usando dinheiro público. E isto ocorre antes mesmo de existir partidos políticos, então chega né.


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