Carta Desistência à candidatura a deputado federal sob a legenda PSB/REDE

Não tenho como seguir como candidato a deputado federal, mesmo declarando-me independente e sem qualquer compromisso com a chapa majoritária, em uma coligação que apoia a reeleição do governador Geraldo Alckmin e a permanência do PSDB no poder.

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“A história é um carro alegre
Cheio de um povo contente
Que atropela indiferente
Todo aquele que a negue”
(Cancion por la Unidad Latinoamericana – Chico Buarque de Holanda e Pablo Milanez)

“Sento-me à margem da rua.
O condutor troca a roda.
Não me agrada de onde venho.
Não me agrada para onde vou.
Por que observo a troca da roda com impaciência?
(Bertold Brecht)

Paro por aqui. Nunca busquei o poder, o poder não me atrai, ele é a antítese do amor, muito mais que o ódio; o que busco é a potência, a capacidade de agir e de transformar que cada pessoa possui, mesmo sem saber usar. E a maioria não sabe usar, infelizmente, rendem-se ao medo, submetem-se, sujeitam-se e se acomodam ao Sistema e suas regras de autopreservação. Em minhas quase quatro décadas de militância política e social, procurei seguir um caminho diferente e, talvez por isso mesmo, poucas vezes tive a compreensão daqueles que se submetem e se sujeitam, mesmo quando seriam os maiores beneficiários de uma nova forma de fazer política. Ainda assim, segui em frente, apontando ideias, buscando construir sonhos e juntar pessoas. Por vezes com muito êxito, deste o combate à ditadura militar, até a urbanização de uma favela em meio a uma floresta de eucaliptos, passando cineclubes e feiras de arte nas periferias, movimento estudantil, sindical, “Diretas já!”, ou em governos, com uma ação cultural transformadora, priorizando Casas de Cultura, Bibliotecas Comunitárias, a formação cultural, recreio nas férias para centenas de milhares de crianças, agentes jovens de lazer…, os Pontos de Cultura, que hoje se espalham por 17 países, a Cultura Viva, enfim. Mas tudo isso também foi feito com muita dificuldade, muito percalço, retrocessos e derrotas, pessoais e coletivas. Seguia e sigo porque algo me leva à frente, uma vocação, missão, algo que nem sei compreender direito de onde vem. Assim me moldei e fui moldado como ser político.

Mas para realizar ideias é necessário ter apoio, respaldo, votos que demonstrem que há mais pessoas que consideram importantes estas ideias e modo de fazer política. Daí o mundo da política, dos partidos, das regras do Sistema, das ordens e rumos pré-definidos. Também enveredei por este meio, atuando no PCdoB na clandestinidade, formando frentes amplas pelo fim da Ditadura, construindo o PT nos anos 80, saindo do PT quando assim se fez necessário, voltando ao PCdoB e atuando em governos, até chegar à função de Secretário da Cidadania Cultural no Ministério da Cultura. Também concorri esporadicamente em eleições, nas duas primeiras, para vereador em Campinas, com o lema “Revolte-se e vá à luta” e depois “Voto é Cultura”, em 2010, para deputado federal, propondo “Uma Nova Cultura Política”. Em 2013, convidado por Marina Silva, ajudei a fundar a REDE, um novo sonho, unindo justiça social, radicalização democrática e sustentabilidade. Mas não conseguimos ultrapassar as regras do Sistema e a REDE não pôde participar das eleições de 2014. Vários da REDE acompanharam Marina, em filiação transitória e democrática ao PSB, aguardando a legalização da REDE para o início de 2015. Novas contradições surgiram.

Tentamos. Apesar de todas as contradições e formas diferentes de ver e fazer a política, com todas as forças, disposição e vontade, buscamos pontos de convergência. Mas há limites. Não tenho como seguir como candidato a deputado federal, mesmo declarando-me independente e sem qualquer compromisso com a chapa majoritária, em uma coligação que apoia a reeleição do governador Geraldo Alckmin e a permanência do PSDB no poder. Seria incoerente com minha história. Não conseguirei fazer uma campanha honesta com a lembrança das imagens em que a Polícia Militar atacava as famílias do Pinheirinho, crianças chorando enquanto tratores derrubavam suas casas e a polícia jogava bombas em seus pais. A desumanidade com que o governo estadual tratou e trata (ou melhor, não trata) os desvalidos da Cracolândia. Ou o holocausto educacional. Ou o genocídio de jovens pobres das periferias. Ou a corrupção no Metrô, cuja obra é a de construção mais cara e lenta do mundo. Ou o fato de que em São Paulo, a Assembleia Legislativa é de tal forma cooptada, que há décadas não se realiza uma CPI relevante, tornando os desmandos e desvios do governo do estado em algo absolutamente protegido por quem os devia fiscalizar, assim, como na relação promíscua entre Tribunal de Contas do estado e governo, conforme podemos ver nas recentes revelações de propinas e contas milionárias na Suíça. Como estar junto com um governo que esta levando a terceira maior região metropolitana a um verdadeiro colapso no abastecimento de água? Por ideologia e pura submissão ao Mercado, transformaram a Sabesp numa empresa em que a maior preocupação é garantir dividendos aos acionistas na bolsa de valores em Nova York (entre 2005 e 2012, o lucro da Sabesp foi de R$ 13,8 bilhões e metade deste valor foi para os acionistas)? Dinheiro que faltou no tratamento da água, na manutenção de reservatórios e no tratamento de esgotos, além do desperdício de 40% na água tratada que, literalmente, se esvai pelo ralo. Por este motivo (e não por intempéries climáticas) mais de 20 milhões de pessoas estão ameaçadas a não ter água para beber.

Todo homem tem os seus limites e conhecê-los é o melhor caminho para uma vida sustentável. Eu conheço os meus. Meus princípios, valores e minha coerência e motivação na busca de um mundo justo, construída a partir de uma política baseada na humanidade e na amorosidade, são opostos à política praticada nos dias atuais. Prefiro não sair candidato a ultrapassar estes limites. Não será a primeira vez em que não consigo avançar por falta de força e reconhecimento político. Uma pena, eu estava motivado com a candidatura, tinha um bom programa e sei que poderia contribuir bastante para elevar a qualidade do debate político no Brasil. Mas também sei que se eu ultrapassar meus limites éticos, estarei dando mais um sinal de que fazer política de um jeito novo não é possível. Prefiro seguir tentando, seguir sonhando com a possibilidade de um novo Brasil, democrático, justo e sustentável; um Brasil em que o governo sirva e não se sirva de sua gente. Sei que estamos quase lá e ainda vai brotar um Brasil como nunca se viu, mas ainda falta regar mais o terreno. Assim, retiro minha pré-candidatura a deputado federal pela REDE, mas que, por força do Sistema Eleitoral, teria que ser apresentada sob a legenda de um partido que, no estado de São Paulo (e também em muitos outros) estará referendando hábitos e condutas políticas que sempre combati e combaterei.

Sigo como + 1 na #REDE, como um paciente jardineiro a cultivar o jardim de uma nova política que ainda florescerá no Brasil.

Há braços

Célio Turino



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1 comment

  1. Aparecida Maciel Responder

    Sua desistência é lamentável. Mas dá para entender. Aqui em Minas a ditadura exercida para calar a boca de quem não concorda com os desmandos do Aécio é de assustar, e não há consequência alguma (para o Aécio e o Psdb), apenas para quem se pronuncia contra.


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