Médica é assassinada por ex-companheiro no interior do Ceará

Por Jarid Arraes Na noite dessa terça-feira (24), a médica e professora universitária Elizabeth Bernardo de 46 anos foi assassinada por seu ex-companheiro, o fotógrafo Onofre Ribeiro, que cometeu suicídio logo em seguida. O ato...

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Por Jarid Arraes

Na noite dessa terça-feira (24), a médica e professora universitária Elizabeth Bernardo de 46 anos foi assassinada por seu ex-companheiro, o fotógrafo Onofre Ribeiro, que cometeu suicídio logo em seguida. O ato de feminicídio aconteceu na cidade de Juazeiro do Norte, que fica na região do Cariri, no interior do Ceará. Onofre desejava reatar o relacionamento, mas Elizabeth não cedeu. Por isso, em mais um caso típico de dominação misógina, o fotógrafo ateou fogo no carro e na casa da médica e a matou com um tiro de espingarda no peito. A polícia encontrou sinais de luta corporal intensa; Elizabeth havia se trancado no quarto para tentar se proteger.

Onofre é mais um resultado da criação dos homens envolvidos em uma cultura machista, que ensina aos meninos que as mulheres são propriedades masculinas. Por mais chocante que possa parecer, Onofre não é uma exceção: todos os dias aparecem notas sobre mulheres assassinadas por seus companheiros antigos ou atuais, sejam eles ficantes, namorados ou até maridos. Elizabeth é mais uma vítima da misoginia, um crime que não escolhe classe social ou nível de escolaridade.

Nossa cultura reforça constantemente a mentalidade de domínio masculino, perpetuada pelo sentimento de que mulheres devem aos homens algum tipo de relacionamento exclusivo e que não são seres com autonomia para dizer “não”. Sob essa visão, a misoginia é um tipo de violência que age de forma universal e cria forças a partir das opiniões e valores cotidianos, que quase sempre passam despercebidos.

Por mais que seja compreensível a dor dos familiares e conhecidos do fotógrafo, é extremamente alarmante que existam tantas pessoas pensando que “ninguém sabe qual era sua motivação” ou que “ele não pode ser julgado”. O crime que Onofre cometeu trata-se de um assassinato motivado por machismo e não deveria, jamais, ser passível de especulações e segundos julgamentos. É essencial lembrar que Elizabeth, que não escolheu morrer, é a principal vítima de um crime misógino e repulsivo.

Também é importante ressaltar que os feminicídios não acontecem especificamente na região do Cariri ou na cidade de Juazeiro do Norte. Os assassinatos motivados por ideias machistas não são crimes pontuais, mas sim generalizados, e muito embora tenham números preocupantes no interior do Ceará, esses crimes acontecem em todo o território nacional, incluindo as grandes capitais. O problema está em todos os lugares, como na televisão, nas novelas, nas escolas e nas universidades. Essa questão é uma responsabilidade social de todos e nem de longe é levada a sério como deveria.

Em uma cultura que é tão permissiva com a misoginia, há de se questionar se os amigos de Onofre em qualquer momento o aconselharam, se alguma pessoa chegou a demonstrar o menor sinal de reprovação a sua incansável perseguição à Elizabeth. É lamentável que o comportamento invasivo e insistente dos homens, sem a menor desenvoltura emocional para tolerarem a ideia de rejeição, seja encarado com tanta naturalidade. Quantos enredos de romance, afinal, não são construídos em cima desses comportamentos abusivos e acabam exaltados como provas de amor?

Os homens precisam engolir a informação de que nenhum deles é merecedor inato da sexualidade feminina. Nenhuma mulher é devedora de sexo, afeto e desejo – e não há coação no mundo que possa transformar essa realidade, pois a mulher não é um objeto que pode ser comprado e manipulado. Sua vida não pode ser coagida e seu corpo não pode ser violado só porque ela é uma mulher; esse princípio é válido em todos os lugares do mundo.

No final das contas, Elizabeth é mais uma mulher que perde sua vida para a misoginia; mais uma mulher que tem seu futuro e sua carreira interrompidos porque um machista a assassinou; e mais uma mulher a estampar, entre tantas outras que são esquecidas, as manchetes dos jornais. Esse não é um “crime passional”, como teima em retratar a mídia. Esse é mais um assassinato de mulher, morta pelo fato de ser mulher e, consequentemente, morta pela cultura brasileira machista.

(Foto de capa: Reprodução/Facebook)



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1 comment

  1. Ro Responder

    Jarid, ( em primeiro lugar, desculpe a falta de pontuação. Teclado desconfigurado.)
    Escrevo com todo respeito a você e ‘as lutas feministas. Mas penso que sua analise ~e totalmente equivocada. Você utiliza categorias confortáveis e não se atem ao absurdo dos fatos. E evidente que se trata de alguém que entrou em surto. Alguem desesperado, por que motivos não sei. Mulheres em surto matam seus maridos, homossexuais em surto também assassinam seus companheiros. Pais matam seus filhos etc… Misogenia, falocentrismo, patriarcalismo, não são boas categorias para analisar esse caso complexo e tragico. O machismo e` uma realidade triste , que faz muitos estragos mundo a fora, notadamente em certas regiões do Brasil . A misoginia e’ algo terrível! Os crimes que lavam a honra do macho são uma triste realidade. Mas esse caso não se encaixa na forma categorial a partir da qual você deseja analisa- lo. A complexidade humana contida nele esmaga qualquer simlifica~cao desse tipo.
    E’ por respeito a uma historia que desconheco, por respeito ao pensamento e ‘a ferramentas de analise que considero uteis em muitos contextos, que deixo esse comentário.
    Abcs
    Rodrigo


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