Opinião: Dilma Rousseff à esquerda do debate eleitoral?

Em convenção nacional, a candidata do Partido dos Trabalhadores apresentou uma plataforma de quatro reformas ao Brasil e defendeu um "Estado forte, presente e moderno"

480 4

Em convenção nacional, a candidata do Partido dos Trabalhadores apresentou uma plataforma de quatro reformas ao Brasil e defendeu um “Estado forte, presente e moderno”

Por Marcelo Hailer

Nas últimas semanas os pré-candidatos à presidência da República Aécio Neves (PSDB) e Eduardo Campos (PSB) deram longas entrevistas a canais de televisão onde deixaram claro o campo político onde estarão situados durante o debate eleitoral.

O candidato tucano disse que é necessário “romper com tudo o que está aí”, defender a redução da maioridade penal, atacar o programa Mais Médicos e que é necessário refazer as políticas de relações exteriores. Afirmou ainda que, se eleito, vai optar por alianças bilaterais com os Estados Unidos e Europa, pois, de acordo com o Neves, as atuais alianças são “ideológicas”. Todas essas declarações estão à direita do governo federal. Ou seja, se Aécio Neves for o vencedor nas urnas, em outubro, vai retomar a agenda neoliberal dos anos 90 e provavelmente abandonar o Mercosul.

Já Eduardo Campos se coloca categoricamente contra a redução da maioridade penal e favorável ao programa Mais Médicos. Diz também que vai continuar os programas sociais de Lula e Dilma, e que o problema do atual governo é de gestão, logo, o problema se chama Dilma Rousseff. Que, de acordo com o candidato do PSB, não dialoga… Posto assim, podemos afirmar que Campos se coloca ao centro do debate.

Localizado os campos discursivos os quais Neves e Campos assumiram, pergunta-se: onde a presidenta e candidata à reeleição Dilma Rousseff se encaixa? A convenção nacional do PT que referendou o nome de Rousseff, no último sábado (21), nos dá algumas respostas.

O Plano Nacional de Transformação

Durante a Convenção Nacional do Partido dos Trabalhadores, realizada no último sábado (21), a presidenta Dilma Rousseff anunciou a principal plataforma de seu programa de governo. Trata-se do Plano Nacional de Transformação, que será o principal eixo da plataforma eleitoral da candidata petista e consiste em quatro pontos: Reforma Política, que terá como foco a realização de uma Assembleia Nacional Constituinte exclusiva, o financiamento exclusivamente público das campanhas eleitorais, o voto em lista partidárias e maior participação das mulheres na política.

Vale lembrar que o PT e vários coletivos estão organizando para a semana da pátria (5 a 7 de setembro) um plebiscito popular que visa colher 1,5 milhão de assinaturas para convocar uma Assembleia Exclusiva à reforma política.

Mas, para além do eixo da reforma política, o Plano Nacional também propõe a Reforma Federativa, que tem como proposta rever os papéis de cada um dos entes federativos na composição política nacional. Portanto, seriam revistas as participações da União, estados e municípios e, o projeto petista e de “integrar e reestruturar cada uma dessas esferas políticas”.

Posteriormente vem a Reforma Urbana e dos serviços públicos. A primeira já acontece por meio do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC) e também pelo programa Minha Casa, Minha Vida (MCMV), o próximo passo seria destinar mais recursos a construção do metrô. Na questão dos serviços públicos, o Plano ressalta o programa Mais Médicos e a política em torno do Serviço de Atendimento Médico de Urgência (Samu), as Unidades de Pronto Atendimento (Upas) e a Rede Cegonha, programa destinado ao pré-natal.

A apresentação do Plano Nacional de Transformação já coloca a candidata Dilma Rousseff em um espaço diferenciado de seus principais adversários, porém, ainda há expectativa em torno da representante petista no que diz respeito a outros temas que também estão nas ruas e que podem colocar Rousseff ainda mais à esquerda de Aécio Neves e Eduardo Campos.

Uma resposta a junho

O conjunto de reformas apresentadas pela por Dilma Rousseff é uma resposta direta às demandas das ruas do Brasil nas manifestações de junho do ano passado, principalmente os eixos que tratam da reforma política e dos serviços públicos. Até porque o seu principal adversário, o tucano Aécio Neves, fala em enxugar a máquina pública, mas não reformar. Defesa clara do Estado mínimo e privatização.

Porém, outras questões serão postas durante o debate eleitoral e três delas já se fazem presentes: a descriminalização e a regulamentação da maconha, aborto e a criminalização da homofobia. Na primeira ainda não temos uma posição clara da presidenta; sobre o aborto, Dilma segue os demais e diz que a legislação atual dá conta; e sobre a criminalização da homofobia a presidenta tem se manifestado publicamente a favor do combate aos crimes motivados por orientação sexual e de sua necessária criminalização.

São estas pautas que vão fazer com que a candidata Dilma Rousseff dialogue com o setor mais jovem do eleitorado, que não nasceu em sindicatos e aprendeu política fora dos partidos, o aprendizado se deu principalmente nos coletivos que hoje pautam e debatem os temas elencados acima. É nesse aspecto que ela pode, de fato, se diferenciar de Campos e Neves e conquistar a confiança de um eleitorado que hoje rechaça os partidos políticos.

Por fim, outra posição que coloca Dilma Rousseff à esquerda de seus oponentes se dá em torno da construção de um Estado forte e presente. “Para avançarmos, é necessário tornar o Estado brasileiro, não um Estado mínimo, mas um Estado eficiente, transparente e moderno”, defendeu a presidenta.

O que se nota é que os discursos dos adversários colocam Dilma Rousseff automaticamente à esquerda do debate eleitoral. A presidenta tem dois caminhos: abraçar a agenda que está posta pelas ruas ou seguir por um caminho que pouco ou nada a diferencia de Aécio e Campos. Os sinais dão a entender que a candidata petista vai seguir pela primeira alternativa. A conferir.

Foto: Richard Casas

 

 



No artigo

4 comments

  1. João Caetano MacKay Responder

    O plebiscito popular pela constituinte acontece entre os dias 1 e 7!
    ;)

  2. Raoni Responder

    Há de se perguntar: QUÃO à esquerda? Se só são considerados os três candidatos com maior visibilidade na imprensa, com os demais candidatos e outros pontos importantes sendo invisibilizados, é óbvio que ela fica à esquerda. Se o autor analisasse as propostas a respeito de temas como Reforma Agrária, Auditoria da Dívida Pública, Passe Livre, Reforma Tributária Progressiva e caráter público da Educação e da Saúde, no mínimo Dilma ficaria no centro.

  3. Lea Marques Responder

    O texto trás vários equívocos. O Plebiscito que está sendo convocado pelos movimentos sociais e pelo PT será na semana da Pátria toda, de 01 a 07 de setembro, não visa recolher assinaturas e sim votos em urna! A meta são 10milhões de votos por uma Cosntituinte Exclusiva e Soberana do Sistema Político.

  4. Felipe Sousa Responder

    O plebiscito Nao eh do PT. Outros partidos estão na organizacao. O plebiscito está além dos partidos e buscam unir forças diversas em vista das transformacoes. Faço parte do comite igreja BH e estamos articulando tb o plebiscito.


x