Guerra Fria…e verde

Em discurso no Reino Unido, um dos principais países praticantes do "fracking", o secretário-geral da Otan tenta desqualificar grupos ambientalistas ao afirmar que estes trabalham com a Rússia

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Em discurso no Reino Unido, um dos principais países praticantes do “fracking”, o secretário-geral da Otan tenta desqualificar grupos ambientalistas ao afirmar que estes trabalham com a Rússia

Por Vinicius Gomes

Usando do dito popular de “matar dois coelhos com uma cajadada só”, o secretário-geral da Otan, Anders Rasmussen, afirmou durante um evento naquele que é considerado um dos mais influentes think-tanks fora dos EUA, o britânico Chatham House, que a Rússia estava trabalhando secretamente e em conluio com grupos ambientalistas. O objetivo? Manter a Europa uma refém energética dos russos.

“Eu me encontrei com aliados que podem confirmar que a Rússia, como parte de sofisticadas operações de informação e desinformação, se engajou ativamente com supostas organizações não-governamentais – organizações ambientalistas trabalhando contra o gás de xisto – para manter a dependência europeia do gás russo importado”, afirmou o dinamarquês.

O ex-primeiro-ministro da Dinamarca e atual secretário-geral da Otan, apoiou a invasão ao Iraque em 2003 e é reconhecidamente beligerante para com a Rússia (Wikimedia)
O ex-primeiro-ministro da Dinamarca e atual secretário-geral da Otan, apoiou a invasão ao Iraque em 2003 e é reconhecidamente beligerante para com a Rússia (Wikimedia)

Classificando a afirmação como ridícula, o Greenpeace se manifestou dizendo que a ideia da organização ser um fantoche de Vladimir Putin “é tão risível, que você tem que imaginar o que eles andam fumando no quartel-general da Otan”. Afinal, como parece ter fugido da lembrança de Rasmussen, o governo russo chegou a prender 30 ativistas, incluindo uma brasileira, que protestavam contra o início das perfurações em busca de petróleo no Ártico. O fato desencadeou um incidente internacional e os ativistas, antes de serem libertados, correram o risco de ficarem em uma prisão russa por 15 anos.

Outros grupos ambientalistas também se manifestaram sobre a “teoria da conspiração” de Rasmussen, como o britânico Rising Tide, que também afirmou ser despropositada a ideia de que organizações britânicas – em um país que importa da Rússia menos de 1% de seu gás – teriam se aliado ao governo russo.

Dois “coelhos”: Rússia e anti-fracking

O clima de Guerra Fria, que voltou a permear as relações Rússia-Ocidente, começou a ser fomentado em meados de 2013 com a promoção do bombardeio na Síria por parte do Ocidente. A situação se intensificou e chegou a níveis alarmantes durante a crise na Ucrânia e o referendo da Crimeia sobre a anexação ao território russo. Assim sendo, não surpreende muito a declaração, sem apresentar evidência alguma, de Rasmussen que já foi o primeiro-ministro da Dinamarca e é um notório beligerante, tendo inclusive apoiado a invasão do Iraque em 2003, durante sua gestão.

Ao comentar sobre o “apoio secreto” da Rússia, Rasmussen tenta usar a desgastada imagem de Putin na Europa Ocidental para enfraquecer também as causas ambientalistas, principalmente as que combatem o fracking –  prática funesta da fraturação hidráulica em busca de gás. Também não surpreende o fato de o discurso ter sido realizado em um daqueles que é considerado um dos mais influentes think-tanks fora dos EUA, o britânico Chatham House, afinal de contas, o Reino Unido é um dos países que mais têm adotado a prática do fracking em seu território.

A fraturação hidráulica em busca de gás é umas das práticas mais nocivas da indústria energética que depende de combustíveis fósseis (Reprodução)
A fraturação hidráulica em busca de gás é umas das práticas mais nocivas da indústria energética que depende de combustíveis fósseis (Reprodução)

O uso do fracking tem sido alvo de denúncias e críticas há anos, por conta das técnicas utilizadas para a extração do gás. Esse método requer a fratura das rochas subterrâneas, além de enorme quantidade de água e produtos químicos necessários para a liberar o gás – ainda sem conhecer exatamente o risco ocasionado pela prática, como a contaminação de lençóis freáticos, por exemplo.

De fato, o próprio caos na Ucrânia, que “dividiu” o mundo novamente em duas superpotências, já é um exemplo de como funciona a tática alarmista da indústria energética em nome de mais lucros: “Muitas indústrias são boas nesse tipo de jogo, mas nenhuma é mais adepta à exploração dos tempos de crises como o setor do gás global”, escreveu a renomada jornalista e ativista canadense, Naomi Klein. “Pelos últimos quatro anos, o lobby do gás tem usado a crise econômica na Europa para dizer a países, como a Grécia, que o jeito de se livrar das dívidas e do desespero, é abrir seus belos e frágeis mares para perfuração. E tem utilizado de argumentos similares para validar a utilização do fracking por toda a América do Norte e Reino Unido”, completa Klein.

A única conclusão que pode se tirar da fala do porta-voz do todo-poderoso braço militar dos EUA na Europa, é que não passa de mais uma da já antiga tentativa de desqualificar seus antagonistas em nome de, invariavelmente, lucro. Afinal de contas, o próprio Greenpeace já realizou em março deste ano, detalhados planos para políticas energéticas que removeriam por completo a necessidade da Europa importar o gás russo.



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