Nos EUA, a desigualdade tem uma nova vítima: os ricos

Após o fracasso na tática de negar que exista desigualdade econômica, os conservadores agora tentam justificá-la alegando que o imposto sobre a renda de ricos é que aumenta a desigualdade Por Sam Pizzigatti | Tradução:...

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Após o fracasso na tática de negar que exista desigualdade econômica, os conservadores agora tentam justificá-la alegando que o imposto sobre a renda de ricos é que aumenta a desigualdade

Por Sam Pizzigatti | Tradução: Daniella Cambaúva, em Carta Maior

Um dos guardiões mais destacados da chama do fundamentalismo do livre mercado quer que saibamos que todos os seus colegas ricos e poderosos dos estados vermelhos (estados com maioria de eleitores republicanos nas presidenciais) estão realmente preocupados com a má distribuição de renda.

Os principais intelectuais defensores da nossa ordem corporativa – esses analistas conservadores cujos artigos de opinião normalmente aparecem no Wall Street Journal – têm um problema. Sua defesa da plutocracia não está funcionando.

Durante esta primavera, dois acontecimentos evidenciaram esse fracasso.

O primeiro deles foi o fenômeno cultural de Thomas Piketty: um desconhecido economista francês saltou para o topo das listas de livros mais vendidos com uma obra que desenvolve um argumento convincente para não se tolerar mais as grandes concentrações de riqueza em mãos privadas existentes em qualquer lugar do mundo.

E, além disso, na semana passada houve um sobressalto político – a surpreendente queda nas primárias republicanas da Virgínia do “assistente” de Wall Street, Eric Cantor, o líder da Câmara. Seu oponente, David Brat, um desconhecido professor oriundo do Tea Party que fantasia com Ayn Rand, se apresentou diante dos eleitores com um lutador contra “os ricos e poderosos”.

“Estou nessa contra Cantor”, declarou Brat, “porque ele não representa os cidadãos do 7º distrito, mas sim as grandes corporações que buscam um tratamento privilegiado, resgate por parte de seus camarilhas políticos e uma ajuda constante para trabalhadores com salários baixos”

O que fazer diante dessas novas realidades, especialmente preocupantes para as grandes fortunas? Uma figura importante dentro dos principais círculos de pensamento da direita, o economista Stephen Moore, chefe da Fundação Heritage, quer que os defensores da concentração de riqueza comecem a entoar uma nova canção.

Basicamente, esses defensores têm negado que nos Estados Unidos existem problemas de desigualdade. Inclusive, chegaram a dizer que os pobres dos Estados Unidos vivem muito bem, enviando mensagens de texto com seus telefones celulares e usando o controle remoto de sua televisão de tela plana.

Moore está desenvolvendo uma estratégia diferente. Em um artigo publicado recentemente no Wall Street Journal em coautoria com Richard Vedder, da Universidade de Ohio, o economista aceita a desigualdade como uma realidade que deveria preocupar a todos os norte-americanos decentes, e não faz qualquer esforço para ocultar a robustez e a amplitude dessa grande divisão existente no país.

Em vez de negar a desigualdade, Moore tenta mudar as circunstâncias. Ele e seu colega Vedder argumentam que a desigualdade existente nos EUA é o resultado de políticas “progressistas” equivocadas que, de uma forma ou de outra, ou atacam os norte-americanos mais ricos ou atam as suas mãos.

Os estados azuis (com maioria de eleitores do Partido Democrata nas presidenciais), argumentam Moore e Vedder, têm uma “receita padrão” para nossos problemas econômicos que “implica aumentar os impostos dos endinheirados, incrementar o salário mínimo e, em geral, ampliar os benefícios do governo”.

Essa beberagem de medidas, diz satiricamente a dupla, supostamente reduziria a desigualdade: “Se a América simplesmente tomasse um enfoque mais ‘progressista’”, ironizam eles, “deixando para trás prioridades conservadoras típicas dos estados vermelhos, como manter os impostos baixos e fomentar os negócios, a justiça brotaria por todo o território”.

De fato, continuam Moore e Vedder, o receituário progressista tem sido um exemplo excepcional de perdedor. A evidência disso? Eles oferecem um simples dado: “A diferença de renda entre ricos e pobres tende a ser maior nos estados azuis do que nos estados vermelhos”.

O contraste observado por Moore quanto à diferença na renda reflete as cifras mais recentes do Escritório do Censo sobre os níveis de desigualdade estado por estado, calculadas por meio do coeficiente de Gini – um critério bastante habitual, embora muito criticado. Os dados do coeficiente de Gini colocam os bastiões estatais azuis, como Nova York e Califórnia, entre os lugares mais desiguais da América.

“A conclusão é quase inevitável”. Moore e Vedder afirmam “que as medidas políticas liberais – especialmente as taxas de imposto sobre a renda e a ausência de uma ‘lei de direito a trabalhar’ – fazem com que esses estados sejam menos prósperos porque afugentam os trabalhadores, as empresas e o capital”.

A Fundação Heritage, uma das principais representantes da ideologia da direita politicamente correta nos Estados Unidos, está destacando a nova análise de Moore com a esperança de que os defensores da fé no livre mercado usem esse argumento em sua réplica aos progressistas “obcecados com a redução da desigualdade de renda”.

Mas se os ideólogos conservadores tentam seguir a proposta de Moore, eles poderiam se afundar ainda mais nas areias movediças da defesa do indefensável. A nova linha argumentativa de Moore – de que a governança progressista aumenta a desigualdade – simplesmente não se sustenta.

O Centro Carter Price para o Crescimento Equitativo demonstrou o erro estatístico evidente na análise de Moore e Vedder. Os números do coeficiente de Gini que eles usam não incluem tanto o impacto dos impostos como os benefícios netos da segurança social. O resultado, diz Price, “é que a medida utilizada por eles ressalta o impacto das políticas que eles consideram ineficazes”.

Em outras palavras, não se pode afirmar seriamente, tal como Moore e Vedder pretendem, que os impostos progressivos e os programas de proteção social do governo incrementam a desigualdade e, posteriormente, oferecer como evidência números que não levam em conta o impacto dos impostos e os benefícios netos da segurança social.

O comentarista do Los Angeles Times, Michael Hiltzik, observou um problema político no novo argumento de Moore: não se pode admitir que os estados azuis estejam implementando políticas merecedoras da etiqueta “progressistas”.

Por exemplo, em relação à Califórnia, Moore e Vedder presumem que esse estado azul tem, segundo o coeficiente de Gini, uma desigualdade maior que a do Texas, um estado vermelho.

Em meados do século XX, sem dúvida, a Califórnia merecia a etiqueta de progressista. O estado tinha um sistema fiscal que aumentou a carga impositiva sobre os ricos e conseguiu a renda suficiente para financiar uma ampla gama de programas – incluindo a educação Superior gratuita através de colégios comunitários – que situaram a emergente e massiva classe média californiana na vanguarda nacional.

Mas, no final dos setenta, a Califórnia liderava a nação em um sentido bem diferente. A aprovação da Proposta 13 sobre o máximo impositivo em 1978 foi um golpe de sorte para os ricos e poderosos do estado, e assim começou o desmoronamento da infraestrutura estatal sem precedentes para a prosperidade da classe média.

“A Califórnia pode ser azul”, aponta o analista do Los Angeles Times, Hiltzik, “mas até muito pouco tempo as políticas econômicas em Sacramento foram limitadas pelo forte veto dos conservadores republicanos no legislativo”.

Em Nova York, outro exemplo utilizado por Moore como um estado azul profundamente desigual, encontramos uma história similar. Nova York, certa vez, seguiu a onda progressista. Mas essa era terminou há décadas. Conforme observou recentemente Bill de Blasio, prefeito de Nova York, as maiorias claramente não progressistas desfrutaram do veto no senado estatal durante todos – com exceção de dois – os últimos 50 anos”, e isso “no estado de Fiorello La Guardia e FDR [Franklin Delano Roosevelt]”.

Tanto na Califórnia quanto em Nova York, assim como em outros estados, grupos igualitaristas estão trabalhando para derrotar os políticos amigos dos ricos e recuperar o impulso político. Pouco a pouco, esses grupos estão começando a desfazer as políticas que desviaram a marcha de meados do século XX, que conduzia em direção a uma maior igualdade social e econômica.

Moore e seus colegas estão cientes disso. Sabem muito bem que a negação instintiva da desigualdade, o principal argumento da direita até agora, não poderá deter a nova onda igualitarista.

Desgraçadamente – para os plutocratas de todo o mundo –, tampouco o poderá o último movimento de Moore para turvar as águas da desigualdade.

Sam Pizzigati é um jornalista veterano especializado em desigualdade econômica. É responsável pela publicação semanal “Too Much”, do Institute for Policy Studies. Seu último livro, “The Rich Don’t Always Win: The Forgotten Triumph over Plutocracy that Created the American Middle Class, 1900-1970” (em tradução livre: “Os ricos não ganham sempre: o triunfo esquecido sobre a plutocracia que criou a classe média americana, 1900-1970”) foi publicado em 2012.



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2 comments

  1. Franco Responder

    O mais importante dos USA e da maioria dos países desenvolvidos é que passam longe da esquerda, estimulam o capitalismo e o livre mercado além de uma educação de altíssima qualidade, sobra para o terceiro, quarto, quinto e sexto mundo ter que ficar com a turminha marxista pregando sua crença em toda parte.

    1. Rodrigo Xavier Responder

      Caro amigo, acredito que você não entendeu o conteúdo da mensagem.
      Eles estão tentando reformular esse sistema de liberalismo desenfreado dando mais opções de distribuição igualitária de renda. O método criado pelos Estados Unidos privilegia os mais ricos.
      Esse tipo de pensamento é mais de esquerda, tendo como um dos pensadores Marx.
      O que deve-se buscar é um equilíbrio. Os dois modos se mostraram ditatoriais. Um pelo Estado tirano e o outro a ditadura do capital.
      A massa é explorada por bancos e grandes empresas. Somos escravos de financiamentos e preços estabelecidos multinacionais.


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