Vítima de violência obstétrica é retratada como “comedora de placenta”

Os pedidos de uma mulher durante o parto foram tidos como “surto” pelo obstetra responsável, Iaperi Araújo

1762 8

Os pedidos de uma mulher durante o parto foram tidos como “surto” pelo obstetra responsável, Iaperi Araújo

Por Redação

O médico Iaperi Araújo deixou de praticar a obstetrícia após presenciar o que ele chamou de “surto”: uma paciente que quis ditar as regras de seu próprio parto. Após o ex-obstetra relatar o caso em seu Facebook, a mídia retratou a mulher de maneira ridicularizada, como uma “comedora de placenta”.

O caso aconteceu em Natal, no dia 2 de julho. O G1 noticiou apenas a versão do médico, sem ouvir a mulher. Sendo assim, Araújo foi tido como vítima de uma “surtada”, que o agrediu verbalmente, tirou seu filho do berçário e comeu a sua placenta.

Entretanto, a mãe escreveu sua versão dias depois. O blog Cientista que virou mãe divulgou o relato de mais uma paciente que sofreu violência obstétrica. Após não poder ter seu parto da forma desejada, ela ainda passa por um período de humilhação e ridicularização.

Leia trechos da versão da paciente:

Quando subi para o atendimento, ouvi um velho grosseiro me gritando: ‘Por que não fez pré-natal?’. Eu respondi: ‘Primeiro, eu fiz pré-natal, mas não trouxe nada comigo, e segundo, o senhor não precisa falar assim comigo, viu’.
(…)
Foi então quando o doutor resolveu me examinar. Essa violência foi um pouco mais dolorosa. Ele fez um toque, rompeu minha membrana, gritei de dor.
(…)
Pedi para ficar nua, e me foi dito que eu não poderia ficar nua, pois naquele hospital eu deveria seguir os protocolos. Consegui ficar apenas com a bata cobrindo-me os peitos. Aceitei a analgesia. Não sabia eu que ali estava o ápice da dominação do meu ser, pois sem sentir as pernas eu não poderia me defender, sair andando, correndo.
(…)
O anestesista me disse para sentar com os ombros curvados, pedi então que ele aproveitasse entre uma contração e outra, pois eu não conseguiria ficar parada naquela posição durante uma contração. Eu pedia para ele ir logo, mas ele estava muito ocupado falando ao celular.
(…)
A orientação era essa: quando você achar que não vai aguentar e vai vomitar, pare. O anestesista pressionava meu estômago com seu polegar, era fatal. Vomitei não sei nem quantas vezes, após cada contração, após ter meu estômago pressionado repetidamente.
(…)
Vi gente entrando e deixando bolsa pessoal na sala de parto, com celular tocando, vi gente entrando com walk-talking ligado. […] A pediatra, Lívia, disse que aquele parto era uma loucura, que eu era louca, e que tinha que ter aquela equipe toda lá dentro, disse que eu não era ninguém para discutir a necessidade ou não de todas aquelas pessoas ali.
(…)
Ele dizia: se você quisesse um parto sem dor faria uma cesárea, quer? Você não quer uma cesárea, ta vendo? Ta reclamando de que?
(…)
Levaram meu filho de mim injustificadamente e manifestamente contra minha vontade para o berçário para lavá-lo com sabão, tirar o vernix protetivo e embrulha-lo com fraldas descartáveis e aquecê-lo artificialmente, desdenhando de meu clamor para tê-lo em meus braços.
(…)
Infelizmente não comi minha placenta, ainda, pois ainda não tive coragem para encará-la, pegar nela, senti-la, tão cheia de mim, da minha cria, e das emoções que vivenciamos durante nove meses, e nos últimos momentos do meu bebê dentro de mim. Infelizmente também não corri nua, precisei perder alguns minutos me vestindo com roupas sujas e ensanguentadas, pois até panos limpos me foram negados.
(…)
E por fim, infelizmente não agredi o obstetra.
(…)
Foram dez dias de repouso e fortalecimento, mesmo com todas as críticas, com todos os comentários atrozes e as reportagens na mídia me deplorando. Fui chamada de louca, psicopata, disseram que deveriam tirar meu filho de mim.”

(Foto de capa: redgular/Pixabay)



No artigo

8 comments

  1. Juliana silva Responder

    Já exageros da ambas as partes.. De repente toda a equipe virou ruim e todos trataram a senhora ruim? Ou a paciente e uma louca varrida? Sinceramente.. N acredito em nenhuma versão. Já exagero de ambas! Trabalho em hospital na parte administrativa, como téc. De enfermagem.. E o mais comum q vejo sao principalmente mães surtar.. E nao a equipe INTEIRA surtar. Emfim.

    1. ju Responder

      Também achei meio exagerado o depoimento. Fico pensando, por que ela não epsquisou sobre o método de parto que queria ter antes? Pq não pe segredo que as anestesias paralisam e que nesse tipo de parto são utilizadas, né? Talvez ela devesse ter pesquisado o tipo de parto que queria ter antes…

  2. Elisa Responder

    Gustavo Lopes, prezado estudante de medicina, como vc pretende fazer para que todas as grávidas manterem o cartão de pre natal 24horas grudados nela? Vai proibi-las de entrar em trabalho de parto sem o documento iou vai omitir socorro? Estude um pouco mais, pelo bem das suas futuras pacientes, Aff.

  3. JANE CLEIDE Responder

    So tive uma filha parto normal, o trauma foi tao grande pra mim que ate hj, não penso em ter outro filho. Gustavo tudo que vc falou apoio, também entendo a senhora do acontecido, sou mulher sei o que é medico grosso, ate porque vivencie uma situação parecida no nascimento da minha filha.

  4. Daniela Responder

    Nossa, cada vez que leio mais e mais sobre isso, sobre Aderli e tantas outras fico cada vez mais chocada. Como podem maltratar tanto uma mulher que está grávida? Como podem violar tanto seus direitos, seu corpo e seu filho. Choro por elas.

  5. Juliana Responder

    Graças a Deus o Brasil está acordando para essa epidemia de violência obstétrica, que (infelizmente) é mais corriqueira do que vocês podem imaginar…..

  6. Ana Responder

    A violência obstétrica é uma infeliz realidade no Brasil. Sempre foi. Hoje a diferença é que as mulheres cada vez mais buscam informações e estão tendo condições de reconhecer essa violência. Sabem que os médicos não são donos dos seus corpos.

  7. katia Responder

    Onde aconteceu isso???
    Trabalho com partos ha 4 anos e nunca algo como esse relato principalmente a parte de analgesia que jamais”fica sem sentir as pernas” muito pelo contrário a paciente continua caminhando para acelerar o processo.


x