Vila Nova Palestina: o maior acampamento paulista

No extremo sul de São Paulo se encontra a maior ocupação do Movimento dos Trabalhadores Sem Teto (MTST). As cerca de 8 mil pessoas cadastradas lutam por uma moradia digna desde 2013, e buscam algo melhor que os precários barracos de madeira, lona, barro...

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No extremo sul de São Paulo se encontra a maior ocupação do Movimento dos Trabalhadores Sem Teto (MTST). As cerca de 8 mil pessoas cadastradas lutam por uma moradia digna desde 2013, e buscam algo melhor que os precários barracos de madeira, lona, barro e bambu de até 6m²
Por Eduardo Sá, do Fazendo Média

Acampamento Vila Nova Palestina, no extremo sul da capital paulista. Foto: Marcelo Santos Braga.

Acampamento Vila Nova Palestina, no extremo sul da capital paulista. Foto: Marcelo Santos Braga.

No extremo sul de São Paulo, a capital mais populosa do país, se encontra a maior ocupação do Movimento dos Trabalhadores Sem Teto (MTST). Assim como estamos acompanhando a resistência do povo palestino, as cerca de 8 mil pessoas cadastradas no acampamento Vila Nova Palestina lutam por uma moradia digna desde o dia 29 de novembro de 2013. A expectativa dos moradores é que, com a aprovação do novo Plano Diretor da cidade, seus sonhos se realizem. Buscam algo melhor que os precários barracos de madeira, lona, barro e bambu, quando não artefatos do lixo, de até 6m². A ocupação fica próxima ao Parque Ecológico do Guarapiranga, também reivindicado pelo movimento.

Os sem teto ocupam cerca de 300 mil m², segundo lideranças, num terreno de aproximadamente 1 milhão de m². Há 30 anos era uma propriedade privada, que ficou endividada e abandonada. Fica em frente à comunidade São Lourenço, na Rua Clamecy, no Jardim Angela, colada a uma série de mansões. Ao todo são 21 grupos, cada um com seu representante, organizados de forma descentralizada com suas cozinhas e banheiros (feminino e masculino) coletivos. Água encanada só nas cozinhas coletivas, e energia elétrica fora dos barracos e muito limitada. O esgoto escoa para o mesmo lugar dos prédios, casas e favelas no entorno. Há na entrada do acampamento um espaço de formação, onde eles também recebem as doações de ONGs, igrejas e voluntários, que, junto ao caixinha do movimento, segundo integrantes, sustenta o acampamento. Ganha mem sua maioria alimentos e roupas, e necessitam de remédios para primeiros socorros, dizem.

Muitas mulheres solteiras com crianças moram na ocupação. Foto: Marcelo Santos Braga.

Muitas mulheres solteiras com crianças moram na ocupação. Foto: Marcelo Santos Braga

Existe uma proposta de compra e venda na Vila Nova Palestina há três meses, afirmou Jussara Basso, coordenadora estadual do MTST. Com a aprovação do plano diretor ela se torna uma Zona Especial de Interesse Social (Zeis) 4, categoria de proteção ambiental mas adequada à urbanização, que tem um coeficiente de aproveitamento de 30%. Além disso, existe a Lei Estadual do Guarapiranga, que permite a construção de pelo menos 4 mil unidades habitacionais, complementou.“O plano diretor foi um degrau importante para viabilizar as moradias aqui, mas ainda tem outras questões: a construtora, qual vai ser o formato, Minha Casa Minha Vida empreiteiras ou entidades, etc. Porque com o entidades além de a gente garantir que a demanda seja nossa, a qualidade desses apartamentos é bem maior. Hoje o movimento toca um empreendimento no Jardim Salete, onde um apartamento de três dormitórios tem 63m², é quase o dobro do mínimo da empreiteira de 39m². É só o início de uma grande luta”, disse.

A prefeitura de São Paulo informou, por meio de sua assessoria, que está avaliando a viabilidade de se propor um projeto de parcelamento para área ocupada (cerca de 300 mil m²), mantendo o restante da área como parque/área verde devido intensidade de vegetação. “Apenas após a sanção do Plano Diretor Estratégico será possível saber o que é permitido no local”, afirma a nota. A prefeitura informa ainda que a Secretaria Municipal de Habitação mantém um diálogo aberto e permanente com todos os movimentos de moradia, e tudo indica que será possível construir Habitação de Interesse Social no local embora oficialmente só possa confirmar após a sanção.

O dia inteiro as construções não param. Foto: Marcelo Santos Braga.

O dia inteiro as construções não param. Foto: Marcelo Santos Braga

Devido às dificuldades de se morar numa ocupação, muitas pessoas foram embora. Mas a lista de espera, de acordo com os coordenadores, principalmente depois da votação do plano diretor, tem aumentado e em breve mais pessoas entrarão na Nova Palestina. No momento estão fazendo o terceiro recadastramento para confirmar quem está desde o início na comunidade no dia a dia, e de que forma contribui no projeto. As marcações são realizadas na parte da manhã e à noite, de modo a garantir a assinatura das pessoas que trabalham. O objetivo é fazer uma ocupação ordenada. Durante todo o dia é possível ver pessoas construindo ou melhorando seus barracos.

Cada grupo tem seu horário para café da manhã, almoço e janta, e às 19h tem a assembleia geral no topo da comunidade, onde tem um descampado e um pequeno palco. Quase todos os moradores da ocupação saem para trabalhar de manhã cedo e chegam próximo ao horário da assembleia. Os poucos postes entre as dezenas de vielas não dão vazão, então fica tudo escuro. Está marcada uma festa julhina no dia 26 de julho para arrecadar recursos para melhorar a luz e viabilizar o chuveiro com água quente. O local era conhecido como área de desova de cadáveres, ponto de usuários de drogas e estrupo, numa região conhecida pela violência.

A administração das ocupações do MTST são marcadas pela autogestão coletiva de forma descentralizada, cujas equipes mantém a disciplina no território. São divididas em: organização, apoio de auto-defesa, coordenação, comunicação, negociação, setor de trilha, trabalho comunitário, resistência urbana, etc. Cada um exerce sua função para o bom andamento do convívio, incluindo os mutirões, e cada tarefa conta ponto em relação à moradia que se apresenta no horizonte dos sem teto. O regimento interno estabelece que não pode beber, usar drogas, dentre outras regras, como a lei do silêncio, mas os acampados reconhecem a dificuldade no controle igual a qualquer condomínio. Em caso de agressão física, por exemplo, conjugal ou não, a pessoa é retirada da ocupação na hora. Também é considerada grave a falta de respeito dos homens com mulheres solteiras. “A luta depende do acampado, ele vai marcando ponto no setor de organização. Tem a marcação diária, a lista de presença nos atos, etc. E tem as regras de convívio na ocupação”, disse Simone, uma das lideranças.

Quem são os ocupantes?

Crianças brincando no descampado no topo da comunidade. Foto: Marcelo Santos Braga.

Crianças brincando no descampado no topo da comunidade. Foto: Marcelo Santos Braga

De acordo com Jussara Basso, coordenadora estadual do MTST, os sem teto são trabalhadores com uma renda mínima de até 3 salários mínimos, em geral famílias numerosas, e a maior parte de mães solteiras com mais de três filhos. São famílias de 5 a 8 pessoas que moram em regiões sem estrutura ou áreas de risco, que coabitam ou pagam aluguel caro, comprometendo até 80% das suas remunerações com habitação, complementou. Em casos extremos, tem pessoas em situação de rua, foram despejadas e hoje moram na comunidade.

A reportagem conversou com muitos moradores, a maioria deles nordestinos, alguns desempregados, e se deparou com trabalhadores de vários segmentos: garis, domésticas, merendeiras, cabeleireiros, pedreiros etc. Um casal que morava na rua até acampar foi um deles. Moram logo na entrada da ocupação (Grupo – G1) num barraco apertado, feito de madeira. Uma cama e uma mesa, e poucos pertences amontoados. Mal cabe mais de uma pessoa em pé. Joelma Campos do Santos, de 38 anos, é de Imperatriz (MA), e está grávida de 7 meses. Fumando, contou uma história de vida sofrida. Mal sabe quantos filhos tem, sendo que nenhum deles mora com ela. Não tem pai e sua mãe se matou quando tinha poucos dias de vida, foi criada pela madrasta. Parou de estudar na 3ª série, e com 19 anos foi morar em São Paulo, onde conheceu Ginoel Oliveira Santos, de 46 anos, também nordestino, de Ipiaú (BA). Mal tem notícias dos pelo menos seis filhos que deixou pelo caminho, seja com a madrasta, a ex patroa (sempre trabalhou de doméstica) ou a irmã. Não tem dinheiro para visitar Ingrid e Stephani, de 4 e 2 anos, em Suzano (SP), filhas mais novas..

Ginoel e Joelma moravam na rua e hoje sonham por uma casa. Foto: Marcelo Santos Braga.

Ginoel e Joelma moravam na rua e hoje sonham por uma casa. Foto: Marcelo Santos Braga

O casal se conheceu em Suzano, interior paulista, na época Ginoel ainda era soldador elétrico, trabalhava na Migmag. Joelma é sua sexta esposa. Morava de aluguel pago pelo irmão, que foi assassinado em 1997 por envolvimento com drogas. Faz uns bicos como pedreiro, mas a falta de dinheiro é tantaultimamente que mal sai da comunidade. Não tem recursos para tirar os documentos perdidos, o que lhe dificulta a arrumar emprego. Desde então vagam juntos pela capital paulista, ambos desempregados. Dormindo na rua pelas redondezas, viram a ocupação e se aproximaram do movimento.Ginoel também só estudou até o colegial.

“Não estou sofrendo, estou lutando. Quem quer vencer não pede. Não devemos esperar o respeito de ninguém, e sermos honestos e dignos. Estou sem documento porque precisa pegar ônibus, e tirar foto e pagar. Não tenho dinheiro, vivemos de doações e ajuda da igreja. Tem gente que fala que vai sair uma moradia e outros não, será minha primeira casa. O bolsa aluguel é uma coisa que eles não querem falar. A gente precisa, moramos na rua, mas temos que fazer por merecer”, falou Ginoel, muitas vezes chorando ao relembrar suas histórias.

Pablo Henrique, de 12 anos, no barracão da coordenação na entrada da ocupação, foi o principal guia da reportagem. Foto: Marcelo Santos Braga.

Pablo Henrique, de 12 anos, no barracão da coordenação na entrada da ocupação, foi o principal guia da reportagem. Foto: Marcelo Santos Braga

No acampamento também tem muitas crianças. Muitas estudam nos seus antigos colégios, outras não têm condições de pagar passagem ou ir sozinhos e pararam, enquanto outros não conseguem se matricular em escolas novas por falta de comprovante de residência. O dia inteiro é possível vê-las correndo e brincando pelo acampamento, são muitas. Uma delas é Pablo Henrique Carlos da Silva, de 12 anos, que nos guiou parte do dia. Mora com a mãe e a irmã, e está de férias, cursa a 6ª série numa escola pública. Ele ajuda nas tarefas domésticas, cuida da irmã menor, mas também solta pipa, joga bola e brinca com os amigos. Ele relata como é, na visão de uma criança, morar na Nova Palestina.

“Quando chove é difícil, porque a lona é emendada com fita e arame. Pode rasgar, e os gatos também fazem furos. Aqui é ruim quando é de noite, porque as lanternas descarregam e não dá para ver nada dentro de casa”, relatou. As dificuldades não param por aí, pois cobras, ratos, dentre outros bichos, coabitam o terreno. O cuidado para não deixar água parada é outra preocupação para evitar doenças.

A doméstica Maria de Lourdes e o aposentado XXX. Foto: Marcelo Santos Braga.

A doméstica Maria de Lourdes e o aposentado Amaro Albertino. Foto: Marcelo Santos Braga

Maria de Lourdes, de 63 anos, sai cedo para trabalhar como doméstica. Está desde o primeiro dia na Vila Nova Palestina, vive de favor na casa dos outros porque aluguel não dá para pagar. Ganha R$ 450,00 mais uns bicos que faz num asilo aos finais de semana. Baiana, sua filha e neto moram em sua terra natal. Há 40 anos em São Paulo, espera finalmente ter uma casa. “Espero um apartamento, creio que em nome de Jesus”, disse.

Abília Santos Brito e Amaro Albertino da Silva, ela com 56 anos e baiana, ele com 70 anos e pernambucano, fazem a trilha diariamente, como é chamada a ronda noturna para segurança dos moradores, desde o início do acampamento. Os dois estão desempregados, é primeira vez que participam do movimento. Ela teve bursite e espera da firma de limpeza ou INSS seu pagamento por invalidez, e ele é aposentado da firma de plástico Maradeise. Não conseguiam pagar aluguel, viviam na casa de familiares na Vila Calu. “Esperamos vencer essa luta, queremos uma moradia digna. Onde a gente morava é abandonado, não tem esgoto nem asfalto. O caminhão nem buscava o lixo. É sofrido morar aqui, mas como a gente precisa passamos por todas essas barreiras”, disse Abília.

Vila Palestina ocupação fantasma?

Assembleia coordenada por Jussara Basso, no dia seguinte à aprovação do Plano Diretor. Foto: Marcelo Santos Braga;

Assembleia coordenada por Jussara Basso, no dia seguinte à aprovação do Plano Diretor. Foto: Marcelo Santos Braga

Nos deparamos, ao contrário da nossa expectativa, com um assentamento despovoado. Mas aos poucos fomos entendendo o porquê. Ficamos perto de 10 horas no local, acompanhamos a assembleia e notamos que, pelo fato de ter muitos trabalhadores, no horário comercial tem menos gente. E essa não é a única explicação. A revista Veja fez uma matéria sobre outro acampamento afirmando o chamando de fantasma, mas a resposta não é tão simples assim. De acordo com a coordenadora estadual do MTST, as ocupações passam por três estágios: a consolidação, que no caso da Nova Palestina contou com 2 mil pessoas; a massificação, cujo cadastro chegou a ter 8 mil pessoas; e a desmassificação, por conta das mobilizações e muitos não encontrarem aquilo que procuravam.

“Muitas pessoas vêm com entendimento de que vão consolidar uma moradia nesse formato com alvenaria e construir uma nova favela, só que não é dessa forma. O movimento não quer mais uma ocupação irregular, quer a reforma urbana. A gente ocupa de forma simbólica para conseguir a posse da terra e tocar a habitação popular com um programa habitacional federal. Muitas famílias achavam que já construiriam seu puxadinho, não têm esse entendimento de luta. Então a ocupação Nova Palestina já passou por esse período de desmassificação, hoje são por volta de 5 mil famílias mas dessas cerca de 1800 de fato moram aqui. As outras vêm, participam das assembleias, sabem dos informes, estão nas mobilizações, mas não moram. Continuam pagando aluguel, coabitando, morando no barraquinho com a esperança de que a sua moradia esteja aqui”, explicou.

A iluminação é precária na Nova Palestina, em algumas vielas fora dos barracos. Foto: Marcelo Santos Braga.

A iluminação é precária na Nova Palestina, em algumas vielas fora dos barracos. Foto: Marcelo Santos Braga

É preciso levar em consideração também, complementou Basso, que é muito difícil morar num local assim, principalmente nesse período de frio. “Se fosse uma escolha nossa, seria bem desnecessário a pessoa morar aqui. É sofrido, quando está calor é uma sauna e quando está frio é extremamente frio. Ainda assim famílias moram. Não adianta você construir a ideia de que as 5 mil famílias moram na ocupação, porque de fato não moram. A grande mídia quer descaracterizar e deslegitimizar a nossa luta”, concluiu.

Críticas dos vizinhos

Na Rua Clamecy, onde está a Nova Palestina, tem o Condomínio Estância Mirim com diversas casas, algumas delas até mansões. Tocamos a campainha de algumas para saber o que os vizinhos acham, e fomos apenas atendidos na casa colada ao assentamento. O jovem de 19 anos que se identificou como H. Dutra, estudante de engenharia, relatou que aumentou o muro atrás da casa com receio de roubos. Ele Sempre morou ali, e tem críticas ao movimento embora reconheça que o governo deveria dar mais moradias aos que necessitam.

Uma das muitas crianças que moram no acampamento. Foto: Marcelo Santos Braga.

Uma das muitas crianças que moram no acampamento. Foto: Marcelo Santos Braga

“Mudou a rotina, e temos pé atrás em relação à violência. Não cabe mais gente para essa região, o trânsito já é horrível, não tem escola, médico, etc. A melhor opção seria o centro, porque aqui também é longe do trabalho e dos os serviços em geral. Está virando epidemia ocupação, e tem muita gente aproveitando dos que precisam. A prefeitura e o estado tinham que arrumar um local decente, é até complicado para saúde deles sem água e saneamento. Estão construindo um CDH perto, falta força de vontade do governo e da assistência social para atender essas pessoas”, disse o morador.

O jovem relatou que já pegou 7 cobras no seu terreno depois da ocupação, dando como exemplo a questão ambiental por conta dos animais que também serão prejudicados. Eles nunca falaram com ninguém da Nova Palestina, e criticam o fato de ter muita gente que não precisa se beneficiando. Em finais de semana e dias de reuniões, exemplificou o rapaz, tem muitos carros estacionados na rua, alguns deles modernos.



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1 comment

  1. edilson silva Responder

    Moro próximo ao acamamento. No começo atrapalhou um pouco o fluxo na Estrada do M Boi Mirim. Mas eles se organizaram rapidamente e hoje é possível andar com tranquilidade por onde antes só havia a escuridão e o temor de ser assaltado como já aconteceu comigo.


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