O racismo não está nas diferenças

Por Jarid Arraes No último dia 25, Dia Nacional da Mulher Negra, data oficializada no Brasil como oportunidade para homenagear Tereza de Benguela, houve muita discussão em torno da necessidade de se criar...

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Por Jarid Arraes

No último dia 25, Dia Nacional da Mulher Negra, data oficializada no Brasil como oportunidade para homenagear Tereza de Benguela, houve muita discussão em torno da necessidade de se criar uma data separada para as mulheres negras. Muitos alegam, em comentários na própria página da Revista Fórum, que o 25 de Julho acaba sendo mais uma forma de racismo, pois diferencia as mulheres negras das demais mulheres, especialmente das brancas. Muitos comentaristas são pessoas bem intencionadas, que não conseguem identificar a raiz do desconforto que sentem em datas como o Dia da Mulher Negra ou o Dia da Consciência Negra. Eventos voltados para as pessoas negras acabam incomodando essas pessoas. Por quê?

O Brasil é um país que trata questões raciais de forma problemática e preocupante: é corriqueira a noção de que nomear cores é indesejável, ou seja, a simples constatação de que há pessoas brancas, pretas e amarelas, para grande parte da população, já é encarada como uma espécie de racismo. O que essas pessoas ignoram ou teimam em compreender é que o racismo existe a partir da ideia de superioridade de um grupo sobre outro, tendo como um de seus mecanismos o silenciamento e apagamento das manifestações identitárias do grupo considerado inferior. Portanto, o racismo não está no fato de reconhecer que existem pessoas de diferentes cores e práticas culturais enraizadas na experiência coletiva de cor, mas sim em dissimular o material e escondê-lo, sem promover qualquer reflexão sobre a diversidade existente em certo contexto social.

Em nosso país há pessoas de muitas cores, assim como manifestações culturais plurais e diversificadas; afinal, nossos ancestrais se originaram de diferentes lugares do planeta, de quem herdamos nossas religiões, danças, músicas, artes e culinária. Não há nada de racista em enxergar as belas diferenças no Brasil – mas é preciso ir além da celebração. A cor de uma pessoa, atualmente, ainda implica em situações de discriminação ou desfavorecimento. Esse é um fato histórico que vem sendo reproduzido há muitos séculos e ganha força na omissão. Por isso, agir como se o racismo não existisse não faz com que ele desapareça; pelo contrário, possibilita sua manutenção sem que em qualquer momento seja desafiado.

Quando o movimento negro e o feminismo negro estabelecem datas simbólicas e levantam o debate racial dentro dos movimentos sociais, a esperança é de que mais pessoas passem a enxergar o racismo estrutural e cotidiano, presente em todas as esferas sociais. Usando o 8 de Março – Dia da Mulher – como exemplo, é possível analisar a forma como o racismo atua: nesse dia é feita uma universalização da experiência feminina, seja no sentido político ou no sentido de homenagem. O que acontece é que todas as mulheres são unificadas sob seu gênero, sem que sejam consideradas suas especificidades. Isso não é totalmente negativo, mas ainda é muito prejudicial para certos grupos de mulheres. Ser uma mulher negra não é o mesmo que ser uma mulher branca – e isso não se justifica sob pretextos biologizantes e higienistas, mas sim por razões socioculturais. Isso é um fato pautado em dados, estatísticas e análises acadêmicas dos dados colhidos em pesquisas: a forma como mulheres negras são tratadas em nossa cultura é carregada da herança mais cruel trazida da escravidão e ainda hoje continua dificultando suas vidas.

Somos pessoas diferentes e tais diferenças são pertinentes no mundo real. Isso não quer dizer que somos melhores ou piores do que outras pelo simples fato de termos a pele de uma certa cor ou uma religião diferente da outra. Ainda assim, conscientizar-se de nossas diferenças nos prepara para reagir diante do racismo, não o aceitando independente de quem seja agredido por ele. Além disso, a plena aceitação da diversidade possibilita a convivência amistosa e o respeito pelo espaço do outro, sem nenhuma síndrome de superioridade. Desse ponto de vista, é possível entender, por exemplo, que o cabelo crespo é uma característica das pessoas negras, que ainda lutamos contra o preconceito direcionado a esse tipo de cabelo e que esse preconceito é originado no racismo. Somente identificando todos esses fatos e nomeando o racismo é possível que ele seja extinguido.

Por isso, um dia para lembrar e discutir as especificidades sociais das mulheres negras não configura racismo. Datas como 25 de Julho e 20 de Novembro são oportunidades catalisadoras de força, meios de denunciar a discriminação e de propor soluções. O racismo não está em nossas diferenças, mas sim na hierarquização que, infelizmente, ainda é atribuída a elas.

Foto de capa:  Flickr / University of the Pacific Black Law Student Assoc.



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