Como Israel usa seus civis de “escudos humanos”

Com bases militares em campi universitários e bairros superpovoados, além de treinamentos militares em comunidades próximas à Faixa de Gaza, o exército de Israel – seguindo sua lógica de ataque – também usa seus...

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Com bases militares em campi universitários e bairros superpovoados, além de treinamentos militares em comunidades próximas à Faixa de Gaza, o exército de Israel – seguindo sua lógica de ataque – também usa seus civis como “escudos humanos”

Por Max Blumenthal, em Alternet | Tradução: Vinicius Gomes

Ao longo dos contínuos ataques à Faixa de Gaza, provavelmente a frase mais usada pela propaganda israelense foi sobre “escudos humanos”. Repetida de maneira retumbante e insistente pelo primeiro-ministro Benjamin Netanyahu e apoiada pesadamente por um exército de relações públicas, a frase foi impiedosamente empregada para proteger Israel da responsabilidade do banho de sangue que tem causado em Gaza. Israel já matou mais de 1.800 civis em questão de semanas, incluindo 430 crianças, mas foi o Hamas que os forçou a isso.

Assim como muitas acusações de sionistas contra a sociedade palestina (“eles só entendem a força”, “eles ensinam suas crianças a odiar”, “eles nunca perdem uma oportunidade de perder uma oportunidade”), a acusação dos escudos humanos é uma ilusão. Israel é a sociedade mais militarizada do mundo, com soldados e instalações militares intricados por entre a sociedade civil. Com o serviço militar obrigatório para todos homens e mulheres e situação de reservista para todos os judeus até a idade de 40 anos, os israelenses judeus alternam constantemente entre o papel de civil e soldado, obscurecendo a linha divisória entre os dois.

Dentro de um dos bairros mais povoados de Tel Aviv, se encontra o Ha´Kirya, o quartel general do exército. Um gigantesco complexo de prédios monolíticos que abrigam os escritórios de onde os ataques em Gaza são planejados. Os oficiais não-uniformizados e os soldados que trabalham ali dentro, almoçam em cafés e fazem compras nos shopping centers ao redor de seus escritórios, se incorporando entre a população civil. Outra base militar está encravada no meio de um campus da Universidade de Haifa, enquanto as Universidades Hebrew e de Tel Aviv oferecem aos oficiais militares mensalidades de graça, encorajando assim suas matrículas e permitindo-os a carregar armas dentro dos campi. É difícil de encontrar algum lugar em Israel sem qualquer presença militar.

Um editorial do jornal israelense, Yedioth Aharonot, o veterano conselheiro militar Giora Eiland, argumentou a favor da punição coletiva à população civil em Gaza: “Para que se garantam nossos interesses, ao invés das demandas do outro lado, nós devemos evitar a artificial, errônea e perigosa distinção entre o pessoal do Hamas, que são os “malvados”, e os residentes em Gaza, que supostamente seriam os “mocinhos”.

Naturalmente, Eiland falhou em considerar as terríveis implicações em se eliminar a distinção entre civis e as facções armadas que se movimentam entre eles. Se a sua lógica fosse invertida e aplicada à sociedade israelense, onde civis são soldados e soldados são civis, praticamente todo cidadão israelense judeu poderiam ser considerados alvos legítimos.

Os mais vulneráveis entre a população israelense judia residem nas comunidades ao redor da Faixa de Gaza. Muitos dessas cidades de classe média e kibbutzim foram plantadas durante a década de 1950, no lugar onde os palestinos haviam acabado de serem forçados a ir embora. Em al-Majdal Asqalan, hoje conhecida como Ashkelon, os imigrantes judeus do Oriente Médio foram literalmente inseridos ali para substituir os palestinos que foram mantidos em enclaves cercados de arame farpado antes de serem exilados em Gaza. Atualmente, essas comunidades negligenciadas formam uma muralha humana contra a ameaça demográfica entalada por trás de um cordão sanitário que o estado high-tech de Israel mantém ao sul do país.

Não apenas as comunidades israelenses no sul existem sob a ameaça de misses e ataques de morteiro vindo daqueles a quem eles expulsaram, mas também são usados rotineiramente como abrigos e bases temporárias para o exército israelense.

Renan Raz, um garçom de 26 anos e ativista contra a ocupação, que vive em Tel Aviv, se lembra da angústia vivida quando o exército chegou a Dorot, o kibbutz ao sul onde ele nasceu e cresceu. Ali foi o ápice da Operação Cast Lead, o ataque israelense que deixou 1.400 palestinos de Gaza mortos entre dezembro de 2008 e janeiro de 2009. A maioria eram civis.

 “Na maioria dos dias, os soldados estavam lutando na Faixa de Gaza durante a manhã e ao entardecer eles voltavam para o nosso kibbutz – trazendo suas armas, dormindo ali e às vezes praticando treinamentos militares nos campos, no kibbutz. Eles se escondiam e faziam planos ali”, disse Raz. “Da maneira como eu via, eles nos usavam como escudos humanos”.

Raz relembrou: “Nós estávamos bem ali na fronteira com a Faixa de Gaza e eles praticavam tiros – com armas ou veículos armados – nos nossos campos. Eu podia ouvir as explosões enquanto praticavam ou até mesmo atiravam em direção à Gaza”.

 “Nós somos uma sociedade militar doente”, ele continuou. “Você não pode dizer que o Hamas está usando civis como escudos humanos, quanto de maneira óbvia o nosso exército usa a todos nós como escudos humanos e, aqueles entre nós vivendo próximo à Gaza, são definitivamente os maiores escudos”.

Já tendo recusado o serviço militar em desafio a essência militarista do país, Raz é completamente contrário ao ataque em Gaza: “Toda vez que soava o alarme contra os mísseis [do Hamas], todas as pessoas ao meu redor gritavam ‘morte aos esquerdistas, morte aos árabes!’ E eu só queria que todos tivessem uma boa vida. Eu não quero ser intimidado por mísseis, mas eu também não quero que as pessoas em Gaza sejam bombardeadas e massacradas por nenhuma razão. Eu percebi que existem os oprimidos e os opressores – não é por autodefesa”.

Durante o atual ataque à Gaza, as forças israelenses retornaram a essas comunidades próximas a Gaza e de lá lançarem seus ataques. Todavia, o medo dos “túneis do terror” e dos mísseis, fez com que muitos residentes locais fugissem, deixando verdadeiras cidades fantasmas em sua esteira.

Em uma mensagem gravada e transmitida em 29 de julho pelo canal televisivo al-Aqsa, o general das Brigadas Izzedin al-Qassam, Mohammad Daif, declarou que os combatentes em Gaza deveriam alvejar apenas os militares israelenses e evitar ataques à civis. Até agora, as Brigadas Qassam mataram 65 soldados de Israel, dois civis, um trabalhador tailandês e feriram uma coruja em um kibbutz



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5 comments

  1. Carlos Responder

    Serviço militar obrigatório o Brasil possui, quando falamos em escudos humanos isso é algo literal é diferente de uma sociedade militarizada devido a dezenas de guerras, o HAMAS de fato pendura crianças em paredes é algo completamente diferente, o sistema de defesa de Israel protege o povo Israelense enquanto o HAMAS condena suas crianças a morte, textos não mudam esses fatos, podem escrever os judeus protegem os seus os palestinos não.

    1. Ron Responder

      Queria ver os Judeus protegendo os seus sem serem um dos exércitos mais bem armados do Mundo. Nessa posição é fácil proteger os seus.
      Na posição de um habitante de Gaza, ser um escudo-humano pode até ser uma honra, morrer lutando pela libertação pode ser melhor do que não fazer nada.

      1. Augusto Responder

        Então que morram lutando pela “liberdade”, liberdade só vem se Israel for reconhecido pelo Hamas se isso não ocorrer infelizmente a guerra continua, ou seja não vai ter fim.

  2. rodrigo jardim rombauer Responder

    O Sionismo é um projeto colonial clássico nos moldes dos experimentos do século 19, ressoando em pleno século 21: ocupação e saque de terras, domínio sobre recursos naturais, expansão incessante e ilimitada de fronteiras, opressão, expulsão e eliminação física da população nativa. Tudo isso apoiado em uma mitologia de conquista.

    Nada pode ser mais anacrônico e atrasado.

    Só isso bastaria para causar espanto e perturbar a tão decantada “sensibilidade democrática ocidental”.
    Israel é um estado racista e excludente.
    Lá, a determinação da cidadania se baseia exclusivamente na ascendência judaica do indivíduo.

    Isso já seria motivo suficiente para questionar a sua organização institucional. Mas Israel adquiriu sofisticação tão perfeita nas relações públicas que eclipsa por completo seu verdadeiro status quo político. Não se trata de um estado laico.

    Israel gosta de intimidar, constranger e assassinar os Palestinos que ainda insistem em viver confinados nos bantustões criados na Cisjordânia ocupada e no maior campo de concentração da história: a Faixa de Gaza.

    Israel tem licença para matar, mutilar, sequestrar e confinar, armado e financiado pelos Estados Unidos, e tolerado pela Organização das Nações Unidas, esse braço soft do imperialismo global.

    Assim, age sem nenhum constrangimento, com um único e sistemático objetivo: eliminar os árabes ainda remanescentes no que sobrou do território pulverizado da Palestina Histórica.

    O nome disso é limpeza étnica, tecnicamente falando é genocídio.

    Nada é mais criminoso do que eliminação sistemática dos árabes – confinados em sua própria terra, sob brutal e desumana ocupação – sufocando dentro de muros e postos de controle construídos para esconder o maior crime da segunda metade do século 20.

    É o maior crime contra a humanidade da segunda metade do século 20!

    Quando você ouvir que é um assunto complexo demais para ser entendido e que não lhe diz respeito, chegou a hora de confrontar mais essa mistificação. Não é tão difícil de entender, basta ler os livros e os historiadores sérios e comprometidos em desfazer mal-entendidos fabricados. Ilan Pappe, Noam Chomsky, Ralph Shoenman, Schlomo Sand e Norman Filkenstein estão aí pra isso. Basta ousar saber.

    [Esses intelectuais e historiadores, sérios e comprometidos, não têm permissão para entrar em Israel; persona non grata no estado hebreu pois se dissociaram da narrativa oficial e propagandística do sionismo]

    Qualquer outra “posição” não passa de veemente cumplicidade com os crimes de guerra de Israel.

    O Sionismo é uma ideologia, um integrismo e um nacionalismo furioso que, para sobreviver, exibe uma fundamentação tosca sobre os direitos adquiridos de uma coletividade que se crê eleita por deus.

    Hitler acreditava na supremacia branca, achava, em sua mente perturbada, que os genes do homem branco eram mais sofisticados e preciosos.

    Os Sionistas, que comandam a vida dos Israelenses e tutelam a vida dos Palestinos, declaram com orgulho que as terras lhes foram prometidas por alguma entidade celeste. Trata-se do mesmo delírio de excepcionalidade.

    Dizer que seja uma democracia, que é legítimo seu direito de defesa no caso dos Palestinos de Gaza, que são vítimas de árabes bárbaros, é fruto de um gigantesco sistema de propaganda que faria Joseph Goebbels retornar do mundo dos mortos.

    Os Sionistas são a quintessência da intolerância e do horror, o horror abismal de que falava Joseph Conrad no seu clássico O Coração das Trevas.

    É incrível como, passados 60 anos, eles nada mais sejam do que a continuação da linhagem daqueles que com a mesma arrogância e atrevimento eliminaram judeus europeus nos sombrios campos de extermínio nazis. Os verdugos da SS e os atuais carrascos do Exército de Israel prestam um desserviço àquilo que conhecemos como Humanidade.

    O Holocausto não pode ser uma moeda de troca. E jamais será.

    O povo Palestino não vai pagar pelo que os judeus sofreram – e sabemos como sofreram.

    Como diz Eduardo Galeano, “Por acaso a tragédia do Holocausto implica uma apólice de eterna impunidade?

    É surreal que as maiores vítimas da história sejam hoje executores cínicos e impiedosos.

    Só isso bastaria para acelerar a nossa capacidade de ficar ao lado das vítimas e tomar uma posição. Isso não apenas engrandeceria o debate, mas enriqueceria nossas vidas.

    Outro ponto importante é o antissemitismo.

    Muito se fala de antissemitismo, principalmente quando Israel faz incursões em Gaza, com as consequências que todos estamos vendo, on-line, em tantos sites informativos.

    Mas, onde estaria esse sentimento?
    Qual o efeito dele na vida real, em nosso dia a dia?
    Onde ele se manifesta na prática?
    Nossa sociedade – a sociedade brasileira – é intolerante para com os judeus?
    Não vejo isso, com toda a sinceridade.

    O antissemitismo sempre aparece para ser usado como escudo para as imposturas e os crimes de Israel. É uma saída fácil – um exercício de retórica – para escapar do problema real, jamais citado em jornais brasileiros: a saber, a ocupação de terras palestinas por Israel.

    Não existe antissemitismo disseminado na sociedade brasileira.

    E quando eclode uma crise humanitária em Gaza, como a de agora, o que toma conta da sociedade e das pessoas que ainda guardam alguma humanidade no coração é um sentimento, no máximo, anti-israelense.

    E como não ser anti-israel, hoje?

  3. Carlos Responder

    https://www.youtube.com/watch?v=IDjc4svlE_k

    Um politico que eu gostei, algo raro.


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