Morre em São Paulo o historiador Nicolau Sevcenko

Professor da USP foi autor de importantes obras, como "A Revolta da Vacina" e "A Corrida para o Século 21"

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Professor da USP foi autor de importantes obras, como “A Revolta da Vacina” e “A Corrida para o Século 21”

Por Redação

O historiador Nicolau Sevcenko, de 61 anos, morreu na noite da última quarta-feira (13) em sua residência, em São Paulo. As causas da morte dependem ainda da realização de uma autópsia.

Filho de imigrantes russos vindos da região da Ucrânia, Sevcenko nasceu em São Vicente, no litoral paulista. Formou-se em História pela Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo (FFLCH-USP), em 1975, e se dedicou ao estudo da cultura brasileira e do desenvolvimento de cidades como São Paulo e Rio.

Ele se tornou doutor em História Social pela FFLCH-USP e pós-doutor pela University of London em História da Cultura. Lecionou na USP de 1985 até 2012, ano em que se aposentou. Deu aulas ainda na PUC-SP (Pontifícia Universidade Católica de São Paulo), na Unicamp (Universidade Estadual de Campinas) e em Harvard, onde ministrava História e Cultura da América Latina e do Brasil.

Também publicou, organizou, editou e traduziu dezenas de livros e centenas de artigos acadêmicos. Entre as obras de destaque, estão “A Revolta da Vacina”, “Orfeu Extático na Metrópole” e “A Corrida para o Século 21”.

A morte de Sevcenko foi lembrada por amigos e alunos nas redes sociais. Um dos depoimentos mais emocionados foi o a da historiadora Juliana Serzedello Crespim Lopes, professora da Faculdade de Comunicação Cásper Líbero, que pode ser conferido abaixo, na íntegra.

Nicolau Sevcenko e a bolinha de sabão

Via Facebook

“Eu queria poder ser ainda a graduanda maluquete que fui na virada do século. Não posso mais. Amanhã é dia útil e tenho que simplesmente ir dormir como se tudo estivesse normal. Não está. Entre tantas bizarrices, como a queda brusca da temperatura e do avião com um candidato a presidente dentro, tivemos no final da noite a notícia da morte de Nicolau Sevcenko. Se eu ainda pudesse ser quem já fui, passaria essa noite bebendo à memória dele, talvez tocando meu tambor até o dia raiar. Não me parece justo ir simplesmente dormir. Memórias bagunçam minha mente e vou tentar reuni-las aqui para tentar dizer o quanto Nicolau foi importante para mim.

Em 1997 eu era uma vestibulanda como todos os outros: cheia de dúvidas. Meus professores da escola sugeriram que eu prestasse história, mas eu nem imaginava que história era profissão. Um dia uma professora de redação, generosíssima, me levou até o departamento de história da USP para assistir uma aula. Ela sabia muito bem o que estava fazendo: era uma aula do Nicolau Sevcenko.

Foi a minha primeira experiência com o transe coletivo que eram as aulas dele. Eu tinha 17 anos e parecia ter entrado em um universo paralelo. Era uma aula sobre um homem que tinha vendido sua sombra. Era literatura mas era uma aula de história. Nicolau tinha um visual enigmático e um sotaque que misturava de tudo. Tudo nele era muito louco. Eu nunca tinha visto, em São Caetano, alguém daquele jeito. Quando saí daquela aula, eu finalmente sabia o que queria ser quando crescer: professora de história. Mais do que isso: eu queria ser uma professora de história que conseguisse criar dentro da sala de aula a experiência de supressão da realidade, ou de super imersão nela, que a aula do Nicolau tinha provocado em mim. Era isso. “Simples assim”, como dizia o professor sempre que dizia alguma coisa incrível que nunca ninguém tinha pensado.

E então eu fui parar ali. Nem sabia que existia esse negócio de pesquisa, de mestrado, de artigo, de congresso. Eu queria dar aula. Eu queria a chave daquele mistério. Eu queria viver experiências malucas na faculdade e eu podia ser aluna de Nicolau Sevcenko.

Um dia eu estava hipongando pelo departamento com a minha saia indiana fazendo bolinha de sabão com um galho de mamona que peguei no mato. A aula do Nicolau ia começar e eu me lembrei que era dia dos professores. Subi pra sala e ele já estava se preparando para falar. Cheguei no tablado e disse: hoje é dia dos professores, posso te dar um presente? Ele levantou: oba! Adoro presente! E então eu soprei uma bolinha de sabão em cima dele.

Ele brincou com a bolinha durante os segundos que ela existiu, sorrindo. Quando ela acabou, ele estava com os olhos cheios de lágrimas. Me abracou e disse: esse foi o presente mais lindo que eu já ganhei. Não sei se foi mesmo, mas a emoção dele era sincera. A aula começou.

São muitas as lembranças. Nicolau fazendo Pic com Nic para conhecer melhor os alunos. Seminário do Nicolau sobre raves com DJ e gelo seco. Nicolau sentando por engano na xícara de chá. Nicolau rebolando imitando Elvis Presley. As camisas floridas e o sapato plataforma do Nicolau. O ninho de mafagafo no cabelo do Nicolau. Claro que tem os textos, mas poxa, é em sala de aula que a genialidade do cara se apresentava.

Os anos se passaram e eu nunca mais o vi, até que hoje surge a notícia de sua morte. Eu sou professora de história há 11 anos e até hoje estou procurando a chave do transe coletivo que pude experimentar ali. Espero apenas que Nicolau tenha ido para um lugar muito louco, cheio de bolinhas de sabão pra ele brincar, e que nós, alunos dele que nos tornamos professores, possamos chegar perto do trabalho dele em nossas aulas, acendendo luzes e também fechando algumas portas do pensamento.

Saravá nosso mestre, muito obrigada!”

Foto de capa: YouTube/Reprodução



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