Os atuais (antigos) desafios de Dilma

De nada adianta querer dizer que Marina é evangélica ou que ela confunda o papel de Chico Mendes na história. Todos esses pontos são perfeitamente refutáveis e pequenos. Ela tem história e isso deve ser respeitado. Apostar nesse caminho é coisa de desespero e...

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De nada adianta querer dizer que Marina é evangélica ou que ela confunda o papel de Chico Mendes na história. Todos esses pontos são perfeitamente refutáveis e pequenos. Ela tem história e isso deve ser respeitado. Apostar nesse caminho é coisa de desespero e de quem se apequena

Por Patrick Mariano, especial para o Viomundo

 

Os atuais desafios da campanha de Dilma são antigos e apenas se evidenciaram na atualidade quando uma força política inesperada apareceu no cenário.

Aparentemente há uma crise de discurso. Mas, só aparentemente. O discurso clássico baseado na comparação com os anos de governo tucano faria sentido num cenário em que essas duas forças políticas polarizariam o debate. Diante do inusitado da morte de Eduardo Campos, esse discurso não cola mais.

Quando se diz apenas aparentemente é que o ponto central não é esse. Ele reside em algo mais profundo e que se relaciona com o que o governo Dilma apresentou de concreto e, o que quer apresentar de novo, para justificar, aos olhos do eleitor, sua continuidade.

Em um confronto com o PSDB, não era preciso algo a mais para se mostrar como opção mais evidente para as forças progressistas. Isso levou a um comodismo preocupante, gerador de uma total imobilidade confortante.

Esse comodismo, gradativamente levou a um distanciamento da gestão com os movimentos sociais, com a pauta de direitos humanos e se deixou muito tênue essa relação. Com essa distância, alguns setores, que historicamente sempre estiveram ao lado do projeto petista, acabaram migrando para outros partidos ou exercendo uma forma de atuação política que os dispensa.

Temas como a regulação da mídia, reforma agrária, reforma política, meio ambiente e direitos humanos foram escanteados da pauta política, mas justamente era o que dava mais liga com os setores que sempre sustentaram o projeto petista.

Assim, artistas, intelectuais e a militância propriamente dita, tiveram dificuldades para se enxergar dentro desse projeto político. Por óbvio, não se retira o mérito da continuidade do programa petista que mudou a cara do país socialmente, mas existe um passivo nessas pautas. Esse passivo cobra seu preço agora.

Por outro lado, nos últimos anos, a grande mídia apostou na criminalização da política, com o denuncismo que faria inveja aos tempos de Lacerda. A ponto de criar “heróis” como um juiz justiceiro. Esse ataque midiático, como bem lembrou esses dias por aqui o Luiz Carlos Azenha, fez com que crescesse o descontentamento da população na política e nos partidos.

Outro fator que entra nesse caldo é a crise da mobilidade urbana e a inviabilidade da qualidade de vida nas grandes cidades.

Essa angústia social estimulada e, por vezes genuína, não viu nos partidos políticos tradicionais um desaguador natural.  Com a crise de junho de 2013, isso ficou mais evidente.

Embora a resposta a junho por parte do governo tenha sido corajosa (Mais Médicos e uma proposta de reforma política), faltava algo.

A aprovação do governo até junho de 2013, no entanto, batia recordes. O que levava a uma falsa percepção de que tudo ia muito bem, obrigado.

Assim, deixou-se um espaço a ser ocupado no âmbito do discurso político. O PSDB não conseguiria capitalizar jamais esse vácuo porque é contraditório com seu programa, mas se o embate se desse no âmbito PT x PSDB, esse espaço vazio não representaria grandes problemas, pois Dilma poderia reocupá-lo, mudando no próximo mandato, talvez com maior participação de Lula e do PT na montagem do governo.

Acontece que aviões caem. Com a reviravolta na disputa, os dois maiores polos políticos estão à procura de um discurso para fazer frente ao de Marina. Aí é que mora o erro porque, ao invés de tentar combater o discurso da candidata do PSB, está claro que o próprio discurso “nós contra eles” está ultrapassado.

O que é a nova política? Tudo e nada ao mesmo tempo. O termo novo, no entanto, acabou caindo como luva para uma parcela da população que, de alguma forma, não se via representada mais nos dois programas polarizados. Esse termo aposta e se alimenta da despolitização. Contra isso, talvez o remédio seja politizar.

De nada adianta querer dizer que Marina é evangélica ou que ela confunda o papel de Chico Mendes na história. Todos esses pontos são perfeitamente refutáveis e pequenos.

Marina tem história e isso deve ser respeitado. Apostar nesse caminho é coisa de desespero e de quem se apequena.

A questão da governabilidade talvez seja seu calcanhar de aquiles, porque o lado mais frágil do seu discurso. Por óbvio, a maioria das pessoas não tem condições de ter ideia do tamanho da tarefa que é governar uma das maiores economias do mundo. É preciso de quadros, projeto e um leque de alianças com inúmeros setores. Dizer que irá governar com o PT e PSDB é muito pouco ou quase nada, além de uma ingenuidade preocupante.

O PSDB sabe disso, mas não vê como tragédia, porque é a chance de derrotar o PT e vir mais forte em 2018. Coisa de quem está lá atrás no campeonato, não disputa o título e, portanto, nem tem muito a perder.

O ponto é que não basta mais dizer que se vai continuar o que estava sendo feito e, que isto, é melhor do que foi feito há 12 anos atrás.

Isso é muito pouco.

Na atualidade, os desafios atuais de Dilma são mais ligados a antigos problemas de uma gestão encastelada e centralizadora. Como ter mais canais de participação popular na execução da política? Como dar mais protagonismo aos movimentos sociais? Como encarar problemas estruturais da sociedade como terra, direitos humanos, mídia e reforma política? Como aprofundar a cidadania participativa?

Isso tudo reflete na dificuldade de encontrar um discurso político que atraia os eleitores para mais 4 anos de poder. Simplesmente querer desconstruir Marina, faltando pouco mais de 30 dias para as eleições, pode ser trágico.

A militância petista — que foi o que o partido teve de mais marcante em suas campanhas — não está aparecendo. Quer porque marqueteiros fizeram crer que era dispensável, quer pelos antigos problemas apresentados durante os últimos três anos, de afastamento gradual nas decisões políticas.

A questão agora é como cativar esses atores que foram gradualmente afastados. Talvez, a melhor forma de enfrentar a “nova política” de Marina é resgatar e, por em prática, o ideal que levou o PT a ser a maior força da esquerda brasileira. Porque durante anos, o programa do partido foi o que havia de mais transformador e corajoso em nosso país.

A força da ampla aliança construída, o tempo de TV e a estrutura de campanha fazem com que seja improvável a derrota de Dilma. No entanto, assim como desastres aéreos, aquilo que é praticamente improvável de ocorrer, por vezes ocorre.



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