“Era Selfie”: como ficam as memórias e o legado entre gerações?

Para especialista, "o registro via selfies transforma eventos coletivos em vivências individuais que são exibidas nos perfis pessoais de cada um, em meio a várias outras imagens, o que acaba banalizando o que deveria ser um registro da memória"

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Para especialista, “o registro via selfies transforma eventos coletivos em vivências individuais que são exibidas nos perfis pessoais de cada um, em meio a várias outras imagens, o que acaba banalizando o que deveria ser um registro da memória”

Por Simone Silva Jardim, do Observatório da Imprensa

 Andrew Hoskins tem estudado um tema instigante: a sociedade digital e a ampla a interação e impacto das novas mídias contemporâneas na formação da memória. Seu trabalho visa entender como essas novas tecnologias influenciam no lembrar e no esquecer, e como a atual “compulsão por conectividade” está mudando a forma de vivermos o presente e entendermos o passado.

Hoskins é professor de Pesquisa Interdisciplinar da Faculdade de Ciências Sociais da Universidade de Glasgow, Escócia, e fundador e editor-chefe da revista Memory Studies, Atualmente,lidera o ESRC Google Data Analytics Project, que financia projetos voltados a demonstrar o potencial de informações e dados públicos disponíveis na internet para o desenvolvimento de pesquisas sociais e econômicas. Emseu livro iMemory: Why the past is all over?, ele propõe uma reflexão sobre a nova forma de testemunhar e compartilhar o presente através da cultura do selfie.

De passagem pelo Brasil (ver aqui), Hoskins fez uma apresentação pública sobre como as tecnologias digitais e a cultura do selfieestão alterando a forma de testemunhar e compartilhar os acontecimentos atuais, além de fazer reflexões sobre como o que foi registrado no passado se insere no ambiente virtual. Sua exposição, realizada durante o8º Fórum de Gestão do Conhecimento, Comunicação e Memória, uma iniciativa da Aberje, ECA-USP, Grupo de Estudo de Novas Narrativas, Museu da Pessoa e Memória Votorantim, foi seguida de debate mediado pelo jornalista Mauro Malin, do Observatório da Imprensa.

“Conectividade tóxica”

Hoskins tem se dedicado à pesquisa do que define como iMemory, ou seja, a “memória digital”, processo de lembrar e registrar as coisas no ambiente das novas tecnologias, que não tem a mesma permanência das recordações feitas na era pré-digital.

“Até tempos atrás, as famílias faziam álbuns de fotografias reveladas em papel ou vídeos em fitas VHS dos momentos que consideravam mais importantes. As fotos em papel sobrevivem ao tempo. Já as gravações dependem, para sua reprodução, de aparelhos que caíram em desuso. De qualquer forma, essas memórias estão mais seguras, no que diz respeito à sua armazenagem, que os vídeos eselfies de hoje, que podem ser facilmente corrompidos ou perdidos no ambiente digital. Sem contar que atualmente as pessoas estão obcecadas pelo ato de registrar uma certa imagem. Memória não é registro, e sim,o ato de lhe dar significado.”

Hoskins considera que a compulsão por conectividade (estar sempre “tuitando” ou postando mensagens nas redes sociais) e o compartilhamento de selfies(quando a pessoa tira fotografias dela própria) tem acelerado um processo de esvaziamento da memória. “O registro via selfiestransforma eventos coletivos em vivências individuais que são exibidas nos perfis pessoais de cada um, em meio a várias outras imagens, o que acaba banalizando o que deveria ser um registro da memória. Precisamos encontrar um caminho para que as mídias e as novas tecnologias digitais fortaleçam a memória e não a deteriorem ou a façam entrar em declínio.” Hoskins também defende que é preciso dar um valor adequado ao que classificamos como passado.

“Os mais jovens, e os adultos também, estão engrossando esse movimento de ‘conectividade tóxica’, que se traduz na compulsão por gravar e fotografar os momentos que estão vivendo. Pergunto: o que estão fazendo com essas lembranças e experiências? Esse legado pessoal será transmitido, naquilo que tem de mais significado, como fizeram seus pais e avós? As gerações passadas não tinham, como as de hoje, a possibilidade de distribuição e compartilhamento de suas memórias a um nível praticamente infinito e inimaginável que a web permite. Em compensação, tinham mais consciência de que eram arquivos vivos, daí fazerem registros mais seletivos dos momentos que realmente tinham como importantes em suas vidas.”

Desafio hercúleo

Hoskins também destacou a audiência efêmera dos selfies.

“São ao mesmo tempo pegajosos e essencialmente obsoletos. Sua vida útil é curtíssima. Esse fenômeno parece indicar que não dominamos nossa memória, que era bem mais ativa no passado. Afinal, hoje dependemos cada vez menos do que somos capazes de encontrar naturalmente em nossas lembranças e mais dos mecanismos de busca que as tecnologias digitais proporcionam.”

As ideias de Hoskins abrem uma boa discussão. Afinal, vivemos tempos em que as tecnologias e mídias digitais nos inebriam, a uns mais, a outros menos. O fato é que proporcionam aos nossos pequenos grandes egos as luzes da ribalta virtual. Para isso, só precisamos acionar os dispositivos fotografar ou gravar de nossos smartphones e tablets.

De pessoas anônimas em atividades triviais a eventos que têm o poder de mudar a História, hoje nada escapa das indiscretas lentes digitais. Em meio a esse turbilhão massacrante de imagens e breves registros escritos – o sucesso do Twitter com seus 140 caracteres é emblemático – fica um desafio hercúleo. Manter intacto e sempre fluindo o fio da memória coletiva e individual no que ela tem de mais significativo e valioso, o legado de uma geração para outra.

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Simone Silva Jardim é jornalista
Foto: Aki Hoshide/NASA


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