Só tem bichas nessas cidades

Tem bicha, tem bi, tem trans, tem genderfluid, tem sapatão. Somos a revolução. Dos beijos de novela às derrapadas do debate político, estamos presentes. Será a temida Ditadura Gayzista, enfim batendo à porta da “doce família tradicional” para comer as criancinhas?

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Tem bicha, tem bi, tem trans, tem genderfluid, tem sapatão. Somos a revolução. Dos beijos de novela às derrapadas do debate político, estamos presentes. Será a temida Ditadura Gayzista, enfim batendo à porta da “doce família tradicional” para comer as criancinhas? 

Por Fabricio Longo, em Os Entendidos

Um barquinho, um violão… A lua deserta das pedras do Arpoador. Cariocas são bonitos, Cariocas são bacanas, Cariocas são sacanas; sentam, quicam, chupam, pegam e rebolam. Tudo puta e viado. Só tem bicha nessa cidade. E qual o espanto?

Sungas floridas com volumes convidativos abundam na Farme. Descendo a rua, elas podem ser vistas marcando bermudas nos bares, em corpos dourados de chinelos de dedo e drinks coloridos. A pegação rola solta no último banco do ônibus, no cinema pornô da Cinelândia e no banheiro pago da Central do Brasil. Quando anoitece, as árvores do Aterro do Flamengo parecem dar frutos afrodisíacos que se multiplicam em falos duros, pulsantes e clandestinos. Não é o caso da Via Ápia, na Rio Branco, com suas fortes luzes amarelas, revelando os homens à venda. Já na Glória, motoristas excitados pelo medo pedem sigilo enquanto assediam as belas travestis. O que dizer dos mictórios dos shoppings, de Madureira aoBoulevard?

E ainda temos as saunas, com suas toalhas vagabundas que parecem esfarelar, deixando pedaços de linha enrolados em pêlos que terminarão cuspidos para não atrapalhar beijos. Na Gomes Freire, os hotéis de período oferecem 3 horas de sossego aos casais “sem local”. Há também as boates, onde ninguém parece saber o que é uma camisa. Ainda bem que na porta do Dark tem uma caixa com camisinhas. No morro e nos bailes, garotos quebram tudo ao som do pancadão. Nas ONGs, tem drag fazendo ativismo. Soma-se a isso os cursos de teatro, as operadoras de telemarketing e a dominação se completa.

Viado, bicha, maricas, mariquinha, paneleiro, boneca, fruta, frutinha, boiola, baitola, puto, manja rola, caga leite, arrombado, Bambi, gazela, pederasta, entendido, bee, frango, fresco, xibumgo, biba, mocinha, pintosa, afeminado, emo, Little Monster, homoafetivo… GAY!

Chame como quiser.

Você tenta transformar esses nomes em ofensa, como se o amor e seu gozo fossem um erro. Aliás, um pecado. Nós rimos e dizemos “bicha” para demonstrar afeto, colocando um “Nnnhaí” na frente. Só tem bicha nessa cidade. No Rio, São Paulo, BH, Salvador, Manaus, Curitiba… Do Oiapoque ao Chuí. Já falei de Londres e de Paris, ou de Las Vegas que tem show fixo da Britney? Tem bicha à beça até na Rússia, não importa o quanto isso te deixe Putin da vida!

O novo sempre vem. Embora não exista nada de novo na viadagem, os homofóbicos têm razão quando falam em “pouca vergonha”, porque a novidade é essa: a falta de vergonha. Durante séculos, nossas lágrimas e também nossos gemidos de prazer foram abafados. Fomos silenciados. Para escapar da fogueira, nos enterramos em vida. Como vampiros ou baratas, nosso domínio era a noite. O escárnio nos manteve no underground até que nosso grito de ORGULHO explodiu em paetês nas discotecas. Veio a AIDS e a nossa política – que sempre foi questão de vida ou morte – virou assunto de saúde pública. Mais do que nunca, we will survive. E agora?

Tem bicha, tem bi, tem trans, tem genderfluid, tem sapatão. Somos a revolução. Dos beijos de novela às derrapadas do debate político, estamos presentes. Será a temida Ditadura Gayzista, enfim batendo à porta da “doce família tradicional” para comer as criancinhas? Ah, essa visão polarizada não engana ninguém…

Nossa visibilidade incomoda, mas também ajuda muita gente. Os jovens LGBT sabem que não estão sozinhos, já que possuem referenciais. Estamos assumidos. A viadagem sempre existiu e existirá, não importando a quantidade de tweets contrários. O que está acabando é a noção absurda de que precisamos “pedir desculpas” por algum erro ou pedir licença para sermos cidadãos. Ainda existe muita homofobia internalizada em nossa comunidade e muita violência externa também, mas o progresso faz com que seja mais difícil nos ignorar. Estamos conseguindo nos reconhecer. O “gaydar” de todo mundo está mais aprimorado. Conservadores, tremei! Seus gritos raivosos são apenas o ganido final de um animal acuado e moribundo, uma besta fera medieval que chora porque não tem lugar no novo milênio.

Sim, só tem bicha nessa cidade. Nessa e em todas as outras, desde que o mundo é mundo. Intolerantes e babacas em geral também, e eu – que sou bicha – sou obrigado a aceitá-los, afinal a rua é publica. Ninguém vai me dizer quem amar, desejar ou muito menos se posso ou não me casar. Eu SOU. Não estou pedindo permissão. Mais do que nunca, “aceita que dói menos”. Só tem bicha nessa cidade e, reclamando ou não, vai ter mais.

Permita-se. Seja livre. Seja fabuloso.



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9 comments

  1. Oliver Responder

    Com certeza . Deixa as pessoas serem feliz . Qual as maneiras não importa. .. amo o amor .. amas as vidas ..

  2. Oliver Responder

    Com certeza . Deixa as pessoas serem feliz . Qual as maneiras não importa. .. amo o amor .. amas as vidas ..

  3. Victor Ferreira Responder

    HOMEM GOSTA DE HOMEM DESDE QUE O MUNDO É MUNDO

  4. Monica Responder

    Muito legal! Chega de hipocrisia.

  5. Diego Responder

    Fabricio obrigado pelo texto maravilhoso!

  6. Amós Responder

    A humanidade está perdida!!!!!

  7. talita Responder

    AMEI E ME SENTI MTO REPRESENTADA!

  8. marcos Responder

    Vcs vivam como quiserem. Mas tudo tem preço e consequência

  9. Darly Luzia Da Silva Responder

    Ser feliz ė o que importa, de forma tal que respeitem a individualidade de cada um.Pra que chocar com mãos dada pessoas que nasceram de 1977 pra traz? Vocês meus amores tenham um pouco mais de paciência que seus espaço estar
    am mais normal que deitar e levantar


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