Lucy (filme)

Aparentemente Hollywood descobriu que a Johansson é a combinação perfeita entre “sexyness” e super-inteligência. Assisti Lucy esses dias, e eis os meus comentários sobre o filme. Ao contrário...

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Aparentemente Hollywood descobriu que a Johansson é a combinação perfeita entre “sexyness” e super-inteligência. Assisti Lucy esses dias, e eis os meus comentários sobre o filme.
Ao contrário do que o trailer indica, Lucy não é um filme de ação. Isso porque as perseguições, capotagens, disparos e lutas corporais, viagens e corridas contra o tempo são intercaladas com longos segundos que tentam colocar numa escala visível em “tempo humano” o que acontece a todo momento sem que a gente se dê conta: as células do nosso corpo se alimentando e se dividindo e se multiplicando, o correr do sangue nas veias, as sinapses no cérebro, a reprodução na selva, enfim, tudo o que a gente tem que ignorar no dia-a-dia para não enlouquecer. Essas pausas podem entediar quem for ao cinema esperando um filme no gênero da série 24 horas.
Essa montagem é coerente com o argumento principal do filme: time is the measure. A única medida é o tempo. Nem volume, nem tamanho, nem distância: apenas o tempo nos faz perceber a existência da matéria à nossa volta e da matéria de que somos feitos. De resto, nada se divide: entre a última molécula da minha pele e a primeira de ar que se segue não há “espaço vazio” que delimite fronteiras: tudo é matéria, e um cérebro que chegasse a usar cem por cento das suas capacidades seria o estágio final da evolução animal: a matéria dotada de auto-consciência, a matéria que sabe que é matéria, a matéria que controla a matéria.
Essa é, basicamente, a ideia que as religiões monoteístas têm de Deus: uma grande consciência do Universo, onipresente, onisciente, absoluta. O discurso de Morgan Freeman (que depois de ser presidente dos estados unidos e deus, manteve a grandeza dos postos hierárquicos que representa no cinema, sendo o maior neurocientista do mundo) sugere que o ser humano interrompeu seu processo evolutivo nos “dez por cento” (uma metáfora pra “pouco”, a porcentagem cientificamente comprovada é irrelevante) do cérebro, ao querer evoluir “externamente”: com os dez por cento da capacidade cerebral que usamos, construímos e desenvolvemos tecnologias que fazem o que o nosso corpo poderia fazer sozinho, biologicamente, se continuássemos nos esforçando, como fez a nossa ancestral Lucy, filha de macaco, mãe de homem: “humans are more concerned with having than being”.
O contraponto entre racionalidade e irracionalidade se dá entre Lucy e o bandidão: à medida em que a capacidade racional dela se expande, ele fica mais animalesco. Esse contraponto é construído com uma série de estereótipos: o mafioso exótico psicopata sanguinário que fala uma lingua que soa aos ouvidos ocidentais de forma bárbara – e é por isso que as legendas em inglês durante os diálogos da máfia são dispensadas – de um lado; a mocinha bonitinha que quer salvar o mundo e se oferecer em sacrifício  para a humanidade em nome do conhecimento de outro lado. (kind of racist, but ok)

Muito bonitas as intenções da dona Lucy, mas eu, pessoalmente, fico mais inclinada a concordar com o ceticismo do Morgan Freeman no final: não sei se vale o sacrifício. Pelas lições que a História nos têm dado, de nada vale o conhecimento per se, os resultados do nosso progresso intelectual têm sempre dependido da forma com que nós o usamos, guiados pelas nossas emoções mais primitivas: ódio, desejo, medo, empatia.

É essa precisa dose de emoções primitivas e racionalidade combinadas que define o passo em que estamos na escala evolutiva; e é por isso que Lucy (e a interpretação da Johansson dá conta disso) torna-se mais “robótica” e menos “humana” conforme sua capacidade cerebral aumenta. É por isso, também, que ela precisa do policial (olá, Del Rio!) “as a reminder” do que é ser humano, como um guia de empatia que direciona o conhecimento.
Um relacionamento entre duas consciências absolutas é impossível (como seria impossível para muitas religiões a existência de dois deuses), e o relacionamento de uma consciência absoluta com outras inferiores ou “incompletas” é tedioso (daí a sociopatia dos gênios). Nós somos um passo na cadeia evolutiva dos animais, (se concordarmos que aumentar a capacidade cerebral é evoluir), e usamos nossos dez por cento aqui quietinhos. A vida pode um dia chegar a dar o próximo passo nessa cadeia, mas já não seremos nós quando lá chegarmos: será o começo da extinção da nossa espécie, que, a bem da verdade, tem sido mais nociva do que benéfica para o resto do planeta.
Portanto, pra mim, não é nessa utopia do uso total do cérebro que está o argumento do filme, mas nesta pequena epifania: o tempo é a única medida. O super-cérebro controla o tempo e escolhe o foco (Lucy encontra Lucy). Nós não temos o super-cérebro, mas temos, e isso nos baste, a capacidade de focar em algumas coisas, considerando o pouco tempo de vida que nos é dado, com essa consciência finita e imperfeita. E é quando sentimos ódio, paixão, medo ou empatia, sim, essas emoções primitivas, que conseguimos ordenar o caos que nos rodeia, para o bem ou para o mal, e sentir o tempo, a existência, a matéria, de forma mais plena e urgente: a única que importa. 

Inteligência é ver o mundo em sua amplitude e decidir no que vamos deter nossa atenção, Conhecimento não é velocidade e vertigem, mas a imobilidade do tempo, a concentração da intensidade, o controle da atenção, a eternidade do momento.  Inteligência, Lucy nos ensina, é sinônimo de foco.



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