“Até quando a branquitude brasileira vai falar por nós?”

Para a feminista Aline Djokic, reação contra série da Globo "O Sexo e as Nêga" indica que as mulheres negras "estão cansadas de ver somente estereótipos de si mesmas, em todo e qualquer veículo midiático"

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Para a feminista Aline Djokic, reação contra série da Globo “O Sexo e as Nêga” indica que as mulheres negras “estão cansadas de ver somente estereótipos de si mesmas, em todo e qualquer veículo midiático”

Por Jarid Arraes

Prestes a estrear na Rede Globo, a nova série “O Sexo e as Nêga”, de Miguel Falabella, tem recebido críticas de movimentos de mulheres negras, que consideram o seriado racista e machista. O protesto coletivo reúne textos e discussões nas redes sociais, além de páginas manifestando repúdio. Uma delas, criada com o intuito de mobilizar pessoas e boicotar a programação, conta com quase 14 mil curtidas até o momento.

Segundo a feminista negra Aline Djokic, muitas mulheres negras estão se juntando contra o programa para reivindicar uma representatividade livre de estereótipos. “Fico muito contente em ver essas iniciativas partindo das mulheres negras, de todas as idades, que estão cansadas de ver somente estereótipos de si mesmas, em todo e qualquer veículo midiático. Elas estão cansadas de serem tratadas como seres sem agência, sem capacidade de escreverem suas próprias histórias, que evidenciariam sua maneira de ver e vivenciar o mundo. Até quando a branquitude brasileira vai falar por nós? Até quando a nossa sociedade racial ‘igualitária’ vai se contentar com a visão que a branquitude tem de nós e dos espaços que a exclusão social previu para nós?”, questiona.

Miguel Falabella publicou na última terça (9) uma mensagem em sua conta pessoal no Facebook, reagindo às críticas, que considera “bobagens” e “caretice”. Falabella causou mais revolta ao declarar que as críticas partem de “negros que voltam as costas aos negros”, afirmando que são como os antigos capitães do mato que perseguiam seus irmãos fugidos. “A boa parte da branquitude insiste em lutar pelo direito de ‘usufruir’ da herança racista e escravagista do passado, do direito de permanecer na Casa Grande e só adentrar a Senzala toda vez em que o desejo de fetichização do corpo negro tornar-se latente. Para isso nos levantamos e gritamos: Chega! Não passarão!”, afirma Aline Djokic.

Djokic é graduanda em Literatura Portuguesa e Espanhola e em Pedagogia pela Universidade de Hamburgo na Alemanha e afirma que não é a primeira vez que Falabella produz conteúdo racista. “A linha de humor que ele preza é a que eu chamaria de ‘abaixo da cintura’. Na minha graduação acabei escolhendo a área de análise de filmes, de programas televisivos, na parte referente ao conteúdo e ao discurso racial. Não é a primeira vez que analiso personagens negros de obras desse autor, assim como o discurso que os envolve nessas obras. O olhar do autor sempre se mostrou racista (des)velado, deixo o prefixo entre parênteses, pois considero esse tipo de racismo naturalizado extremamente violento e nada ‘velado’ como alguns insistem em afirmar.”

As manifestantes ainda planejam protestos nas ruas, que estão sendo organizados também pelas redes sociais, e devem acontecer esse mês em cidades como Porto Alegre e São Paulo. No YouTube, foi criada a websérie #AsNegaReal, uma iniciativa de Djokic com facilitadoras do portal Blogueiras Negras, que se dedicará em comentar e criticar os episódios da série global.



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5 comments

  1. Carlos Responder

    Me digam o porque da “cultura negra” quando chega em determinado lugar só se apresenta de forma criminosa ou como putaria? Nos USA essa cultura também existe com todas as etnias mas em relação aos negros é bem mais evidente.

    1. Paulo Responder

      Fiquei com esse comentário na cabeça, até que caiu a ficha: não, meu caro Carlos, a Veja não é aqui. Vim só para visar…

      1. Carlos Responder

        Certamente a boa cultura existe, mas o que é mostrado em todas as artes é só bandidagem e putaria em relação a negros, infelizmente é verdade.

        http://www.youtube.com/watch?v=LDZX4ooRsWs

        Olhem esse vídeo, os USA de hoje não é mais como antigamente, hoje o Canada ainda salva, os USA está muito latinizado lembrando o Brasil cada vez mais, vejam o vídeo é podridão do inicio ao fim, transformaram as mulheres em putas não existe mais valores nessas sociedades, se entregaram completamente aos instintos animais o que ha de melhor no homem é desprezado.

  2. pepita Responder

    A maior vergonha e que a Globo, continua reprisando os programas onde este ator só faz piadinhas encharcadas de preconceito. Uma vergonha. Desde que vi este nome “O SENO E AS NÊGAS”, me perguntei :Como as mulheres negras aceitam isto? E como que atrizes negras aceitam este trabalho? Mas vamos protestar para que a linda cultura do nosso povo negro seja representada com a dignidade que merece

  3. Anna Priscilla Martins da Silva Campos Responder

    À princípio, ao ler a manchete do artigo, pensei: ” ô, pessoal exagerado.” Resolvi entrar, ler a reportagem e também os comentários. Porque, acredito que, para que você realmente forme uma opinião sobre qualquer que seja o assunto, você precisa “estudar” aquele assunto. Ouvir os argumentos das outras pessoas da forma mais imparcial possível e, somente depois, expor suas idéias. E, expor suas idéias, sim, mas sempre respeitando o que o outro pensa, faz ou, simplesmente é. O que o seu vizinho passa na vida DELE, você pode até “entender”, mas você não SABE o que é. E vice-versa. Eu não posso afirmar, categoricamente, que o programa em questão é ou não racista. Pra mim, pode não ser… Mas, se foi pra alguém, OPA.. algo não está correto… que tal procurar saber quais os motivos? Entender porque aquilo feriu alguém. Não é só dizer que é exagero, bobagem, frescura. Não reclamamos pelo simples prazer de reclamar. E sim, porque algo está nos incomodando. E numa sociedade de homens “inteligentes”, as pessoas deveriam dialogar. Porque violência, pra mim, é ignorância. E somos tão ignorantes…. Não posso afirmar que o Falabela é preconceituoso ou racista. Mas acho que algumas atitudes suas são… Na verdade, pra MIM, não eram… Eu, até hoje, não tinha prestado atenção nisso. Não faz parte da minha realidade. Mas para muitas outras, inclusive as pessoas que picharam o muro da Globo, são. E, eu não preciso fazer parte de minoria nenhuma para entender isso. Basta eu procurar saber, estudar, ouvir, pra aceitar que esse tipo de atitude não está correta, não é bacana, não é RESPEITOSA… Todos NÓS temos atitudes preconceituosas. Algumas pessoas que não se dizem preconceituosas, também. Às vezes, elas realmente não são, ou acham que não são. Mas os comentários ou atitudes delas podem ferir alguém. E eu tenho que aceitar que eu não devo mais fazer isso porque eu respeito o meu próximo. Assim como eu acho que o meu próximo deve aceitar sim as minhas desculpas se eu estou aceitando que falhei. Não cabe chamar ninguém de intolerante se você também é. Não aceitar as desculpas de alguém que reconheceu suas falhas, pra mim também é intolerância. Acho que não há nada mais difícil do que reconhecer as próprias falhas… Eu sou humana… Eu erro… Todos nós erramos… Eu julguei o texto pela manchete pelo simples fato de eu achar que destruir propriedade, seja pública ou privada, não é o caminho correto. Mas, lendo a reportagem, percebi que eu continuo NÃO achando correto mas, talvez, necessário. Não estou incitando ninguém a fazê-lo. Isso, jamais. Mas estou começando a aceitar que, se as pessoas fazem isso por alguma causa, é porque o ser humano ainda é estúpido demais pra que as coisas se resolvam de outra maneira. É tão simples… o meu direito termina onde começa o do outro. Ninguém é obrigado a entender o argumento do outro, ninguém é obrigado a concordar com nada nem ninguém. Mas temos que aceitar. Aceitar e entender são coisas completamente distintas. Eu acho horroroso alargador de orelha, só que isso é um problema meu. Ninguém está me obrigando a gostar ou a entender porque as pessoas usam. Cada um faz o que quiser. Mas eu tenho que aceitar. A palavra ACEITAR parece que significa empurrar goela abaixo. E é isso mesmo! Nós temos que aceitar que não somos todos iguais. Que as diferenças vão sempre existir, porque o ser humano, ser pensante que deveria ser, tem atitudes, opiniões e gostos diferentes. Somos todos diferentes!!!!! O que temos que fazer não é parar de estereotipar as pessoas. Temos que passar a entender que o ser humano, esse ser complexo por natureza, não é “formado” somente por aquilo que não aceitamos neles. Não posso afirmar que uma pessoa é ruim porque teve atitudes racistas, se foram só esses tipos de atitude que eu analisei. Alguém pode sair em defesa do Falabela, não necessariamente porque compactua com os pensamentos ou atitudes dele mas porque conhece a pessoa e sabe que ele tem qualidades também. Sejamos mais tolerantes e não haverão mais guerras….


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